A variedade e o contraste dão prazer ao paladar, ao sexo, ao som e à visão. Epicuro
O destino final do casal Álvaro e Cláudia ficou traçado no último capítulo redigido pela Tati. Agradeço desde já a todos aqueles que tiveram o interesse de seguir a blogsérie durante as últimas semanas e espero que tenham gostado desta pequena narrativa escrita a duas mãos.
Ana sentia-se particularmente entediada naquela tarde de domingo. Chovia intensamente lá fora e a água batia furiosamente nas vidraças da sala. Os seus pais tinham viajado para o interior e só regressariam no dia seguinte. Ela é filha única dos proprietários de uma das principais imobiliárias de Natal. Tinha sido mimada ao extremo e agora com vinte e sete anos, dedicava grande parte da sua existência a uma trilogia de luxo, prazeres e cama. Apesar de ser formada em Administração, os negócios da família pouco ou nada lhe interessavam. Preferia ser uma socialite de província que preenchia os seus dias com um sem número de futilidades. Ana aparentava estar sempre alegre e despreocupada mas era um disfarce que escamoteava uma certa solidão interior que emergia em dias como aquele. Ela estava deitada no enorme sofá da sala, assistindo a um monótono filme erótico que passava num canal para adultos. O cinzeiro transbordava de cinzas e pontas de cigarro. Na sua mente ainda desfilavam os acontecimentos dos últimos dias. Sentia uma raiva surda pela aparente felicidade e independência que Cláudia irradiava. O seu desejo por Álvaro tinha sido substituído por um desprezo, que se acentuara após a reprimenda que ele lhe dera na boate durante a semana anterior. Tinha chegado o momento de ela revelar a vida secreta de Álvaro mesmo que isso obrigasse ela a confidenciar coisas que sempre escondera da sua amiga. Entretanto, levanta-se do sofá e debruça-se sobre a mesa de centro onde estavam dispostas algumas linhas de cocaína. Pega numa nota de cinquenta enrolada e aspira duas linhas, numa tentativa de combater aquela irritabilidade. Um ligeiro ardor invade-lhe as narinas. Esfrega o nariz e procura o seu celular. Liga para a Cláudia. - Alô? - Oi amiga! Tudo bem com você? Onde você está? - Estou saindo da casa de Álvaro... - Certo. Não quer passar na minha casa? Meus pais viajaram e só regressam amanhã. Tou aqui morrendo de tédio! - Ok! Estou indo para aí. Chego daqui a uns quinze minutos... - Ótimo! Fico te aguardando.
Uma hora depois, as duas amigas já se encontram a conversar animadamente. Cláudia relata o episódio da loja que lhe proporcionara um contacto directo e perturbador com Rebeca. - E aí, o que você fez? - pergunta Ana, cheia de curiosidade. - Absolutamente nada! Fiquei tão nervosa que nem troquei a blusa! - Que boba! - exclama Ana. - É claro que depois, fiquei pensando em tudo aquilo que aconteceu. Há qualquer coisa naquela mulher que mexe comigo. Ontem, procurei no jornal o anúncio da agência de acompanhantes onde ela trabalha. Peguei o número mas ainda não tive coragem de ligar... - Porque não liga para ela? Desfrute este seu momento de descoberta sexual... - Sabe...Álvaro me arrastou para um universo que desconhecia por completo. Ainda não sei bem se isso é bom ou ruim. É algo que me excita e enoja ao mesmo tempo. Não sei explicar muito bem isso... - Eu entendo. Posso afirmar que também descobri muito de mim e de minha sexualidade nos últimos anos. Descobri que era bi - diz Ana de forma natural. - Você é o quê?! - Bi...bissexual, Cláudia. E já agora, também posso acrescentar que sou swinger.
Cláudia estava incrédula. Ana sempre fora bem mais extrovertida e ousada, mas ela estava longe de imaginar que a amiga se entregava a este tipo de prazeres. Ana apercebeu-se do embaraço que causou mas insistiu no assunto. - Assim, numa primeira abordagem, que ideia você faz sobre o swing e sobre quem o pratica? - perguntou socraticamente Ana. Cláudia falou, procurando palavras que não contivessem censura sobre o tema, o qual, na verdade, já não a escandalizava. - A ideia que eu tenho é que são casais que desenvolvem uma amizade, que a dada altura, passam a ter um envolvimento muito estreito e acontecem as partilhas de parceiros. Devem ser pessoas que gostam muito de sexo e não têm tabus. - Boa definição. Descobri que a grande maioria das mulheres swingers são bissexuais. Eu não sabia que era, até ter experimentado - salientou Ana, lançando um olhar desafiador a Cláudia. - Ai!, não olhe para mim desse jeito - diz Cláudia, soltando uma risada - E você tem coragem de praticar isso nesta cidade onde tanta gente se conhece? - No início também fiquei encucada com isso mas vi logo que era uma coisa muito bem organizada. Aliás, nem deveria ser eu lhe deveria estar explicando tudo isto... - Como assim? - Temos um grupo, chamado Ars Amatoria, certo? - pergunta Ana, na ânsia de causar maior curiosidade. - Sim??? - pergunta Cláudia já impaciente. - Pois este nosso grupo se resume a cerca de dez casais que se interessam por este estilo de vida e gostam - para além de sexo - falar sobre todos os assuntos relacioandos com o swing, de debater ideias, de discutir noções para se ajudarem mutuamente, a ultrapassar obstáculos e alcançar o objetivo supremo que é estar em sintonia com a vida, com o prazer e o bem-estar. São noites muito legais, com gente super divertida e educada e que acabam...como você imagina - conclui Ana sorrindo maliciosamente. - Estou ficando curiosa demais! Me conte mais coisas... - diz Cláudia se agitando. - É um grupo de casais, com uma cultura acima da média, que tem conversas interessantes, que fala sobre sexo sem o menor preconceito... - explica Ana com entusiasmo - um deles é advogado, tem uma jornalista, um deputado estadual, uma médica e tem o líder... - Um líder? E que é ele? - O seu namorado português - responde Ana secamente. - O quê?! O Álvaro? - Ele mesmo. Foi ele que organizou este grupo há uns três anos. No início, foi tudo elaborado através de contatos da internet. Só mais tarde as coisas evoluiram de outra maneira e ele tornou-se uma espécie de guru daquele grupo. Ele e eu éramos os únicos nunca tínhamos parceiros fixos. Uma espécie de estatuto especial. Poré, ele se afastou do grupo desde que começou namorando você - diz Ana, tentando decifrar a expressão da amiga.
Cláudia sentiu um turbilhão de emoções a sacudir-lhe a alma e sua garganta ficou subitamente seca. - Assim sendo, nem preciso perguntar se você já transou com meu namorado...mas fique tranquila com isso. Homem é tudo a mesma merda e mais tarde vou pensar seriamente sobre isso. Agora quero saber ainda mais coisas desse grupo. Quando vocês se reunem? - pergunta Cláudia, tentando afastar os seus pensamentos mais sombrios. - Todos os primeiros sábados de cada mês - respondia Ana, espantada coma frieza de Cláudia. - Onde? Em casa de um outro casal, normalmente naqueles que têm granjas ou casas de praia. E sem vizinhos, de preferência - explica Ana, rindo nervosamente. - Cada primeiro sábado de cada mês? Isso significa que haverá uma festa no próximo final de semana... - Olhe, já que a vejo tão interessada, porque não fala com Álvaro sobre isso? Você podia ir com ele e conhecer o grupo. Quem sabe se não seria bom para a vossa relação? - Pois...quem sabe? - Cláudia queria parecer irónica - Mas você terá que fazer a sua parte. - Agora não entendi... - Eu falo com o Álvaro e ele terá que me levar a bem ou a mal. Mas quero que você convide Jonas e Rebeca para o próximo encontro. Pode fazer isso por mim? - Isso não é assim tão simples- avança Ana hesitante - algumas pessoas convidam casais de curiosos mas isso é sempre feito com consentimento prévio dos restantes elementos. Acho que é meio difícil. Além do mais, quem diz que eles os dois são curiosos? - Trate de conseguir isso para mim! Acho que é o mínimo que posso exigir de quem já trepou com o meu namorado! - diz Cláudia elevando o tom de voz - E é bom que Álvaro não saiba que eles serão os seus convidados. Você vai com quem? - Vou com Rogério, aquele cara de Mossoró. Lembra dele? - Acho que sim...assim vai dar tudo certo. Eles serãos os vossos convidados. Álvaro e eu iremos por nossa conta. - Mesmo assim, tou achando meio complicado concretizar essa ideia. Como irei abordar o Jonas e essa tal de Rebeca? - pergunta Ana, já ansiosa por ver o circo pegando fogo. - Fique tranquila. Temos uma semana pela frente para planear tudo isso, certo? - O que você tem em mente? - Ana não consegue disfarçar a curiosidade. - Sinceramente, ainda não sei. Mas quero que as coisas sejam feitas desse jeito. A festa, irá ser aqui perto? - Sim, numa casa na Praia de Pirangi. - Muito bem. Vamos conversando sobre isto durante esta semana e nos encontramos no sábado. - Tá certo. O encontro será a meio caminho da praia, na Barreira do Inferno, por volta das nove da noite. - Ótimo! Vamos ver o que rola durante essa noite... - conclui Cláudia de modo enigmático.
Não percam, durante a próxima semana, o último capítulo desta blogsérie na Jeca Urbana
Álvaro acorda um pouco antes do meio-dia. Ainda ensonado, olha para o visor do seu celular pousado na cabeceira. Fica desapontado ao vêr que Cláudia ainda não retornara nenhuma das suas ligações do dia anterior. Nem sequer se dignara a enviar uma simples mensagem de texto. Levanta-se irritado e vai tomar um banho. Logo depois, veste uns calçoes, uma t-shirt e vai para a cozinha, onde prepara um sanduíche e algumas frutas para um almoço improvisado. Antes de sair para a praia e incapaz de conter a sua ansiedade, volta a ligar para a Cláudia. Após escutar três toques, ela atende com uma voz alegre. - Oi amor! - Boa tarde! Cláudia, o que aconteceu ontem? Fartei-me de ligar para você... - Me desculpe. Acho que fiquei meio confusa com os acontecimentos daquela noite. Mas pode ficar tranquilo...admito que foi uma experiência gostosa. - Hum...menos mau! Já estava a ficar preocupado. Não queria ter a preocupação de a ter forçado a fazer algo desagradável. - Não se preocupe. Aliás, temos que pensar em outras fantasias deste tipo... - susurra Cláudia, com voz sensual. - Está certo - Álvaro sorri. - Aceita jantar aqui em casa? Hoje apetece-me cozinhar para você. Oito horas, pode ser? - Claro que sim. Temos muitas coisas para conversar... - Bom...agora vou descer até à praia e depois tenhos uns assuntos a tratar na boate. Até logo. Beijo! - Beijos, meu amor! Te amo!
Álvaro desce até ao estacionamento, entra no jipe e arranca rumo à Praia do Forte. Esta era uma das coisas que ele mais gostava de fazer. Ao caminhar sozinho eplo areal, aproveitava para relaxar e reflectir sobre alguns assuntos. Naquela tarde, os seus pensamentos fizeram-no viajar para bem longe. Lembrou-se da sua família em Portugal e interrogou-se sobre o que eles pensariam sobre o estilo de vida que adoptara. Álvaro era oriúndo de uma família abastada e tradicional. Tivera uma educação burguesa, católica e conservadora. Era o mais novo de cinco irmãos e desde tenra idade, revelou ter um espírito rebelde e fora dos padrões convencionais. A sua opção de viver no Brasil nunca foi bem aceite pela família que o censurava constantemente, à excepção de sua mãe Luísa e sua irmã Mafalda, que não eram tão rígidas e até achavam alguma piada á sua irreverência. No campo oposto, estavam o seu pai, Dr. Manuel Trigo e o seu irmão Duarte que durante os últimos anos se dedicara de corpo e alma à vida política, tentando organizar um pequeno partido da extrema direita portuguesa. Álvaro era o único dos irmãos que ainda não tinha casado e procriado. Os seus irmãos eram totalmente diferentes dele. Seguiram os passos dos pais. Fizeram bons casamentos, possuíam carreiras profissionais bem sucedidas e tiveram filhos bonitos e saudáveis. Ele era uma espécie de ovelha negra que destoava nas belas fotografias de família onde todos pareciam imaculados e perfeitos. As suas viagens a Portugal tinham-se tornado esparsas. preferia os telefonemas de ocasião no Natal e aniversários. Ainda assim, todos eles estavam longe de imaginar as suas loucas aventuras amorosas. Porém, Álvaro sentia que chegara o momento de estabilizar um pouco e Cláudia tocara o seu coração. As coisas com ela poderiam ser diferentes e talvez tentassem estabelecer um tipo de relacionamento alternativo que fosse satisfatório para ambos.
Numa tentativa de afastar os seu pensamentos, corre na direcção do mar e mergulha naquelas águas mornas. Dá umas fortes braçadas e deixa-se flutuar com o rosto virado para o sol abrasador. Demora-se na praia e por volta das quatro da tarde, volta para o jipe e percorre o curto trajecto até à sua boate. Lá dentro, já se encontrava o Plínio que verificava se tudo estava em ordem para mais uma jornada nocturna. Mal entra no estabelecimento é interpelado por Plínio, o seu homem de confiança. - Boa tarde, Sr. Álvaro! Tudo bom? - Oi Plínio! Alguma novidade? - Por aqui tudo em ordem para hoje à noite. Mas encontrei um envelope para o senhor na entrada. Deve ter sido colocado ontem, mas o senhor não viu... - O que é? Espero que não seja mais uma conta para eu pagar - graceja Álvaro. - Não. Acho que é pessoal - Plínio estende-lhe um envelope branco manchado com duas marcas de sapato - Desculpe, mas o envelope estava aberto... - diz Plínio, olhando para o chão com embaraço.
Álvaro olha com seriedade para o seu funcionário e abre o envelope. Engole em seco quando se apercebe do seu conteúdo. Sente o seu rosto ruborizar. - Ahhh...isto deve ser alguma brincadeira de mau gosto - gagueja, sem conseguir encarar Plínio - Vou para o escritório. Peço que não me interrompam. Entendeu?
Segue em passo acelerado para o seu pequeno gabinete de trabalho nos fundos da boite. Tranca a porta, atira o envelope para cima da mesa e senta-se. Respira fundo e despeja as fotos no tampo da mesa. Seis fotografias. Imagens de má qualidade, provavelmente tiradas com um telefone celular. Mas era inegável que a sua imagem aparecia em todas elas, em diversas posições sexuais e várias parceiras. Umas dessas parceiras, ele conhecia bem. Era a Ana, uma das melhores amigas da sua namorada. Álvaro tivera um pequeno caso com ela, antes de conhecer Cláudia. Curiosamente, a sua actual namorada tinha-lhe sido apresentada através dela. Nunca lhe contaram o sucedido e pior que isso, ainda chegaram a ter dois encontros depois de ele ter assumido o namoro com Cláudia. E uma dessas vezes estava documentada naquelas fotos. Ele lembrava-se bem de a ter acompanhado Ana naquela festa swinger, realizada numa fazenda em Ceará-Mirim, promovida por um conhecido deputado estadual. Álvaros ente uma súbita dor de cabeça e os seus olhos parecem hipnotizados por aquelas imagens de uma noite louca no início de janeiro. No verso de uma das fotos, ele vislumbra uma incrição: "Estou com saudades de nossas aventuras. Beijos! Ana" Ficara estabelecido que a relação dos dois acabaria após aquela orgia. Ele acreditava que Ana não gostaria de magoar uma amiga de infância. Ele nunca sentira nada de especial por ela. Tratou-se de pura atracção sexual. Havia algo naquela mulher que o repelia. Ligeiramente mais velha que Cláudia, era bissexual assumida e tinha uma líbido fora do comum. O mais estranho, eram as suas súbitas variações humor e um espírito auto-destrutivo alimentado pelo uso de cocaína. Por vezes, ele pensava que Ana lhe poderia vir a causar problemas e nunca entendera como a sua namorada confiava tanto nela. Será que Ana lhe conseguia esconder o seu lado obscuro?
Álvaro levanta-se e sente as pernas trémulas. Decide socorrer-se de uma garrafa de whisky irlandês que tinha num armário do escritório. Talvez a bebida o deixasse mais calmo. Seerve-se de uma dose generosa e engole-a de um trago. Senta-se novamente, arruma as fotos no envelope e esconde-as numa gaveta. Nessa mesma gaveta, encontra uma caixa de Valium. Tira um comprimido e toma com outra dose de whisky. A sua cabeça fervilha de inquietação. Passa as mãos pelo rosto e acende um cigarro. Dá uma longa tragada e recosta-se na cadeira, tentando racionalizar os seus pensamentos. Pega no telefone e liga para a Ana. - Alô? Ana? - Oiiiii! Como vai o meu amigo português? - responde Ana com ironia. - Você ficou louca? O que pensa que está a fazer? - Álvaro cospe as palavras com fúria. - Calma, meu querido! Que stress é esse? - Decidiu arruinar a minha vida? Você deixa estas fotos no meu local de trabalho, à vista de todos e quer que eu fique calmo? - Foi uma pequena provocação, meu querido. Você nunca mais ligou para mim, depois que começou namorando aquela sonsa! - E não foi isso que ficou combinado entre nós? Que raio de amiga é você? - E que belo namorado você é. Lembra que saiu comigo depois de já estar namorando Cláudia. Você tem muita sorte de eu nunca ter contado nada. As tardes no motel, as festinhas, o seu blogue se sacanagem... - dispara Ana, elevando o tom de voz. Álvaro fica em silêncio por instantes. Sente-se indefeso, sem qualquer tipo de argumentos. - O que você pretende de mim? - questiona ele num murmúrio. - As fotos eram uma brincadeira para o provocar. Queria voltar a sair com você. Mas por ironia do destino, fiquei sabendo de umas coisas e alterei meus planos. - Como assim?! - Ontem, sua namoradinha me contou sobre o vosso ménage. Tão púdica, coitada! Admito que Cláudia é um mulherão. Você tem bom gosto, seu safado! - solta uma gargalhada - Agora também quero fazer parte das vossas brincadeiras... - O quê??? - Isso mesmo que você escutou. Já imaginou? Está na sua mão decidir isso. Não esqueça que eu sei de muita coisa que pode estragar o vosso lindo romance! - Sua doida varrida! - vocifera Álvaro. - Até mais, meu querido. Beijo! - Alô? Alô? Ana tinha desligado. Álvaro pega novamente no cigarro e fecha os olhos em mais uma tentativa de se acalmar.
Na semana passada dei início a uma nova blogsérie, escrita em estilo de "desgarrada" com a Tati. Ao que parece, após a noite escaldante descrita no episódio inaugural, surge um clima desconfortável no seio do casal protagonista da trama e foi acrescentada uma pitada de mistério. Tal como foi comunicado, a publicação será alternada semanalmente nos dois blogues poderão ler a sequência da história aqui Entretanto, vou tratar de delinear algumas ideias para o episódio da próxima quarta-feira.
Cláudia já saía o seu namorado Álvaro havia alguns meses. Ela tinha uma escova de dentes no apartamento dele, mas não as chaves de casa. Álvaro Trigo é português e após algumas dificuldades nos primeiros anos, conseguira vencer naquela cidade do nordeste brasileiro. Portugal ficara para trás há sete anos e ele prosperara com a abertura da mais badalada casa nocturna da cidade, frequentada pelos filhos da elite local. Progressivamente, foi ficando influente e conhecido de todos. De facto, mal se podia olhar para as patéticas colunas sociais da região, sem ver o seu rosto estampado na companhia de outros empresários e alguns políticos. O que ele estava a fazer com ela era um pouco incerto. Ela era cerca de doze anos mais nova que Álvaro e completamente desconhecida. Porém, trabalhava em publicidade, facto que o deixava curioso e entendiam-se muito bem. Apesar de ele deixar claro que não queria - e não iria - comprometer-se. Era divertido, culto e charmoso. Ela tinha vinte e cinco anos e estava aberta a qualquer coisa.
Naquela noite, Cláudia ficara de se encontrar com Álvaro na sua boate na Praia dos Artistas. Este era o único pormenor de que ela não gostava na relação. Apesar de ele não ficar até muito tarde, era um local pouco propício para conversas e eram constantemente interrompidos por desconhecidos que insistiam em cumprimentá-lo ou grupos de patricinhas que se exibiam para ele. No entanto, naquela noite, Álvaro dedicava um pouco mais de atenção á sua parceira. Bebiam champagne numa área mais reservada e ele acariciava-lhe com delicadeza as costas, evidenciadas por um sensual decote no vestido preto. Eles contemplavam as pessoas que dançavam freneticamente na pista, localizada no piso inferior. Álvaro pergunta-lhe o que pretendia fazer mais tarde. - Bem, nós poderíamos contratar uma prostituta - diz Cláudia, querendo excitá-lo. Eles já vinham conversando sobre isso há semanas. Ela confessara que gostaria de sair com uma mulher e ele disse que sempre quisera estar com duas. Eles não eram diferentes de ninguém em nada. Para homens e mulheres, o ménage a trois é como o Monte Everest da sexualidade - muitos gostariam de testá-lo e, se não querem, querem saber como funciona. É sexy? É algo excessivo?
Cláudia também estava interessada por outras razões. Álvaro afirmava que não conseguia ser fiel e ela imaginava que se eles traíssem o seu relacionamento juntos não seria realmente uma traição. Ela nunca tinha pensado que um dia contrataria uma prostituta, mas isso permitia-lhes evitar solicitações constrangedoras junto de amigos comuns. Contudo, ela tinha perfeita noção que este tipo de fantasias funciona em espiral crescente e provavelmente as coisas não ficariam por ali. Como era de se imaginar, Álvaro ficou tentado com a sugestão. - Não é uma má ideia - disse, com um sorriso malicioso. Apesar de ela não estar muito segura se estava disposta a fazer o que havia sugerido, ele estava tão empolgado que já era tarde demais para mudar de ideias. Após saírem da boate, aceleraram rumo ao apartamento dele no Tirol, onde começou a buscar acompanhantes pela internet enquanto Cláudia procurava nos classificados dos jornais. No final de uma das páginas, ela achou um anúncio de acompanhantes de luxo. Ele ligou de imediato e pediu uma loira " com muita experiência com mulheres". O preço era 500 reais por hora. - Nossa! O aluguel do apartamento que divido com minha amiga são 500 reais - murmura Cláudia entredentes. Álvaro passou as informações do cartão de crédito e o seu nome verdadeiro para a pessoa que estava do outro lado da linha. Cláudia ficou incrédula. Ele era uma pessoa conhecida, aquele sotaque era inconfundível mas agia imprudentemente numa cidade conservadora, onde os estrangeiros residentes eram desaprovados com facilidade. Mas Álvaro não se importava. Era como se estivesse a pedir uma pizza por telefone. A mulher na outra ponta diz qualquer coisa. Álvaro sorri, desviando o olhar para a sua namorada. - Fico feliz por saber que sou tão popular - disse Álvaro para a agente das acompanhantes. Cláudia questionava se a mulher iria espalhar a história para algum colunista social, mas guardou o pensamento para si mesma.
Tinha chegado a hora de se prepararem. Foram para o chuveiro; parecia o mais educado a fazer. Cláudia desejava ter colocado uma lingerie mais provocante. Vestiram roupões. O duche tinha diminuído o efeito da bebida, o que não era necessariamente bom. Álvaro acende um cigarro e penteia os cabelos com os dedos. Ele abre uma garrafa de vinho do Porto e coloca um CD de Massive Attack na aparelhagem sonora. Cláudia aproveita para diminuir a luminosidade da sala. Subitamente, o porteiro interfona para anunciar a chegada da visitante. Cláudia ainda pensou que teria sido mais sensato fazer este programa num motel, ao invés de receberem uma prostituta em casa. Era uma exposição de intimidade bastante arriscada. Ouve-se uma leve batida na porta. Cláudia sente o sangue congelar nas veias, enquanto Álvaro deixava a loira oxigenada entrar. Ela aparentava ter perto de trinta anos e ostentava um olhar felino. Tinha seios volumosos e Cláudia era mais bonita. "Óptimo" - pensou ela para com os seus botões. Ofereceram uma bebida para ela e conversaram durante breves minutos, sentados nos sofás da sala. Logo depois, dirigiram-se para o quarto onde Álvaro havia acendido algumas velas.
A coisa aconteceu da maneira que se imagina que deve ser. Ele diz para a prostituta que Cláudia nunca tinha estado com uma mulher e pede que ela beije a sua parceira. - Quero ver - sibila ele. È curioso pensar que os diálogos dos filmes pornográficos são estúpidos e, depois, lá estamos nós num filme para adultos na vida real a dizer as mesmas idiotices. Uma hora depois, a loira levanta-se da cama e sai. Charlie Sheen sabia o que falava quando disse que não paga a uma prostituta apenas pelo sexo, mas também para que ela se vá embora. Cláudia já tinha ouvido ópera em Milão, os sinos das igrejas parisienses ao amanhecer, mas o som mais doce que escutara foi daquela porta a bater, atrás daquela mulher. Na manhã seguinte, Álvaro levantou-se cedo porque ia ter uma reunião importante com o gerente do banco. Cláudia observava-o da cama e pensava se a loira iria perceber quem ele era e aproveitar-se da situação. Quando chegou à agência, um colega do departamento criativo perguntou-lhe como tinha sido o serão. - Legal - diz ela, esboçando um leve sorriso. Foi legal. E ainda estava tudo no início...
Terá início uma nova blogsérie neste espaço. Desta vez, será uma co-produção luso-brasileira em parceria com a paulista Tati que já rendeu bons frutos no ano passado. Natal será o cenário desta nova história e foram criados novos personagens. Posso adiantar que já existe um episódio piloto escrito que partilhei com a minha parceira roteirista. A partir daí, os episódios seguintes serão publicados de forma alternada nos dois blogues sem conhecimento prévio do que um e outro irá escrever. A blogsérie foi baptizada de Barreira do Inferno e acredito que seja um excelente desafio para reviatlizar as nossas páginas pessoais e estimular a nossa imaginação. Para finalizar e querendo aguçar a vossa curiosidade, posso ainda acrescentar que será um enredo mais realista, menos cómico e talvez mais ousado do que as anteriores aventuras de Augusto Luís e seus amigos. Espero que gostem e peço que aguardem pelo próximo mês. Como sempre, a publicação será feita nas quartas-feiras.
Estoril - Domingo, 09 de Março 2008 - 15.00h O grupo estaciona o jipe junto ao forte. Olham em redor. Convinha que não fossem vistos por ninguém, carregando todo aquele aquipamento. Por sorte, naquela tarde de domingo, parecia haver pouquíssimas pessoas a passear por ali. Conforme o combinado, saem rápidamente da viatura e descem pelos rochedos que ladeavam o edifício. Segundo a planta, existia uma pequena porta lateral que lhes poderia facilitar a entrada. Fruto de uma adolescência conturbada, o Lemos, estudou a fechadura. Com o auxílio de um simples grampo, consegue abrir a porta com facilidade. Entrem pé ante pé. A visibilidade era muito pouca e sentem um forte cheiro de humidade e maresia invadir-lhes as narinas. O padre Amaro avança na frente, murmurando algumas orações. Subitamente, ouvem um estrondo atrás deles. A porta fechara-se misteriosamente. Um mau pressentimento invadiu a mente de todos eles. O Paulo, Augusto Luís e o Lemos empunhavam os revólveres com as mãos trémulas. O Fonseca e o Reis preferiram utilizar as bestas. O Ferreira desembaínhara a sua longa espada. O padre Amaro mantinha-se na liderança, segurando um crucifixo e com uma besta na outra mão. Nas costas, carregava uma mochila que continha estacas de madeira, um martelo e uma garrafa com água benta. Todos eles traziam colares feitos com cabeças de alhos.
Prosseguem a marcha por um corredor estreito e mal iluminado. Mais na frente, desembocam num salão amplo. No meio, encontram seis caixões dispostos em forma de círculo. Aproximam-se cautelosamente. Quatro deles, estão vazios. Nos outros dois, dois vampiros dormiam profundamente. Um deles, ainda tinha marcas das queimaduras de água benta, aplicada pelo padre na noite anterior. - Depressa! Vamos cabar já com estes dois! - diz o padre em voz baixa. Abre a mochila, tira as estacas e o martelo. Aproxima-se da primeira urna, coloca a estaca na direcção do coração do vampiro e martela com toda a força. Ouve-se um guincho abafado e solta-se um jacto se sangue que suja o rosto do padre. Logo depois, avança para o outro caixão e repete os movimentos. - Afinal de contas, caçar vampiros é canja! - sopra o Reis. - Calma rapaz! Isto vai ser mais complicado do que eu pensava. Quatro deles estão escondidos por aí e já devem ter detectado a nossa presença - diz o padre, olhando em volta com o semblante carregado. Lá fora, o sol brilhava com intensidade. Vantagem para eles. Os vampiros não conseguiriam persegui-los nem retaliar na sua máxima força. O grupo prossegue a sua marcha no interior da fortaleza. Entrem num segundo salão. Sentem uma aragem fria percorrer-lhes o corpo. Ouvem um farfalhar de tecido. Numa fracção de segundos, surgem-lhes os quatro vampiros pela frente. Dois homens e duas mulheres, envergando longos casacos negros. Os olhos avermelhados faíscavam de ódio. Cercaram os invasores como uma onda, apesar da inferioridade numérica.
Ferreira, empossado do espírito de seus ancestrais, perdera o medo. Uma voz rouca soprava no seu ouvido. A espada. Use a espada com firmeza. Ferreira empunhava a arma cortante com as duas mãos. A vampira que o tentara seduzir na noite anterior, correu na sua direcção. Ferreira recuou o pé de apoio e ergueu a espada. Respiração contida. Desenhou um arco para a frente. A vampira não conseguiu alcançá-lo. A cabeça foi ao chão; o corpo cambaleou. Recuperou o equilíbrio e caminhou até bater contra a parede. A decapitação causou certo impacto. Fora uma injecção de confiança no grupo. O vampiro mais alto estava enfurecido e urrava, fazendo as paredes estremecer. Cabelos compridos amarrados para trás e feições grotescas. Fonseca dispara a sua besta, mas a estava desfere uma curva e estilhaça-se contra a parede. O vampiro ri, mostrando as suas presas pontiagudas. - Como ousam, simples mortais, invadir o nosso covil? - pergunta numa voz cavernosa - Admiro a vossa valentia, mas podem dizer adeus às vossas vidas miseráveis! - Viemos em nome de Deus! A sua vontade é soberana! - fritava o padre Amaro. - Ao longo dos séculos ninguém me conseguiu derrotar! Vou-me sacirar com o vosso sangue pobres mortais! Lacatus será rei e senhor destas terras... De forma decidida, o padre Amaro avança para o vampiro, erguendo o seu crucifixo. A criatura solta um rugido ensurdecedor, agarra o pescoço do padre e arremessa-o para longe, deixando-o desacordado. - Porra, e agora? Estamos tramados! - gritava o Reis, em desespero. - Agora resta-nos combater e acabar com estes cabrões! - atira Augusto Luís. - È isso mesmo! Um por todos e todos por um! - diz o Paulo, parafraseando os célebres mosqueteiros.
Formam um círculo apertado e vão disparando as suas armas, na ânsia de atingir os adversários. As balas de prata faziam ricochete nas paredes grossas. Estacas de madeira voavam em todas as direcções. Os vampiros pareciam divertir-se com a situação e encenavam um estranho bailado. Passavam perto deles como assombrações e desferiam-lhes golpes no corpo. O Ferreira desferia golpes de espada ao acaso, totalmente desorientado. Os vampiros tinham-se transformado em vultos. Entretanto, Augusto Luís viu quando um dos vultos se tornou mais visível. Apontou a pistola e disparou. Uma bala de prata atinge o ombro da criatura. O vampiro arqueou o corpo e desviou-se dos disparos seguintes. Sorriu. Grunhiu, mostrando os dentes. Augusto Luís tremeu. Um vampiro poderoso na sua frente. Colocou a mão no pescoço e desprendeu o próximo truque. Flexionou os joelhos e desceu o quadril abaixo do quadril do adversário que já lhe aplicava uma gravata. Com o traseiro, somado a uma potente cotovelada, surpreende o vampiro que folgou a gravata. Depois finalizou o golpe. Ergue a mão livre, agarrando o opositor pela gola. Todas as forças somadas e sincronizadas fizeram o vampiro voar por cima dele. - Ippon! - grita Augusto Luís, vitorioso. Em acto contínuo, enfiou o seu colar de alhos na boca do vampiro, que parecia sufocar. O Reis aproxima-se e dispara uma estaca no coração da criatura que se debaria no chão. - Toma!!! Pessoal, vamos virar o jogo! Já só faltam dois - grita o Reis, em delírio.
Restava o líder Lacatus e a vampira ruiva. Eles pareciam menos confiantes. Aquela baixa causara danos morais. Ferreira avança decidido e tenta atingir a vampira com golpes de espada. Na outra extremidade do salão, Paulo corria e disparava a arma ao mesmo tempo, não se apercebendo do vulto que se atravessava na sua frente. Leva um encontrão. Perdeu o equilíbrio e a arma. Sente um forte pontapé nas costelas. Lesão grave. Costelas partidas. Lacatus, possuídor de velocidade vampírica, salta para cima dele. Perdição! Um urro de dor e Lacatus tomba para o lado com uma estaca cravada numa coxa. Nas proximidades, o padre Amaro recuperara os sentidos e disparara a sua besta na direcção de Lacatus que se preparava para aniquilar o Paulo. - Malditos! Quem pensam que são? Não ecaparão com vida! - sibilava Lacatus. Ferreira partiu para cima do vampiro, mirando o seu pescoço. A espada cortou o vazio. Lacatus tornara-se sombra e já estava do outro lado, aplicando-lhe um golpe nas costas. A dupla de vampiros parecia recuperar terreno. O padre Amaro atravessa o salão em fúria, despejando água benta em todas as direcções. Num canto, ouve-se um fervilhar e um uivo lancinante. A vampira fora atingida pelo líquido abençoado. Tornou-se mais visível. Fonseca faz pontaria com a besta na sua direcção. Desta vez não podia falhar. Só lhe restava uma estaca de madeira. Disparo certeiro. O projectil atravessa o corpo da vampira, fazendo-a desfalecer no chão.
Restava o poderoso Lacatus. Desta feita, o grupo tentou montar um cerco ao vampiro. Repentinamente, o Lemos é atingido na face. Cai de joelhos, sangrando abundamentemente. Na ânsia de recuperar forças, Lacatus lança-se sobre ele com a intenção de se abastecer de sangue humano. Numa atitude ousada, o padre Amaro atira-se para cima do agressor. Uma luta selvagem. Lacatus parecia levar vantagem. A sua força era sobrenatural. Ainda assim, o padre estica o braço e consegue colocar o crucifixo na boca de Lacatus. Um grito de dor. No meio da confusão, o Lemos agarra uma estaca do chão e crava-a com a sua própria mão, no coração do líder dos vampiros. O rosto de Lacatus estava transfigurado. O Ferreira surge por detrás dele e aplica-lhe o golpe de misericórdia, decepando-lhe a cabeça com a espada. A batalha chegara ao fim. O padre Amaro estava bastante maltratado, evidenciando diversos ferimentos no corpo. Em segundos, os corpos dos vampiros tinham-se tranformado em cinzas. Apesar de extremamente cansados, sujos e feridos, saíram todos do forte, felizes e com a sensação de missão cumprida. Pela primeira vez na vida, tinham encarnado o papel de verdadeiros heróis. As horas seguintes, foram passadas nas urgências do Hospital de Cascais. Um pouco mais tarde, a João e o seu amigo Matias juntaram-se solidariamente a eles. Mal conseguiam acreditar no que o grupo lhes ia relatando. Uma brava dança dos heróis!
Av. Marginal, Domingo - 09 de Março 2008, 03.50h Aquela perseguição parecia não ter fim. Eles mantinham-se a uma distância razoável para não levantar suspeitas. Na chegada a S.João do Estoril, o carro preto abranda ainda mais a sua marcha. Um pouco mais na frente, logo na entrada do Estoril, fazem sinal para a esquerda com o intuito de inverter a marcha. - Já devemos estar perto do covil... - sopra o padre Amaro. - Olhem! Eles viraram para a direita. Esperem...eles estão a ir para... - anuncia o Lemos. - O forte! - exclamam em uníssono. - E agora? O que fazemos? - pergunta o Ferreira. - Já sabemos onde se escondem. Só nos resta planear uma invasão ao forte... - explica o pároco. - E pode explicar-nos como tenciona fazê-lo? È uma fortaleza! Não parece muito simples entrar lá dentro... - resmunga o Augusto Luís. - Fazemos como nos filmes? Esperamos que amanheça para transformar os vampiros em cinzas? - sugere o Fonseca. - Nada disso. Todas essas histórias não passam de mitos. Os vampiros são criaturas milenares e, como tal, têm sofrido diversas mutações genéticas ao longo dos séculos. A luz solar, apenas lhes enfraquece os poderes, tornando-os mais vulneráveis. Porém, devemos fazer o ataque esta tarde, aproveitando a hora em que eles repousam. Também seria conveniente, nós descansarmos um pouco... - continua o padre. - Depois de tudo isto, temos que regressar a Lisboa? - reclama o Fonseca. - Esperem um pouco. Tive uma ideia! - diz o Ferreira. - O que vais inventar desta vez? - continua o Fonseca, já impaciente. - Vou ligar para o meu amigo Paulo que mora aqui perto. Tenho a certeza que eles nos poderá ajudar... - Quem é o Paulo? - interrompe o Reis. - È um amigo dos blogues. De vez em quando, aparece lá no Blue Velvet para beber uns copos e ver as gajas...
O Ferreira saca o telemóvel do bolso e liga para o seu amigo. O telefone toca várias vezes. Após um longo momento de espera, ouve-se uma voz estremunhada do outro lado da linha. - Estou? - Olá Paulo! È o Ferreira que está a falar...desculpa o adiantar da hora, mas estou a precisar do seu auxílio. - Hum...mas acnteceu alguma coisa? - È uma longa história. Estou aqui perto com uns amigos meus. Será que podemos ir agora para sua casa? - Mas a esta hora!? - a voz de Paulo evidenciava algum nervosismo. - Trata-se de uma questão de vida ou morte. Infelizmente, não lhe consigo explicar a situação por telefone... - Está bem. Vou confiar em ti...ainda te lembras do caminho? - Perfeitamente! Em cinco minutos, estaremos por aí... - Ficarei à vossa espera. - Obrigado Paulo! Até já... Logo depois, O Ferreira vai dando instruções ao padre Amaro e alguns minutos volvidos, estacionam o jipe frente ao portão da casa do Paulo. Saltam para fora do carro e segundos depois, o portão abre-se. O Paulo surge diante deles, envolto num roupão e completamente desgrenhado. Diversos gatos saem cá para fora e vão-se enroscando nas pernas do dono. Ele olha atónito para aqueles seis homens que tencionavam entrar na sua casa. -Ferreira, podes-me explicar melhor, o que está a acontecer? Convenhamos que não será muito normal apareceres aqui de madrugada, acompanhado de cinco amigos teus... - interpela desconfiado. O Ferreira e o padre Amaro tomam a dianteira e tentam relatar da melhor forma, os sinistros acontecimentos das últimas horas. Paulo mantinha-se relutante e chegou a pensar que estariam bêbados. No entanto, o discurso hábil do padre acabou por convencê-lo. - Sendo assim, façam o favor de entrar e descansem. Acredito que este domingo venha a ser um dia complicado... Paulo entra pelo portão e todos o seguem para o interior da casa. O anfitrião vai distribuindo os rapazes pelos cómodos. Todos precisavam de dormir algumas horas. Adivinhava-se um embate terrível e tos necessitavam de estar na sua máxima força.
Estoril, Domingo - 09 Março 2008, 12.00h Ferreira acorda lentamente em cima de um sofá, sentindo uma coisa áspera no seu rosto. Quando abre os olhos, dá de caras com um corpulento gato branco que o lambia carinhosamente. Levanta-se em sobressalto e dirige-se para uma sala anexa. O Paulo, Fonseca e o padre estavam frente ao televisor, prestando atenção às notícias do dia. O tumulto do dia anterior na discoteca Lux, era a matéria mais difundida. Contudo, não existia uma explicação lógica para o sucedido. As entrevistas com testemunhas oculares eram confusas e contraditórias. Apenas de sabia, que o estabelecimento sofrera danos profundos e que dois dos seguranças tinham sido mortos por homens vestidos de negro. O Paulo reunira alguns livros sobre vampiros que conseguira resgatar na sua vasta biblioteca. Todos se debruçaram sobre eles de forma atenta, embora o padre os tenha prevenido que muitas das coisas que eram escritas sobre o assunto não passavam de meras fantasias. Um pouco mais tarde, estão todos reunidos na mesa de almoço. Após a refeição, o padre Amaro pigarreia e toma a palavra, de modo solene. - Caros amigos...estamos perante um poderoso clã de vampiros que precisa de ser exterminado. Eles são oriúndos da cidade de Sighisoara na Transilvânia, actual Roménia. Tudo teve início com um carregamento de antiguidades medievais, encomendado por um importante antiquário de Lisboa. Foram remexer em casas antigas e o mal foi desperto. Os vampiros acabaram por embarcar clandestinamente, no porto de Varna, na Bulgária rumo a Lisboa. Pelas informações secretas fornecidas pelo Vaticano, eles estarão por aqui à solta faz uns dois meses. Depois de várias tentativas, ontem consegui localizá-los graças a vocês... - Bom, mas agora fiquei com alguma dúvidas. O sr.padre diz que eles são romenos, mas recordo-me que ontem, a vampira se dirigiu a si, falando em português... - interrompe o Reis. - Deixem-me terminar! Os vampiros são seres extremamente inteligentes e com um poder de metamorfose espantoso. Eles conseguem adaptar-se a regiões ou épocas totalmente diferentes e aprendem novas línguas em poucos dias. Por outro lado, mantêm um forte instinto animal. Quando escolhem as suas presas, perseguem-nas de modo implacável. Ontem, foram vocês os escolhidos... - E quantos são eles? - pergunta o Fonseca. - Estou convicto que sejam seis ou sete. São liderados pelo temível Lacatus que vocês ainda não viram. Tem feito numerosas vítimas ao longo dos séculos... - Lacatus? Mas esse fulano não foi jogador do Steaua de Bucareste? - o Fonseca não perdia uma chance para exibir os seus conhecimentos enciclopédicos sobre futebol. - Por favor, poupem-me dos vossos disparates! Continuando...durante este tempo, eles têm feito algumas vítimas com o intuito de se alimentarem de sangue. Aliás, as primeiras vítimas foram alguns marinheiros do navio que os transportou. Semanas depois, foi a vez do antiquário falecer em circunstâncias misteriosas... - Acho que li sobre isso no jornal. - refere o Paulo - Mas porque não se avisam as autoridades competentes? - Impossível. Seríamos rapidamente internados num hospital psiquiátrico. - explica o padre - E seria uma catástrofe porque muito poucos sabem lidar com fenómenos sobrenaturais. Como eu disse há pouco, até agora eles têm feito vítimas para se alimentarem, mas rapidamente irão tentar alargar o seu clã com novos vampiros. Uma espécie de epidemia que se pode alastrar pelo país inteiro. Temos que os dizimar! - E como faremos isso? Será que temos força suficiente para executar essa tarefa? - interroga o Ferreira. - Deus está do nosso lado. Quer aliado mais forte? - afirma o padre com convicção - Trouxe algumas armas comigo. Estão escondidas no carro. Daqui a pouco, irei buscá-las para vos explicar o seu funcionamento. - Armas? Mas eu nem prestei o serviço militar! - desabafa o Reis. - Não te preocupes com isso, meu filho! Os vampiros são combatidos com armas arcaicas e muita fé. Nas lendas de vampiros, apenas uma coisa é verdadeira. Eles morrem com estacas de madeira cravadas no coração ou cortando suas cabeças.
Instala-se um silêncio na sala. Olham uns para os outros. Os rostos reflectiam medo e apreensão. - O Paulo forneceu-me uma planta antiga do forte. Recentemente, chegou a ser uma discoteca, mas acredito que os pontos mais vulneráveis ainda sejam os mesmos - continua o padre - Eu vou buscar as armas e iremos planificar a invasão do forte... Depois de estudarem a planta e terem aprendido o manejo das armas, foram-se preparando para sair de casa. Era uma espécie de viagem no tempo. Carregavam bestas com estacas de madeira pontiagudas, revólveres antigos carregados com balas de prata e espadas. Antes de saírem, o padre Amaro, forçou-os a fazer uma oração colectiva. Ao entrarem no jipe, o Ferreira sente um cheiro desagradável. - Que raio de cheiro é este? - Alhos! - responde o padre - Trouxe uma saca deles lá da minha terra. Eles ajudarão a manter esses malditos afastados de nós! Uma receita antiga que é imbatível... - Odeio alho! - reclama o Ferreira. Depois de se acomodarem no interior do velho UMM, arrancam aos solavancos rumo ao forte. Todos sentiam um nó no estômago. Estava dado o pontapé de saída para uma dura batalha!
Augusto Luís avança decidido sobre a mulher que aguçava os dentes na direcção do seu amigo. Aplica-lhe uma placagem que a atinge na cintura. A mulher grunhiu de forma assustadora, durante a queda. Ouviram-se urros. Tinha mais três homens trajados de negro ao seu redor. - Quem são vocês? - berrou. Como resposta, a mulher empurra-o com violência, projectando-o por uma dezena de metros. Instala-se o caos na discoteca. Os seguranças avançaram na direcção do tumulto, sem entender muito bem o que estava a acontecer. Um dos góticos agarra um dos seguranças e quebra-lhe o pescoço com a maior das facilidades, como se fosse dotado de uma força sobrenatural. Gritos de pânico ecoavam por todo o lado. Ouvia-se o estilhaçar de copos no chão. As pessoas fogem desesperadamente na direcção das saídas. O Ferreira permanecia imóvel no centro da pista, alheio a tudo. O Fonseca corre na sua direcção. - O que se passa contigo? Estás bem? - pergunta ele, sacudindo o amigo pelos ombros. - Hã? O que foi? - Ferreira parecia despertar de um transe hipnótico. - Acorda pá! Temos que bazar daqui para fora! - gritava Fonseca em desespero. De repente, o Fonseca sente uma mão a tocar no seu braço. Gira a cabeça e sente o sangue congelar nas suas veias, ao deparar-se com um homem horrendo. Exibia uns dentes enormes, sorrindo de forma malévola. Numa fracção de segundos, nota a presença de um vulto atrás do agressor. Era o Reis que vinha em seu auxílio. Parecendo sair de um filme de artes marciais, o Reis voa por cima do opositor, fazendo-o tombar no chão. - Cuidado Reis! Esses gajos só podem ser vampiros! - preveniu o Fonseca. Quando o vampiro se preparava para contra atacar, aproxima-se um outro homem vestido de preto, que traz uma garrafinha na mão. Despeja parte do seu conteúdo por cima daquela figura diabólica. - Arde maldito! As forças das trevas nada podem fazer face ao poder divino! - vociferava aquele homem franzino. O vampiro debatia-se no chão e soltava urros arrepiantes. A sua pele acinzentada borbulhava, deixando-o com uma silhueta ainda mais sinistra. O líquido parecia funcionar como um ácido na sua pele. Entretanto, o Ferreira parecia ter recuperado a lucidez e comenta para os outros: - È um padre! Reparem que ele usa cabeção e aquele líquido só pode ser água benta... - Quero lá saber disso! Vamos sair daqui para fora? - cuspia o Fonseca, arrastando os parceiros. - Calma! Onde está o resto da malta? - pergunta o Reis. - Eu estou aqui! - diz Augusto Luís, surgindo do nada com a camisa rasgada - Podem-me explicar o que está a acontecer? - São vampiros, porra!!! Vamos fugir! - suplicava o Fonseca. Dito isto, o homem que fizera frente ao vampiro, aproxima-se deles. - Acompanhem-me rapazes! Não há nada a temer! As forças do bem estão do nosso lado - afirma com autoridade.
Os quatro seguem-no meio atarantados. Próximo de uma das saídas, avistam o Lemos em apuros. Era eviedente que o pavor se apoderara dele. Fazia frente a uma vampira, mantendo-a à distância com uma cadeira. Ela parecia troçar dele e arreganhava os dentes na sua direcção. Quando o grupo se preparava para socorrer o Lemos, são barrados pelo homem que os acompanhava. - Alto lá! Vocês ainda não estão preparados para isto! Com bravura, ele vai para perto da vampira de cabelos ruivos. Tira um crucifixo do bolso do casaco, enquanto vai rezando em voz alta. A vampira olha na direcção dele com uma fúria desmedida. Era uma autêntica figura animalesca de olhos avermelhados. Ele avança lentamente. Ela recuava de forma traiçoeira. - Venha até mim, padre! Deixa os outros e vem até mim. Os meus braços estão famintos de ti. Vem e podemos descansar juntos. Vem, meu querido... Havia algo de diabolicamente erótico no tom de voz, algo do tinir do vidro, que ecoava nos cérebros dos que estavam próximos. O padre dá um salto em frente e quase toca com o crucifixo no rosto dela. Ela afasta-se com uma feição distorcida, plena de raiva e amarinha pela parede numa acção de fuga. O Lemos estava pálido e ofegante. Finalmente, conseguem sair do interior da discoteca.
No exterior, diversas pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro. Pelas portas, ainda saíam alguns retardatários, alguns deles evidenciando leves ferimentos. A discoteca ficara parcialmente destruída pela multidão em fuga. De súbito, dão de caras com a João que estava acompanhada do seu amigo Matias que tremia como varas verdes. - Meus queridos, podem-me explicar o que foi isto? - pergunta ela. - Olha, eu ainda não entendi o que foi... - responde Augusto Luís. - São vampiros! São vampiros! - gritava o Fonseca, fora de si. - Como é que conseguiste sair tão rápido? - interroga o Ferreira. - Foi logo que a confusão teve início. Eu e o Matias corremos para a área VIP. Depois, fomos rapidamente evacuados pelos seguranças, juntamente com a comitiva dos Cure, que a esta hora devem estar a caminho do hotel. - Que horror! Nós ficámos aqui fora à vossa espera...só víamos gente a sair e ouviam-se uns grunhidos terríveis lá dentro! - interrompe o Matias cheio de trejeitos. Mal acaba de falar, o Matias estremece ao ver um carro avançar na direcção deles a toda a velocidade. Era uma carrinha Saab preta com vidros fumados. Eles conseguem desviar-se a tempo de evitar um acidente. Mesmo assim, o Reis consegue descortinar o rosto de uma das vampiras no interior do automóvel. - São eles! São eles! - grita ele. - Rápido! Vamos atrás desses malditos! - diz o padre, correndo na direcção de um jipe UMM a cair aos pedaços. - Eu não vou a lugar nenhum! - protesta o Fonseca. - Vá, não há tempo a perder! Deus colocou-vos no meu caminho. Acompanhem-me por favor... - insiste o religioso. Os amigos entreolham-se amedrontados, mas vão avançando para o jipe. A João corre atrás deles. Ao longe, já se ouviam as sirenes da polícia. - Deixem-me ir com vocês! - grita exasperada. - Tem paciência! Na última vez, levaste um tiro por nossa causa, lembras-te? Vai para casa com o teu amigo. Qualquer coisa, nós ligamos para ti, ok? - diz o Reis, saltando para a traseira do jipe, onde os outros já se amontoavam. Nem houve tempo de escutarem a resposta da João. O padre arrancou do estacionamento, de forma veloz, fazendo o jipe soltar uma baforada de fumo preto.
Nos instantes que se seguiram, permaneciam todos em silêncio, envoltos nos seus pensamentos mais sombrios. Apenas se ouvia o ronco ensurdecedor do motor a diesel, que deveria estar em rotação máxima. Seguiam o caminho da Av. 24 de Julho. O silêncio é interrompido pelo Lemos que ocupara o banco dianteiro, ao lado do padre. - Antes de mais...quem é o senhor? - Sou o padre Amaro. - A sério? Então foi você que papou a Soraia Chaves naquele filme? Mas você está muito diferente... divaga o Lemos. - Valha-me Deus! Não diga disparates meu filho...isto é assunto sério! - Mas diga-me sr.padre...o que estamos a fazer? Qual é o objectivo disto tudo? - pergunta Augusto Luís, tentando imprimir seriedade na conversa. - Sou ajudante do padre Fontes de Vilar de Perdizes... - O dono do hotel assombrado em Montalegre! - interrompe o Ferreira. - Esse mesmo. E sou dos poucos padres com autorização do Vaticano para praticar exorcismo e um dos últimos caçadores de vampiros no mundo - explica com autoridade. - Vampiros? Está a brincar connosco? - questiona Augusto Luís com cepticismo. - Não em vai dizer que não viu os dentes das criaturas! E toda aquela força sobrenatural? - Eu não disse? Eu não disse? - berra o Fonseca - Estamos fritos! - Tem calma rapaz! Estamos perante um clã de vampiros. Acredito que tenhamos força suficiente para os derrotar. Resta-nos descobrir onde fica o seu esconderijo. Depois disso, terei que vos ensinar algumas coisas - esclarece o padre. - E você acha que os vamos alcançar nesta lata velha? - pergunta o Lemos com desdém. - Deus iluminará o nosso caminho! Pelas minhas investigações, sei que eles se refugiam algures na linha de Cascais - continua o padre Amaro, sem despregar os olhos da estrada. À saída de Algés, conseguem alcançar o Saab preto. Pelos vistos, os vampiros não desconfiavam que eram perseguidos e acreditando estarem a salvo, tinham diminuído a velocidade. A perseguição continuaria pela Av.Marginal...
Ultrapassadas as barreiras de segurança, o amigo do Fonseca distribui entre todos, os passes de livre acesso aos camarins. Logo de seguida, faz sinal para que o sigam até ao local onde a banda se encontra. Fonseca ainda olha mais uma vez para trás, mas o grupo que parecia persegui-los, desaparecera do seu campo de visão. Talvez fosse paranóia sua, pensou ele. Momentos depois, chegam junto a uma área reservada. Perto de uma porta, um pequeno aglomerado de jornalistas e pessoal da produção. Lá dentro, estão os cinco integrantes dos Cure em carne e osso. O ambiente era iluminado por velas e eles estavam sentados numa mesa, onde lhes era servida uma ceia. O fundo musical, era uma suave música indiana. Tudo muito zen. O Ferreira está visívelmente emocionado. Apresentaram-lhes os músicos que se mostraram bastante afáveis. Cumpriu-se o ritual dos autógrafos e fotografias da praxe. Durante o breve diálogo, é-lhes comunicado que mais tarde, haveria uma festa na discoteca Lux. Momentos depois, já fora do recinto, os cinco amigos discutem sobre o rumo a seguir depois de saírem dali. - Como é pessoal? Vamos para onde? - questiona Augusto Luís. - Não querem ir ao Lux? - avança o Ferreira ansioso. - Tu queres ir para o Lux? Estás doente? - ironiza o Lemos. - Pá, vocês ouviram que a festa vai ser lá...provavelmente com bar aberto para os convidados! - Chiça! Agora querem-me obrigar a andar atrás desses cromos, o resto da noite? - atira Augusto Luís, irritado. - A mim não me parece má ideia. Copos à borla! - exclama o Fonseca. - Augusto, deixa de ser embirrante! Ah, acredito que a João também deve estar por lá - continua o Ferreira. - Eu queria dar um pulinho à Duque de Loulé - Augusto Luís não desarma. - Boa ideia! - grita o Lemos - Ou então vamos naquele clube de swing. Ouvi dizer que a minha prima é frequentadora assídua... - Farto disso estou eu! Ó Lemos, tu só podes ser parvo! Como é que queres enfiar cinco marmanjos numa boite swing? Poupa-me! - Hum...então bora lá para esse tal de Lux... - responde o Lemos. - Então, está decidido. Encontramo-nos lá, daqui a vinte minutos? - propõe o Reis apressado. Acabaram por chegar a um acordo. Augusto Luís faz uma careta, mas segue os amigos, que se vão dirigindo para os locais onde tinham estacionado os seus carros.
Lisboa - Discoteca Lux - 02.20h Um armazém reconvertido em sala de espera de aeroporto. A decoração aparentava ter sido feita base à base de amostras de fabricantes de cadeiras; não se viam duas iguais. No entanto, a selecção musical era excelente. Num recanto mais discreto, estava a comitiva dos Cure. No meio daquela multidão, o Ferreira tinha conseguido localizar a João acompanhada por um amigo excêntrico que atendia pelo nome de Matias. O grupo conversava alegremente. A eles, tinha-se juntado o Jason, baterista dos Cure, que parecia ter engraçado com o Lemos que tentava dialogar com ele no seu inglês macarrónico. Ás tantas, todos os olhares pareciam seguir um fulano alto e careca. Atrás dele, uma numerosa corte, maioritariamente composta de gente com ar intelectualóide e óculos de massa. - Quem é aquele? - interroga o inglês. - Bem se vê que és estrangeiro. Manuel Reis! - responde o Lemos aos berros, como se isso melhorasse o entendimento. - E o que é um "Manuel Reis"? - É o Papa da noite de Lisboa! O Frágil, lembras-te? Era dele. Agora, é dono disto. É sócio daquele actor meio careca...o...Milosevich! Acho que é esse o nome...sei lá! Jason olha para o Lemos com um ar aparvalhado e encolhe os ombros. Manuel Reis avança na direcção da área VIP. Provavelmente iria cumprimentar a banda. Augusto Luís aproveitou a distracção do povo para chegar ao balcão. Pouco depois já bebericava o seu bloody mary; só que este não dava sinais de contar uma gota de álcool. Mal humorado, dirigiu-se ao barman. - Vou-te dar uma novidade: é costume isto levar vodka! pelo menos, é assim que costumo beber lá no Blue Velvet do meu amigo Ferreira... - Eu sei; e esse até tem bastante. - Mas aqui a vodka é servida com conta gotas? - Não. È mesmo essa a dose certa.
Augusto Luís imaginou o troféu do funcionário da semana. Seria entregue, ao empregado que conseguisse servir 180 doses com uma só garrafa! Pertinho dele, com ar de pânico, a João puxava-lhe uma das mangas. - Vê se controlas o mau génio. È que eu gostava de cá poder voltar... Já era demais. Augusto Luís estavas prestes a explodir. - João, numa coisa posso ficar descansado. Se este é o teu local preferido, já não tenho de me preocupar com a hipótese de dares em alcoólica. E se os teus amigos são todos como esse Matias de cachecol rosa choque, também sei que não é tão cedo que ficas grávida... Entretanto, a zanga é interrompida pelo Fonseca que surge esbaforido, perto deles. - Porra! Olhem ali para a pista! Eu não acredito no que estou a ver... No meio da pista, via-se o Ferreira espartilhado nas suas roupas pretas. dançava na companhia de uma bela morena que ostentava uns longos cabelos negros. Ele parecia hipnotizado pelo olhar daquela mulher de aspecto misterioso. - Não estou a ver nada de mais...já sabes que o Ferreira não pode ver um rabo de saias! - diz Augusto Luís com displicência. - Não estás a entender! Aquela mulher e os amigos dela estão-nos a perseguir desde a hora do concerto. Eu vi-os aqui há uns cinco minutos e tratei de avisar o pessoal. Agora vejo que é tarde demais! - Mas tu estás bêbado? Não dizes coisa com coisa! - Acreditem no que estou a dizer! Há alguma coisa muito estranha com aqueles gajos - explica o Fonseca, em desespero. Dito isto, Augusto Luís concede o benefício da dúvida e fixa o olhar no dueto que se rebolava ao som das batidas electrónicas. Instantes depois, ele vê a morena envolver o seu amigo num abraço sedutor. Beija-o numa atitude de luxúria. De seguida, ele observa que ela aproxima a boca do pescoço do Ferreira. Subitamente, Augusto Luís arregala os olhos ao vêr o tamanho dos dentes da mulher. Solta um grito e avança rapidamente para a pista, empurrando o pessoal todo.
O Ferreira aguardava impacientemente pelos amigos, na porta principal do centro comercial Vasco da Gama. Aquele tinha sido o local de encontro escolhido para uma noite que se pretendia memorável. A lendária banda inglesa, The Cure, estava de passagem pela capital para um concerto no Pavilhão Atlântico e, logo que o evento foi anunciado, ele tratou de convencer os amigos a acompanhá-lo naquela noite tão especial. Quase todos eles tinham crescido ao som da banda de Robert Smith e, aquela parecia ser uma oportunidade de ouro para reaproximar o grupo. Após os estranhos acontecimentos na Quinta das Gárgulas, em Novembro do ano anterior, os cinco amigos tinham tido um inexplicável e gradual afastamento entre si. Os jantares rareavam e a maior parte das vezes, limitavam-se a ter breves conversas por telefone ou via internet.
Durante a semana, o Ferreira tinha conseguido resgatar uma antiga t-shirt da banda que se encontrava perdida numa gaveta. O passar dos anos não perdoava e ao vesti-la sentiu um ligeiro desconforto. Já não tinha o corpo dos tempos de adolescente e receava que ela se rasgasse com um movimento mais brusco, de tão apertada que estava. Porém, complementou o seu visual para a noite de sábado, com outras vestes pretas que encontrara no seu guarda roupa. Cerca de vinte minutos após as seis da tarde, já estavam todos reunidos na entrada do centro comercial. A década de oitenta já estava bastante distante, mas ao entrarem na superfície comercial, vão-se cruzando com diversas pessoas trajadas de negro da cabeça aos pés. Aqui e ali, um ou outro clone do vocalista Robert Smith. Era uma daquelas noites, em que surge a interrogação sobre onde se escondem aqueles personagens durante o resto do ano.
Eles vão-se dirigindo para a área de restauração, com o intuito de fazer uma refeição ligeira antes do espectáculo ter início. Instantes depois, cada um deles ataca os seus sanduíches gordurosos e toma as primeiras cervejas da noite. Rapidamente, a indumentária do Ferreira se torna alvo de chacota por parte dos amigos. - Pá, não tinhas uma roupa mais apertada para tazer? Porra, quase que não consegues respirar! – troça o Augusto Luís. - Bem, pior mesmo é o cheiro a naftalina! – ajuda o Fonseca. - Já agora, podias ter colocado uma sombra nos olhos e um pouquinho de baton vermelhos nos lábios... – acrescenta o Lemos, rindo. - E se fossem todos à merda? – a irritação do Ferreira já se fazia sentir. - Ok, deixem lá o nosso amigo em paz! Faz um tempão que não estamos juntos e desatamos a implicar uns com os outros? – avança o Reis apaziguador. - Tens razão! Olhem, eu tenho um conhecido na empresa que está a organizar o concerto e o gajo ficou de me ligar no final – diz o Fonseca. - Para quê? – interroga o Ferreira. - Bom, ele pode-nos facilitar o acesso ao backstage ou dar-nos uma pista sobre o local para onde a banda irá beber uns copos depois do concerto. - O quê? Não me digam que estão a pensar em andar em atrás desses gajos! Se fossem umas boazonas, eu até alinhava... – Augusto Luís não parecia entusiasmado com a idéia – Vocês parecem um bando de adolescentes! - Vá, deixa de ser chato! Até pode ser divertido... – diz o Ferreira – Embora, eu duvide que nos deixem chegar perto deles... - Hum...logo se vê. Vocês sabem que estou aqui por vocês, pois os meus ritmos são outros. De qualquer modo, no fianl, temos que dar uma voltinha para colocar a conversa em dia – Augusto Luís parecia mais benevolente. - E se fôssemos andando para o pavilhão? – a impaciência do Ferreira era quase palpável – Eu gosto de curtir o ambiente destes dias. - Vamos lá então! Hoje vamos ter uma noite em grande! – atalha o Fonseca com entusiasmo.
O quinteto de amigos circundou o recinto durante algum tempo. Com o aproximar da hora, a concentração de pessoas tornava-se maior. Abundavam as roupas pretas, cabelos eriçados e a maioria dos espectadores deveria oscilar na faixa etária dos 30 a 40 anos. Quase não se viam rostos imberbes de adolescentes pelas redondezas. Por fim, chega a hora de entrarem no pavilhão. O Ferreira e o Fonseca, arrastaram rapidamente os outros para as fileiras da frente, bastante próximas do palco. Ambos pretendiam seguir com atenção, todas as movimentações dos seus ídolos. Durante o tempo de espera, o ambiente do grupo transformara-se totalmente. Conversavam, contavam piadas e riam alto. Afinal de contas, nada tinha mudado entre eles. A amizade mantinha-se sólida e continuavam a divertir-se muito quando estavam juntos. Passado um pouco, o Fonseca observa com atenção um pequeno grupo que estava bem próximo deles. Eram três rapazes e duas raparigas bastante altos que falavam uma língua indecifrável entre eles. Chamavam um pouco a atenção pelas suas roupas negras bastante extravagantes, mas acima de tudo pela extrema palidez dos seus rostos. De seguida, ele toca no ombro do Ferreira e segreda no seu ouvido: - Já reparaste naquele pessoal que ali está? - Qual é o problema? – pergunta o Ferreira, girando o pescoço na direcção deles. - Há qualquer coisa de estranho neles...parecem um bando de defuntos! E o pior de tudo, é que estão fartos de olhar para aqui. - Lá estás tu com as tuas paranóias! Já sabes que os góticos são todos esquisitos...e olha que aquelas duas até são bem interessantes.
Entretanto, a conversa dos dois é interrompida por um alarido geral. As luzes tinham-se apagado e ecoam os primeiros acordes no palco. No meio daquele alvoroço inicial, o Fonseca olha para o lado e sente um arrepio na espinha, ao ver uma das góticas a olhar fixamente para ele, esboçando um sorriso. Por breves segundos, ele pensou ter visto uns dentes caninos demasiadamente aguçados e um reflexo vermelho no olhar. Contudo, o Ferreira puxou-o ainda mais para a frente, fazendo-o esquecer o grupinho sinistro. O concerto durou cerca de duas horas. Durante esse tempo, puderam reviver diversas músicas que os fizeram recuar no tempo. No final do espectáculo, saem lentamente do recinto e encaminham-se para as traseiras do pavilhão. O backstage fervilhava de movimento, com diversos técnicos da banda a prepararem-se para desmontar os equipamentos e prosseguir viagem pela Europa. Fonseca aguardava o telefonema do seu amigo, enquanto os outros desfrutavam do ar fresco da noite. Ferreira estava sorridente e fumava sem parar. Instintivamente, o Fonseca olha para trás e fica estarrecido ao ver que o quintento de góticos os observa a curta distância. Entretanto, junto às vedações, ouve-se um grito: - Fonseca! Fonseca! Podes trazer os teu amigos para aqui. O vosso acesso foi liberado... Fonseca olha mais uma vez para trás, empurra os amigos para a frente e apressa o passo na direcção da área de backstage. O seu coração batia acelerado e olha para trás uma última vez. O grupo permanecia no mesmo local, olhando para eles...
Desde o início deste blogue, tenho plena consciência que a minha escrita foge um pouco dos critérios que regem a própria blogosfera. Não se trata de um diário e evito ao máximo expôr os meus sentimentos mais íntimos. Acima de tudo, pretendo retratar a vida de um português no Brasil. Não o português de antigamente, das mercearias e padarias, que se ficou essencialmente no Rio de Janeiro e São Paulo. Acredito que seja um digno representante da terceira fase de emigração para este país - caso não se recordem, existiu uma segunda fase pós-25 de Abril com motivações políticas - que procurou um novo modo de vida mais relaxado, novas experiências e algo receoso pelos actuais rumos do nosso país. Durante estes meses, tenho escrito sobre diversos aspectos culturais e turísticos do Nordeste brasileiro, assim como, vários apontamentos relacionados sobre os meus interesses extre-profissionais. No entanto, existe uma rubrica que fez algum sucesso nesta página. Falo-vos das blogséries que iniciei no primeiro trimestre deste ano. Elaborei-as sem qualquer tipo de pretensão literária e confesso que me proporcionaram momentos bastante divertidos. Tudo teve início com "A Noitada", onde fiz a apresentação de um grupo de cinco amigos trintões que se foi tornando famoso ao longo do tempo. Nesse breve conto, descrevo as peripécias que qualquer um de nós já vivenciou na noite lisboeta. Seguiu-se "Férias em Natal", uma história mais longa que narrava as aventuras do quinteto por estas paragens. Durante esse período, a Tati brindou-nos com delicioso contraponto feminino dessa mesma história, estabelecendo-se uma saudável guerra dos sexos nos dois blogues. Pouco antes da minha paragem em Junho, dei o mote para uma blogsérie interactiva que denominie de "9m 32s". Os episódios adquiriram contornos surpreendentes, mas creio que a sua parte final se tornou demasiadamente longa e aquém das expectativas iniciais. Após esta retrospectiva, devo adiantar que pondero a escrita de uma nova produção blogosférica. Porém, estou indeciso em relação ao seu tema central. Sinto saudades das trapalhadas de Augusto Luís e Cª mas, por outro lado, tenho vontade de experimentar novos personagens e outro tipo de narrativa. Dado o prazer que a escrita alternada com a Tati me proporcionou, a elaboração de um conto a duas mãos também se afigura tentadora... Visto que estou embrenhado num mar de indecisões, pretendo contar com a colaboração das vossas opiniões sobre o que escreverei no futuro. O que preferem? Mais uma aventura dos cinco comparsas ou a criação de novos personagens? Versão a uma mão, a duas ou interactiva? Aguardarei os vossos palpites e prometo que em Dezembro, poderão contar com uma nova blogsérie neste espaço. Os mais esquecidos, poderão relembrar as três blogséries em versão compacta, acedendo ao marcador abaixo mencionado.
Na semana passada, os rapazes de Lisboa embrenharam-se na misteriosa Quinta das Gárgulas, na serra de Sintra, onde se deparam com estranhos rituais. Hoje, o Lois apresenta o quinto episódio desta blogsérie, onde a narrativa adquire tórridos contornos eróticos. Mistério, espionagem, seitas obscuras e sexo. Que novos rumos,esta história ainda irá tomar?
Augusto Luís, Ferreira e a enigmática Amélia saem do prédio. O aguaceiro não dava tréguas. Ficam parados na beirada do edifício para se abrigarem da chuva. - Ferreira, para onde vamos com este temporal? - pergunta Augusto Luís, subindo as golas do blusão. - Preciso de passar no Blue Velvet para ver como estão as coisas. Para além do mais, esse apartamento está-me a deixar paranóico. Quero espairecer um pouco... - Está certo. Ès capaz de ter razão. Vamos lá, então... - Esperem! Também vou com vocês...- interrompe Amélia - Precisamos falar sobre algumas coisas. - Conversar connosco!? - interroga Augusto Luís espantado. - Não acredito que o Blue Velvet seja um local muito apropriado para senhoras - dispara o Ferreira algo desconfiado. - Porquê? Acha que nunca entrei num clube de strip-tease? Não seja machista! Tenho informações que serão do vosso interesse - diz Amélia em tom de desafio. - Alto lá! Chega de mistérios por hoje! Diga logo quem você é! - grita o Ferreira. - Calma! Não creio que seja prudente falar aqui no meio da rua sobre certos assuntos. Vamos? - diz Amélia com um sorriso apaziguador. - Hum...você vai ter de nos explicar muito bem essa história. Tem a certeza que o ambiente da boite não a vai incomodar? - questiona Ferreira, já avançando para o carro. - Não seja parvo! Já me vi obrigada a entrar em locais bem piores... - responde Amélia de forma misteriosa. Um pouco mais tarde, Augusto Luís e Amélia estão sentados frente a frente, numa mesa de canto no Blue Velvet. Ferreira andava de um lado para o outro, dando intruções aos funcionários. Os últimos acontecimentos faziam-no prevêr que talvez tivesse de se ausentar por algum tempo e, por isso, queria deixar tudo organizado para que o funcionamento da casa não fosse alterado. Augusto Luís e Amélia mantinham um diálogo bastante agradável. A química que se tinha estabelecido entre os dois era quase palpável. Ele não conseguia desviar o olhar daquele rosto que o tinha enfeitiçado. Estavam completamente imunes ao ambiente que os rodeava. As dançarinas no palco e a turba masculina era-lhes completamente indiferente. Este clima de intimidade, é interrompido pelo Ferreira que se senta ao lado do amigo. Coloca algumas pedras de gelo num copo e serve-se de mais um whisky. Acende um cigarro e olha para Amélia com uma expressão impenetrável.
- Acho que chegou a hora de nos contar o que sabe... - murmura Ferreira. - Sei o que vos está a acontecer. Isto não era para ser assim, mas os acontecimentos das últimas horas, fizeram-me alterar todos os procedimentos. - Continuo sem entender os seus objectivos. E acima de tudo, quero saber quem você é... - diz Ferreira, evidenciado alguma irritação. - Se o meu nome verdadeiro é Amélia, pouco importa. Sou agente do SIS e sei que estão a ser ameaçados. - Ah,ah,ah! - Ferreira solta uma gargalhada - Agente do SIS? Deixe-se de brincadeiras e explique logo o que quer de nós! - Estou a falar a sério! Vocês estão a ser chantageados por um grupo que anda a ser investigado pelos nossos serviços. Através de outros canais de informação, soubémos que seriam os próximos alvos. Por sorte, o apartamento ao lado do seu ficou vago e, eu infiltrei-me no prédio hà cerca de um mês.. Precisávamos de seguir de perto, todos os seus passos. - Quer dizer que ando a ser espiado? Era só o que me faltava! Na realidade, nem me apercebi que era a minha nova vizinha. Os meus horários nocturnos não me possibilitam grande convívio com a vizinhança... - profere Ferreira, numa atitude de defesa. - Acredito. No entanto, era fácil de adivinhar que você seria o elemento do grupo a ser contactado. O facto de ser proprietário desta casa nocturna dá-lhe mais visibilidade - explica Amélia. - Mas que raio de grupo é esse? - Augusto Luís decide intervir no diálogo - Não vejo qualquer tipo de conexão. Nem sei como tiveram acesso à filmagem da festa do meu último aniversário. - Na famosa suíte 483 do Hotel da Lapa... - susurra Ferreira, dando mais um trago no cigarro. - Isso também não sei. Porém, a posse desse tipo de documentos torna as pessoas vulneráveis a chantagens. De qualquer modo, posso-vos adiantar que se trata de uma espécie de seita religiosa, embora os seus rituais sejam de índole pagã. São liderados por uma personagem carismática. Chama-se Horácio Lobo. Viveu alguns anos no Brasil, onde se casou com uma tal de Débora que se tornou o seu braço direito. As actividades da seita tiveram início em Salvador em 1996. Ele regressa a Portugal em 2003 e dois anos mais tarde, surgem os primeiros indícios de actividades suspeitas em território nacional. - Que merda! Mas como é que nós entrámos nesse filme? - continua Augusto Luís. - Antes de mais, preciso de saber o conteúdo do envelope que receberam. Foi a própria Débora que executou a tarefa. Eu via-a entrar no prédio, logo depois do Ferreira ter saído para o futebol. Pelo que me dizem, já entendi que o pacote inclui uma filmagem de uma das vossas festinhas... - diz Amélia com malícia. Augusto Luís passa a explicar em pormenor os dados que tinham em sua posse, enquanto o Ferreira observa a agente secreta pelo canto do olho. Quando ele termina de falar, Amélia dá um gole no seu cocktail e fica pensativa. - O vosso relato é inédito. Até há poucos meses atrás, o SIS possuía uma fonte dentro da seita. Foi a partir dessa pessoa, que descobrimos que seriam as próxima vítimas. No entanto, esse elemento desapareceu sem deixar rasto. A chantagem, as ameaças e a extorsão sempre fizeram parte das actividades do grupo, mas até agora nunca tinham raptado ninguém. A chantagem incide sobretudo sobre mulheres. Nunca entendemos bem o objectivo...o que é certo é que muitas dessas pessoas, acabaram por aderir à seita, passado a participar nos rituais. - Que estranho...a chantagem não terá o objectivo de angariar dinheiro para as actividades do grupo? - indaga Ferreira. - Provavelmente sim. As investigações têm-se deparado com inúmeras dificuldades. Existem bastantes figurões envolvidos na seita. Empresários, diplomatas e até mesmo políticos da nossa praça. - Estamos fodidos! O que podemos fazer? Pobre Reis! - desabafa Augusto Luís. - Não entrem em desespero. Preciso que me deêm o material que receberam. Vou entregá-lo à equipa técnica do SIS. Mais tarde, quando a Débora telefonar, avisem-me de imediato e a partir daí traçamos um plano de acção. - E quanto ao enigma? - pergunta o Ferreira. - Parece-me bastante simples. A seita muda constantemente de local. Nunca ficam mais de dois meses no mesmo sítio. Preferem quintas e moradias isoladas, na periferia de Lisboa. Suponho que o vosso amigo esteja prisioneiro num local desse tipo. - E em relação aos outros? Acha que devêmos avisá-los? - interompe Augusto Luís. - Claro que sim. Aguardem o telefonema da brasileira e depois expliquem-lhes a situação por inteiro. O trio permanece a conversar em surdina durante algum tempo. Por volta das quatro da manhã, regressam ao prédio, com o intuito de descansar um pouco. O dia seria bastante longo...
Lisboa, Quinta Feira - 01 Novembro 2007, 12:10h Ferreira já estava acordano, mas permanecia deitado na cama, mergulhado em pensamentos obscuros. Tinha dormido bastante mal. Um sono bastante agitado por pesadelos com o seu amigo Reis. De repente, escuta o toque do telemóvel que tinha colocado ao lado do seu travesseiro. Número confidencial. Só podia ser o ansiado telefonema... - Estou? - a sua voz não disfarçava o nervosismo. - Oi, Dr.Ferreira! Dormiu bem, meu querido? - pergunta a brasileira com ironia. - Não é da sua conta! Quero saber como está o Reis! - Não se preocupe. Ele está muito bem e aguarda a vossa visita esta noite. E quanto à charada? Têm ideia de onde nós estamos? - Subestimaram a nossa inteligência. Devem estar enfiados numa quinta, lá para onde o Judas perdeu as botas! - Ferreira já estava irritado com os jogos da sua interlocutora. - Bravo! Agora veja se adivinha esta...estamos entre a serra e o mar. Num local, que em tempos ancestrais, era chamado de Monte da Lua. - Sintra!? - responde Ferreira de forma espontânea. - Afinal, vocês não são tão estúpidos quanto aquele vídeo caseiro poderia sugerir. Esperamos o vosso grupo esta noite, ás onze horas, na Quinta das Gárgulas. A quinta fica na serra de Sintra. A senha para entrar na casa é OPUS BLOGUS. Nunca irão esquecer, o cerimonial que irão assistir... Logo de seguida, Débora explica o caminho para a propriedade, enquanto Ferreira vai fazendo anotações num caderno. Ela despede-se de forma ameaçadora. - E nem pensem em chamar a polícia! Não se esqueçam que o Reis está nas nossas mãos. Até logo!
Ferreira levanta-se bruscamente e avança para a sala, onde Augusto Luís roncava bem alto em cima do sofá. Levanta as persianas e afasta a manta que cobria o amigo. - Toca a acordar! Hoje, temos excursão nocturna na serra de Sintra! - O quê? Foda-se, o que estás para aí a dizer? - Levanta-te rápido! A brasileira já me ligou. Telefona ao Fonseca e pede para ele vir para cá com o Lemos. Depois, trata de avisar a Amélia. Enquanto isso, vou tomar um banho... - Mas o que foi que a gaja te disse? - Quando estiverem aqui todos, eu conto. E que tal a bond-girl? Acho que ela gostou de ti - graceja o Ferreira. - È boazona! Adorei! Estás com ciúmes? - Népia! Nunca gostei de fulanas que gostem de espiar as minhas coisas. - diz o Ferreira rindo - E já agora, pede para os outros gajos trazerem umas pizzas e cerveja para o almoço. Nessa tarde, o apartamento do Ferreira transforma-se num autêntico quartel general de uma operação ultra-secreta. O Fonseca e o Lemos ainda estavam atónitos com a situação em que estavam envolvidos e escutavam tudo com a máxima atenção. Amélia tinha chegado com mais dois colegas do SIS. Voltaram a vêr o filme e foram planeando a acção. Amélia deslocar-se-ia mais cedo para Sintra, com os outros dois operacionais. Ela iria entrar clandestinamente na quinta, enquanto os outros ficariam prestando suporte à operação no exterior, dentro de uma carrinha escondida na mata. Seria instalado um dispositivo de escuta, debaixo da roupa de Augusto Luís para que os agentes tivessem conhecimento dos acontecimentos dentro da casa. Se as coisas corressem menos bem, o pessoal do SIS daria sinal de alerta para as forças policias entrarem em acção.
Sintra, Quinta Feira - 01 Novembro 2007, 23:00h O quarteto de amigos, optara por fazer a viagem até Sintra no carro de serviço do Lemos. Ele era um às do volante e poderiam ter de efectuar uma fuga rápida. O percurso de Lisboa a Sintra, tinha sido percorrido em alta velçocidade. O pequeno Renault Clio quase voava no IC19. Os ocupantes permaneciam em silêncio. Um nervoso miudinho revolvia-lhes o estômago. A chuva tinha parado a meio da manhã desse dia, mas quando chegam a Sintra, são envolvidos por uma densa neblina que fazia as casas adquirirem contornos fantasmagóricos. Cruzam a vila e embrenham-se pelos caminhos da serra. Ferreira vai dando as indicações e pouco depois, desembocam no portão da Quinta das Gárgulas. Na entrada, estão dois homens vestidos com roupas paramilitares e ladeados por temíveis cães de guarda. Um deles avança para o carro. - Boa noite, senhores! A senha, por favor? - OPUS BLOGUS! - respondem em uníssono. O homem olha para eles desconfiado, mas faz sinal para que o outro abra passagem para o carro. Entram lentamente e deparam-se com um casarão antigo, de cor rosada. O átrio defronte da casa tem vários carros estacionados. Quase todos topos de gama e alguns jipes. Estacionam ao lado de um Volvo azul escuro. - Porra! Deve ser só pessoal da alta! Olhem para o parque automóvel que aqui está! - exclama o Lemos. - Podes crer! E agora chegaram os cordeirinhos para o jantar dos barões - diz o Fonseca amedrontado. - Esta escuridão da serra, põe-me os nervos em franja! Espero que a Amélia saiba o que está a fazer... - divaga Augusto Luís. Saem do carro e dirigem-se para a porta principal da casa. Dão de caras com um negro com quase dois metros de altura, envergando um smoking impecável. - Sejam bem-vindos à Quinta das Gárgulas! Importam-se de repetir a senha? - OPUS BLOGUS! - respondem eles, mais vez. - Façam o favor de me acompanhar... - diz o negro de forma solene, avançando para o interior. Eles seguem-no. Quando entram no casarão, observam a decoração luxuosa e escutam uma espécie de música sacra que os faz arrepiar. São encaminhados para uma pequena sala. O negro pede que retirem os casacos e estende-lhes umas longas capas de veludo roxo. Em seguida, dá a cada um deles, uma máscara de porcelana. As máscaras eram lindíssimas, com várias pedras semi-precisosas a ornamentá-las. Eles entreolham-se espantados, mas não ousam questionar o anfitrião. Vestem as capas, colocam as máscaras no rosto, seguem por um corredor iluminado por velas e vão ouvindo a música cada vez mais próxima. O corredor termina num enorme salão de estilo mourisco. Quando passam pela porta, são confrontados com uma cerimónia surreal que os deixa perplexos. No meio do salão, está uma espécie de sacerdote que veste uma capa vermelha e máscara dourada. Ao seu redor, forma-se um círculo de dez mulheres esculturais, praticamente nuas e com máscaras. Um pouco mais afastado deste círculo principal, estão várias pessoas com capas de veludo pretas e com as mesmas máscaras. Os rapazes olham em volta e tentam perceber o que se passa. Neste preciso momento, Amélia encontra-se escondida nas cavalariças da quinta e apenas consegue ouvir aquela sonoridade sinistra , acompanhada da respiração ofegante de Augusto Luís, captada pelo sistema de escuta...
Neste MEGA-EPISÓDIO, fica evidente o meu fascínio pelo mundo da espionagem, assim como, pelos filmes de Stanley Kubrick. O Lois expressou que gostaria de acrescentar novos elementos ou concluir esta narrativa. Sendo assim, seja-lhe feita a vontade. No caso de existir continuação, ficam desde já proibidos de passar a bola novamente para mim! :)
A filósofa Jade surpreendeu-me com o seu talento literário, imprimindo ainda mais mistério à blogsérie iniciada aqui neste espaço. No entanto, calhou-me na rifa resolver uma charada e escrever o quarto capítulo, que publicarei como sempre na quarta-feira. E quem será a Amélia!?
O Lois publica hoje, o segundo episódio da blogsérie iniciada neste espaço na passada semana. Parece que o mistério em torno da filmagem tarda em ser desvendado... Para os que não leram ou já se esqueceram do primeiro episódio, podem-no rever no final desta página.
Estádio de Alvalade. Ferreira e Fonseca festejam efusivamente o segundo golo do Sporting frente aos italianos da AS Roma, em mais uma jornada da Liga dos Campeões. Faltavam seis minutos para o final do encontro, o placard registava 2-1 a favor dos leões que, garantiria uma importante vitória na competição. Os minutos até ao término do jogo pareciam demorar uma eternidade. Os dois amigos suspiram de alívio ao ouvirem o apito final do árbitro, aplaudem a equipa de pé e dirigem-se lentamente para uma das saídas do estádio. Minutos depois, caminham lado a lado, conversando de forma animada sobre a partida. Despedem-se mais adiante, nas imediações do Hospital Pulido Valente, onde tinham os automóveis estacionados. Ferreira entra no carro, liga o rádio e arranca na direcção do Campo Grande. O avanço era lento, devido ao enorme tráfego que se formava na área durante os dias de jogo. Cerca de meia hora mais tarde, já procurava um lugar de estacionamento perto do prédio onde morava, quando o seu telemóvel toca. Olha para o visor do telefone. Número confidencial... - Estou? - Boa noite, Dr.Ferreira! Gostou da vitória do seu time? - respondeu uma voz feminina com sotaque brasileiro, do outro lado da linha. Por breves momentos, Ferreira ainda pensou ser alguma das moças que trabalhavam na sua boite, a aborrecê-lo com alguma banalidade. - Quem fala? Desculpe, mas não estou a reconhecer a sua voz... - Rapaz curioso,hein? - troçou a sua interlocutora. - Não gosto de brincadeiras deste tipo! Identifique-se imediatamente! - retorquiu Ferreira em tom autoritário. - Ah,ah,ah! Fique tranquilo. Só queria avisar que tem um presente pra você e seus amigos na porta do seu apartamento. Relaxe! Amanhã entrarei novamente em contacto. - Mas que palhaçada vem a ser esta!? - Oiça com atenção, seu portuga arrogante! Você tenha muita calma, porque neste jogo nem você, nem seus amiguinhos mandam porra nenhuma! Está entendendo? - a voz era claramente ameaçadora.
Ferreira engole em seco, sente as suas mãos ficarem subitamente suadas e faltam-lhe as palavras. Palavras essas, que eram desnecessárias porque a sua interlocutora já tinha desligado. Ele desperta deste torpor momentâneo quando escuta um carro buzinar atrás de si, visto que tinha parado no meio da rua para atender a ligação. Enfia o carro numa nesga de espaço ao lado dos contentores de lixo e, corre na direcção do prédio. A subida de elevador até ao quinto andar nunca lhe parecera tão longa. Sai de rompante e olha na direcção da porta do seu apartamento. Sente um frio no estômago quando vê um envelope formato A4, de cor laranja, pousado em cima do tapete da entrada. Agacha-se e pega nele com as mãos trémulas, olhando em seu redor com desconfiança. Abre a porta rapidamente, entra e fica parado no hall de entrada, examinando o envelope. Vai até à sala, senta-se no sofá e apalpa o envelope com cuidado. Apenas sentia um objecto fino e liso no seu interior. Sem mais demoras, abre o envelope e despeja o conteúdo no chão. Continha apenas um pedaço de papel dobrado e uma caixa de DVD preta. Pega no papel, desdobra-o e lê uma curta mensagem escrita com letras recortadas de jornais. O texto reforçava ainda mais, o tom de ameaça do telefonema que recebera. " O vosso grupinho julga-se muito esperto, mas podem ter a certeza que a brincadeira está perto do fim. Temos o prazer de vos oferecer uma cópia de um vídeo bastante interessante que temos em nossa posse. Acreditamos que a sua divulgação possa arruinar as vossas vidas. Tenham cuidado e aguardem o nosso contacto para mais intruções."
De seguida, Ferreira pega na caixa preta, abre-a e vê um CD dourado com uma pequena etiqueta colada que contém a inscrição 9m 32s. Instintivamente, liga o televisor, retira o CD da capa e coloca-o no leitor de DVD. Subitamente, sente um pavor enorme a crescer dentro dele e desliga abruptamente todos os aparelhos. O seu coração batia de forma desenfreada. Serve-se de uma generosa dose de whisky, acende um cigarro e vai até à janela. Tinha começado a chover com intensidade e alguns relâmpagos iluminavam o céu escuro que parecia engolir a cidade. O telemóvel toca novamente. Ele estremece com o susto. Para seu alívio, era o Augusto Luís. - Sim? - atende o Ferreira com a voz sumida. - Tudo bem contigo, Ferreira? Parabéns pela vitória do Sporting. Grande jogo! Estou a ligar para saber se tens planos para o feriado de amanhã - diz Augusto Luís com entusiasmo. - (...) - silêncio profundo do Ferreira - Estás a ouvir? Não me digas que perdeste a voz de tanto gritar no estádio - acrescenta Augusto Luís no gozo. - Amigo, creio que temos um grande problema em mãos. Ligou-me uma gaja a fazer-nos ameaças e deixaram-me um envelope na porta de casa com uma mensagem muito estranha, acompanhada de um DVD. - O quê? O que estás para aí a dizer? Telefonema? Ameaças ao pessoal? DVD? Não estou a entender patavina! Explica lá isso melhor... - Depois de sair do estádio, ligou-me uma brasileira de um número confidencial, a dizer que tinha um presente para nós. Quando subi, vi que tinham deixado um bilhete com ameaças e a cópia de um vídeo que supostamente nos pode lixar a vida. - Uma brasileira!? Mas estás com algum problema na Blue Velvet? - Não. E mesmo que tivesse, vocês não têm relação directa com a minha boite. Correcto? - Tens razão. E o vídeo? È o quê? - Ainda não vi. Estava a ganhar coragem para ver aquilo, apesar de não ter a mínima ideia do que se trata. - E de que estás à espera? Eu tenho de saber o que é! - exalta-se Augusto Luís. - Hum...não queres vir até aqui? - Eu não acredito que estás com medo de ver isso! E já reparaste que está um temporal dos diabos? - Acho que também será do teu interesse assistir ao vídeo... - És mesmo chato! Custava-te muito ver isso e depois ligares para mim? Até pode ser uma brincadeira de mau gosto... - Não só acho que deverias vir a minha casa, como também estou a pensar em avisar o resto do pessoal. Temos que discutir em conjunto esta situação... - Nada disso! Por enquanto, não adianta fazer alarido. Eu vou agora para tua casa. Vemos a merda do filme e depois decidimos o que fazer. - Combinado. A brasileira disse que voltaria a ligar amanhã. Temos que colocar as cabeças a funcionar bem rápido! - Que coisa tão estranha...daqui a pouco estarei por aí. - Fico a aguardar. Até já! Enquanto esperava por Augusto Luís, o Ferreira deambulava pela casa toda, imerso num total estado de ansiedade. O cinzeiro transbordava de pontas de cigarro e ele não largava o copo de whisky. Quando o amigo chegou, foi-se apercebendo da verdadeira dimensão da ameaça. Leu e releu a mensagem que vinha no envelope. Pediu um cigarro ao Ferreira, acendeu-o e fez sinal que estava pronto pronto para visionar o conteúdo do misterioso DVD. Sentam-se lado a lado, o Ferreira liga novamente a televisão e prime a tecla play do controle remoto do leitor de DVD...
Episódio 2 - Gostaria de lançar este desafio ao meu blogamigo Lois. Por sua vez, na próxima semana, ele terá que desafiar um/a bogger da sua confiança para escrever o terceiro episódio e assim sucessivamente, até que alguém decida dar um final à história. Os links serão notificados aqui nos trópicos.