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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Estereótipos


Na sua edição de Abril, agora nas bancas, a revista Brasileiros publica extensa reportagem centrada em Lisboa em que destaca a diferença entre os estereótipos que por vezes ainda existem no Brasil em relação a Portugal e as novas realidades portuguesas.
"Os brasileiros que visitam Portugal surpreendem-se com um país moderno, diferente do que imaginam, e a notícia se espalha" - destaca a revista, citando o presidente da companhia aérea portuguesa TAP, o brasileiro Fernando Pinto

Vida cultural vibrante, sofisticação e urbanidade, uma sociedade miscigenada, em que se cruzam gentes de todas as cores, gente jovem com iniciativa, contactos e consagração na Europa e no mundo, familiarizada com as novas tecnologias, com saudades, sim, mas do futuro - eis o que a"Brasileiros" descobriu em Portugal.
E sempre um olhar de familiaridade com o Brasil, consciente das raízes comuns : "brasileiro não é estrangeiro. É como se fosse parte de nós" - na expressão de um dos entrevistados.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Portugal e Brasil - Além das Palavras


"Um Brasil com melhor desempenho económico é parceiro essencial para que Portugal reencontre a sua posição na Europa" - escreveu, em artigo publicado há dias na imprensa brasileira,
Marcelo de Paiva Abreu, professor titular do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

"A ampliação do escopo para a convergência de interesses entre os dois países requer, necessariamente, grande aumento do intercâmbio entre os dois países em todas as esferas. O desafio é dar substância económica à sintonia linguística e cultural. Ir além das palavras."

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O Nosso Império é a Língua Portuguesa

Depois de perdida a soberania com que nos ampliámos em África, agarrámo-nos à língua.

Já venho tarde, mas não queria deixar de saudar a boa nova. Não me refiro à baixa do IVA, anunciada pelo ministro das Finanças, mas à nossa "expansão", prevista pelo ministro da Cultura. É verdade: vamos expandir-nos. Está para chegar um Portugal maior. Talvez a sua população e riqueza até venham a diminuir, mas que importa? Temos uma arma secreta para conquistar o mundo: aquela que Fernando Pessoa insinuou maliciosamente ser a "pátria" dele - a língua portuguesa. É o que nos prometem os crentes do Acordo Ortográfico: um Reich na ponta da língua.
Não vou discutir ortografia, mas os termos curiosos em que a temos debatido nas últimas semanas. De um lado, falaram-nos do "c" de "facto" com a intransigência possessiva que os sérvios dedicam ao Kosovo, e avaliou-se o Acordo "estrategicamente", como se estivéssemos perante uma nova partilha de África, com o Brasil no papel oitocentista da Inglaterra. Do outro lado, recomendaram-nos a nova grafia como a oportunidade de não "ficar aqui como uma espécie de dialecto" (horror), e podermos desfilar ao lado do Brasil na "afirmação de um poder à escala mundial" (segundo o nosso entusiasmado embaixador em Brasília).
Acho comovedor este uso despudorado da linguagem típica do imperialismo ("expansão", "estratégia", "afirmação do poder à escala mundial", etc.) para nos referirmos à língua que partilhamos com mais umas dezenas de milhões de pessoas de outras origens e nacionalidades. Quando nos puxam pela língua, acontece-nos isto: de repente, este país pachorrento e decadente revela-se uma potência beligerante, ciosa das suas aquisições e decidida a novas conquistas. Sim, porque através da "pátria" de Pessoa, nós somos grandes. Tal como a casa da velha canção brasileira, o nosso "império" não tem soldados, nem dinheiro, mas é feito com muito esmero - da língua que outros usam na América, na África e (segundo gostamos de acreditar) na Ásia. E assim prosseguimos a nossa expansão ultramarina, por mais que ninguém dê por isso.
Definitivamente, continuamos a não ser um país pequeno. No tempo do Estado Novo, isso provava-se com os mapas das colónias; agora, pacífica e correctamente instalados em democracia, evocamos a "quarta língua a nível mundial", e os seus "200 milhões" de súbditos. É compreensível. No fundo, há algo de deprimente nas nações reduzidas. George Simenon dizia que ser belga é como não ter país. E talvez por isso, muita gente está preparada para lhe atribuir a ele ou a Hergé, tal como aos suíços Rousseau e Constant, uma pátria (a França) mais consentânea com a sua grandeza individual. As elites portuguesas, que durante a Monarquia sonharam fazer aqui um país tão próspero como a Bélgica e durante a I República tão democrático como a Suíça, nunca se conformaram com o estatuto de pequeno país que era o dessas nações, apesar de liberais e ricas. E depois de perdida a soberania com que nos ampliámos em África, agarrámo-nos à língua, a ver se por aí continuávamos a fazer uma sombra grande no mundo.

Não nos fica mal desejarmos ser muito mais do que aquilo que somos. O que talvez seja menos recomendável é o modo como usamos esta grandeza imaginária para nos pouparmos ao reflexo da nossa realidade. A Europa pesa cada vez menos no mundo, e Portugal pesa cada vez menos na Europa. A língua é a balança avariada com que nos atribuímos robustez. Infelizmente, tudo o que assim sobe acaba por descer: eis que a Venezuela proíbe às suas crianças os Simpson e quer (como compensação?) ensinar-lhes português - e logo o nosso Governo tem de confessar que nos falta dinheiro e pessoal para acompanhar o último capricho de Chávez.
O Brasil, muito citado acerca do Acordo Ortográfico, forma outro capítulo pungente do nosso irrealismo. Nunca percebemos que a ignorância mútua, ritualmente lamentada, não está à mercê de um "acordo". Fingimos desconhecer o fenómeno do "nativismo" no Brasil, que faz com que por cada Gilberto Freyre haja dez Sérgio Buarque de Holanda, ardendo em fervor antilusitano. Imaginamos que a incapacidade dos livros portugueses para hoje chegarem onde chegou Cabral em 1500 se deve simplesmente ao "c" de "facto". Nem sequer admitimos que o Brasil, no fundo, não nos importa demasiado. Vamos lá de férias: quantos aproveitam para ir ao teatro ou às livrarias? E quantos conhecem a política ou os escritores mais recentes do Brasil? A verdade é que o Brasil ainda não é suficientemente interessante para nós, e nós já não somos suficientemente interessantes para o Brasil. O resto é conversa de um império de conversa.


Rui Ramos, Público (16/04/2008)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Leitura Inteligente


Depois do encerramento prematuro d´O Independente, esta é uma das melhores referências na imprensa portuguesa. Uma compra obrigatória para aqueles que não gostam dos discursos das maiorias políticamente correctas. Na edição deste mês, merece nota de destaque o excelente artigo sobre a acesa discussão do acordo ortográfico da língua portuguesa.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Socialites


As edições de fim de semana dos jornais diários de Natal, à semelhança dos seus congéneres lusitanos, trazem diversos suplementos. No entanto, fico surpreendido com a exitência de cerca de seis página dedicadas às coluna social local, onde se pode lêr uma infinidade de futilidade e variadíssimas fotos da pretensa gente chique e importante aqui do burgo. Cheguei a fazer uma compilação de algumas pérolas das últimas edições, mas achei que poderia tornar-se aborrecido. Ao invés disso, destaco o apontamento abaixo transcrito, como um bom exemplo do que se pode lêr nestas páginas.

EMOÇÃO
Nos 90 anos de D.Ivete de Sá Bezerra a emoção ficou por conta de Franklin Bezerra na oração dos fiéis, lida pelo filhos. Sempre moderna, na festa de D.Ivete, teve presença de go-go boys para dançar com as "solteiras" e o salão ficou cheio o tempo todo.


Ora aqui está, uma bela forma de unir o sagrado ao profano numa celebração de aniversário. Temo que a aniversariante, tenha avançado com um processo contra a sua família. Sim, porque nestas idades, a visualização de rapazotes despidos, poderá ser prejudicial à saúde...
Agora expliquem-me a necessidade de preencher cinco a seis páginas com coisas deste tipo. E não me venham dizer, que sou embirrante e elitista!

quinta-feira, 10 de maio de 2007

O portuga dos jornais


Tenho quase por hábito religioso, ler a crónica quinzenal do português João Pereira Coutinho na Folha de S.Paulo. Considero-o um dos melhores cronistas da minha geração, a par da equipa da Revista Atlântico e do blogue 31 da Armada.
Os seus textos são sempre marcados por uma uma certa irreverência e uma lúcida leitura dos acontecimentos político-sociais da actualidade. Hoje, não resisto a transcrever a sua última crónica absolutamente deliciosa. Aos interessados, devo informar que nesta quinta-feira, é distribuído de forma gratuita na Sábado, o livro Avenida Paulista que reúne grande parte das crónicas publicadas por este jornalista, no prestigiado diário paulista.

Virgens ofendidas

"A virgindade era um fardo. Leitor que é leitor sabe do que falo. Basta lembrar os 13, ou 14, ou 15 anos, quando as conversas da escola rondavam esses assuntos. Virgens, nós? A imaginação tomava o lugar da experiência e começava o desfile de conquistas para espantar os colegas tão inexperientes como nós. Comiam-se bairros inteiros de amigas, e as mães das amigas, e uma ou outra empregada que entrava no quarto sem bater à porta primeiro. Os outros olhavam-nos com o espanto próprio dos inocentes e, para não ruborizarem em excesso, partilhavam igualmente as mentiras da idade. Virgens, todos. Garanhões, mais ainda. E quando o dia sacramental chegava, o ato era um detalhe. O prazer também. O alívio, total: como se tivessem libertado Sísifo da sua pedra incansável. Vai, Sísifo, esquece o fardo, esquece a pedra.
Por isso é estranho acompanhar as notícias que chegam de Inglaterra. Lydia Playfoot, 16, vai processar a escola. Motivo? A escola não permite que Miss Playfoot (curioso nome) ostente em público a sua virgindade e o comprometimento de chegar intacta ao casamento. Lydia usa um pequeno anel, inventado em 1995 por um evangélico do Arizona. A escola não gosta do anel por razões de segurança e higiene. E porque o anel "viola" (peço desculpa pelo verbo) a política escolar sobre joalharia.

Confesso: as razões de segurança e higiene, eu entendo. Vi umas fotos de Lydia nos jornais e saber que esta jovem de 16 anos gosta de mostrar a sua condição virginal ao mundo é como largar uma galinha na Etiópia. Um convite ao motim e uma barreira evidente à aprendizagem serena e responsável.
Mas interessantes são as leis da escola sobre jóias. Segundo parece, o estabelecimento permite que os alunos muçulmanos ou sikhs possam usar lenços, calças e outros adereços religiosos. O contrário seria uma intromissão intolerável na liberdade de culto e expressão. Mas isso não impede a mesma escola de proibir cruzes ou crucifixos, e qualquer manifestação exterior de religiosidade cristã, ou vagamente cristã. Como o anel.

O caso não ilustra apenas a imbecilidade do sítio. Mostra como o pensamento multiculturalista, que sustenta grande parte das "políticas sociais" na Europa, é, na verdade, um exemplo de intolerância que nega os seus próprios fundamentos. O multiculturalismo pressupõe uma visão neutral sobre culturas distintas, concedendo a cada uma delas a sua dignidade intrínseca. Mas essa suspensão de julgamento termina à porta do Ocidente. Termina, no fundo, à porta da tradição judaico-cristã. Todas as culturas merecem respeito, com a exceção de uma única. Que, por acaso, é a cultura da maioria.
E a virgindade de Lydia? É talvez um pouco risível que uma adolescente de 16 anos prefira anunciar ao mundo o que deve ser um assunto pessoal e privado. Mas a atitude é tão risível e, no limite, tão condenável como as histórias adolescentes e passadas, em que o anel era outro: um anel invisível de conquistas imaginárias para aliviar o fardo real da abstinência.
E se a estupidez é crime, não há adolescente que escape."