Hoje, gostaria de prestar uma homenagem ao meu cineasta preferido -
David Lynch. Este longo texto fez parte da introdução de um projecto de mestrado, apresentado por mim em 2005, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte que tinha a obra de Lynch como objecto de estudo. Espero que todos aqueles que desconhecem a sua obra, busquem ver algum destes filmes porque estamos perante o cinema na sua essência mais pura.
Imaginem a seguinte visão. Um lindo céu azul, uma bela cerca branca e um agradável jardim com rosas vermelhas. É manhã numa pacífica cidade americana do
Mid-West. As pessoas são gentis e cumprimentam-nos com sorrisos no rosto. Um homem rega o seu jardim na companhia do seu cãozinho. Tudo está perfeito no mundo. O homem contorce-se de dor e cai ao chão agonizando. O seu imprestável cachorrinho limita-se apenas a latir. Enquanto ele sofre, é possível observar de perto a relva do jardim. Escondida dentro dela, um grupo de insectos nojentos rasteja na escuridão em alguma actividade incompreensível e desagradável. Bem vindo ao mundo de David Lynch.
Esta é a cena de abertura de um de seus filmes mais conhecidos, o clássico
Veludo Azul (1986). Possivelmente o melhor ponto de partida para entrar em contacto com a filmografia do cineasta, pois estão presentes todas as suas características mais marcantes.
O realizador pode ser comparado a outros grandes cineasta contemporâneos, como Tim Burton, também um criador de mundos, Brian DePalma e Lars Von Trier, que de maneira semelhante trabalham com os limites do cinema e as sensações que ele provoca.
Um típico jovem americano, Jeffrey (Kyle MacLachlan), da pequena cidade de Lumberton, faz uma surpreendente descoberta, uma orelha humana amputada. Ao tentar descobrir o "dono" da orelha, percebe que o seu mundo é maior e mais assustador do que pensava. Lumberton tem dois lados, sua aparente tranqüilidade e sua sombra assustadora. Tudo lembra um filme de atmosfera
noir, com sua
femme fatale Dorothy (Isabella Rossellini), a jovem inocente Sandy (Laura Dern) e o memorável vilão Frank Booth (Dennis Hopper).
Em princípio, estamos diante de outro representante do género policial, mas as aparências enganam. Com absoluto controle sobre imagens e sons, Lynch desfaz a ilusão de realidade. É impossível ter certeza da época em que se passa a trama, cenas de horror e violência contrastam com a beleza do lugar, criminosos cantam In Dreams enquanto torturam suas vítimas e mortos recusam-se a cair no chão, permanecendo em pé. Veludo Azul lembra um sonho, alternando momentos terríveis e belos.
Com as frequentes referências a sonhos e a própria atmosfera onírica de seus filmes, é difícil não pensar em Lynch como um surrealista. Seus filmes não são repletos de metáforas indecifráveis, como os seus detratores costumam afirmar. Não há metáforas, só cinema. Sensações quase abstractas e não compreendidas pelo espectador, mas sentidas pelo subconsciente. Aceitar o seu cinema envolve não o uso da razão, mas o da intuição.
O surrealismo possui características em comum, como a ruptura dos padrões tradicionais de espaço e tempo, ênfase em deformações físicas e mutilações, clima de mistério e humor negro satirizando instituições respeitáveis da sociedade como o Estado e a Família. Lumberton é a perfeita utopia americana, um lugar onde todos são felizes e conformados com suas vidas. Mas a cortina de felicidade é rasgada, revelando um mundo de drogas, violência e perversão.
Ao final, Jeffrey resolve o mistério e derrota a ameaça de Frank Booth e seus comparsas. No entanto, o pássaro que surge para anunciar o triunfo da bondade é falso, mecânico. Não se ignora o horror, após presenciá-lo. Jeffrey e seus amigos preservam a inocência, o espectador jamais. É uma crítica subtil ao final feliz fácil de Hollywood, talvez a instituição respeitável mais atacada por Lynch.
Para atingir este estágio de perfeição estética e artística, o realizador teve um começo de carreira interessante. Inicialmente um estudante de pintura, logo passou a interessar-se pela possibilidade de criar imagens em movimento. Nascia um cineasta. Sua primeira longa-metragem,
Eraserhead (1977) é famoso por suas imagens incomuns e pelo clima grotesco. O sucesso no circuito cult bastou para dirigir o
Homem-Elefante (1980) e a polémica adaptação de
Dune (1984).
O primeiro filme narra a vida de John Merrick (John Hurt), deformado ao ponto de ter ganho o apelido de Homem-Elefante. Aberração de circo em 1884, Merrick é descoberto por um médico inglês e apresentado ao resto do mundo. Sua transição do mundo do circo para o lado respeitável da sociedade será traumático.
Além de excelentes actuações, também conta com uma fotografia em P&B fantástica, de inspiração expressionista, o que demonstra as influências do expressionismo no cinema de Lynch, influência que também pode ser vista noutros filmes, comprovando o misto de referências e influências do realizador.
O expressionismo seria a busca pelo lado escuro da alma humana, um retrato deformado de sensações como angústia e melancolia, com a intenção de mostrar que nem tudo no mundo é belo. Veludo Azul expressa o dilema entre o desejo por uma vida tranqüila e as nossas necessidades mais inconfessáveis. Esse dilema pode ser visto em practicamente todos os filmes do autor.
David Lynch também não segue as regras de caracterização típicas de outros filmes. Inicialmente, suas personagens são propositadamente superficiais, caricatos até. Por exemplo, Jeffrey é um rapaz americano comum e bem intencionado. Nada mais é dito sobre ele, seu passado, suas relações com a família, etc.
Esse "método" de caracterização além de auxiliar na aura de mistério (comum ao surrealismo e ao expressionismo), aumenta o impacto quando os personagens trocam de identidade. Situação surreal freqüente no cinema de Lynch, pois levanta questões sobre identidade, tempo e espaço. Exemplificando, essa metamorfose ocorre explicitamente em Estrada Perdida e Mulholland Drive e de maneira apenas sugerida em Veludo Azul. Na cama com Dorothy, o bom rapaz Jeffrey mostra o quão "bom menino" realmente é.
Coração Selvagem (1990), aprofundou seu estilo marcante. É um road-movie sobre o casal Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern), cujo amor é proibido pela família dela. Ambos partem pela estrada, mas com assassinos no encalço. Além de sua atmosfera absurda, também é lembrado por sua extrema violência (algumas cenas são revoltantes) e pelo humor cínico. Coração Selvagem antecede em muitos anos
Assassinos Natos, Tarantino e toda uma série de filmes violentos-e-engraçadinhos que surgiram nos anos 90.
Também é uma sátira as aventuras e clichés típicos de Hollywood. Não importa as ameaças, o casal está destinado a vencer seus inimigos e consumar seu amor. Bem adequado ao senso de humor do filme, poucas vezes um Deux Ex Machina foi tão artificial e levou a um final feliz ridículo, de tão exagerado.
Em seguida, Lynch movimentou-se numa direção inesperada, ao criar a série de televisão
Twin Peaks, cujo mistério sobre a morte de Laura Palmer intrigou espectadores tanto quanto os seus excêntricos personagens. No entanto, problemas nos bastidores para manter o controlo sobre a série geraram o seu pior filme,
Os Últimos Dias de Laura Palmer, um filme arrastado, confuso e despropositado,onde Lynch não parecia saber muito bem o que estava a fazer.
Mas a obra-prima de Lynch talvez seja mesmo
Estrada Perdida (1997), um dos grandes filmes dos anos 90. Fred (Bill Pulman) e Renee (Patricia Arquette) são um casal com problemas de relacionamento e assustados com a entrega em casa de perturbadoras cassetes de vídeo. Uma noite Renee é morta e Fred preso, considerado culpado pela sua morte.
No entanto, esta breve sinopse não explica realmente o filme, cujo desenvolvimento da trama, que envolve troca de identidades e rupturas no espaço e no tempo, complica-se e surpreende a todo instante. Ignora intencionalmente qualquer lógica racional na sequência dos eventos, subvertendo a noção de como deve ser um filme "normal". Poucas vezes no cinema uma frase simples e objectiva como "Dick Laurent está morto" foi tão repleta de mistério.
A Estrada Perdida é um longo e sombrio pesadelo, cuja estrutura do guião lembra o anel de moëbius, aquele que aparenta ter dois lados como qualquer outro anel, mas tem apenas um, num ciclo infinito. Também é uma homenagem ao noir no cinema, cujos elementos comuns, como tramas complexas e mulheres fatais são exacerbadas ao limite aqui. Fred tenta escapar da sua culpa, qualquer que seja ela, e reencontrar seu amor perdido por Renee. Mas "Você jamais me terá", ela afirma na conclusão.
Já
Uma História Simples, inverte todas as expectativas. Inspirado numa história verídica, Alvin Straight (Richard Farnsworth), de 73 anos de idade, decide viajar para reencontrar o seu irmão doente, utilizando um pequeno tractor, já que não pode conduzir um carro.
Uma História Simples (1999) é terno e emocionante, um belo sonho, repleto de belas imagens e a música de Angelo Badalamenti, colaborador frequente do realizador. Não há perversão por trás das aparências, como em Veludo Azul. Também há espaço para um mundo de bondade e uma bela visão da relação de amor existente entre irmãos.
Recentemente em 2001,
Mulholland Drive recebeu muita atenção. É um mistério de inspiração noir, onde Betty (Naomi Watts) recém chegada a Hollywood com o sonho de ser actriz, busca ajudar a amnésica Rita (Laura Harring) a encontrar o seu passado, enquanto ocorre uma misteriosa conspiração nos bastidores da terra do cinema.
Combinando a beleza intensa de História Simples com um enredo menos complexo do que em Estrada Perdida, mas ainda confundindo o espectador e lançando dúvidas sobre a trama, com trocas de identidades e situações inesperadas. Além de questionar a importância da memória e da identidade, o cineasta também critica a maneira como Hollywood conduz os seus negócios e a pretensão do grande cinema comercial americano em simular a realidade.
É inesquecível o momento em que Betty e Rita estão no misterioso Clube do Silêncio. Um mestre de cerimónias anuncia no palco que "Não há música! Está tudo gravado! É tudo uma ilusão!". Apesar do aviso, impossível não se surpreender e se emocionar com a performance dos músicos e de uma cantora, cujo número é interrompido diversas vezes, mas a música continua.
Difícil traduzir a sensação que dá ver essa seqüência. Aberta a qualquer interpretação, uma leitura possível é compreende-la como a representação metalingüística do próprio estilo cinematográfico de David Lynch. É a ilusão que se cria e se destrói diversas vezes. Sabemos ser apenas uma miragem, mas somos seduzidos mesmo assim. Nos mundos que Lynch constrói e desconstrói, certezas são dúvidas, ilusões são reais e anarquia é regra. Mas quem tem certeza do que é real ou não?
Lynch nos lembra constantemente que tudo é possível no cinema e desta maneira busca libertar o olho domesticado do espectador, como Buñuel mostrava o órgão ocular sendo cortado no surrealista
Um Cão Andaluz.
Sua filmografia causa o mesmo espanto e perplexidade que escritores tão distintos entre si, mas igualmente notórios como James Joyce, William Burroughs, Kafka e Lewis Carroll. Diante de seus filmes, somos como Alice entrando na toca do Coelho e admirando o Gato com sorriso e o sorriso sem Gato. Cineasta das sensações, autor de imagens e sons inesquecíveis, David Lynch é o nosso motorista numa estrada perdida.
Como ilustração do post, deixo-vos uma cena sublime de Estrada Perdida, o meu filme favorito da sua extensa obra.