sexta-feira, 9 de março de 2007

George W. Bush no Brasil


"Sob forte esquema de segurança, o presidente americano, George W. Bush, chegou às 20h05, ao aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos, procedente dos Estados Unidos, a bordo do Air Force One. Acompanhado da primeira dama dos Estados Unidos, Laura Bush, ele desembarcou às 20h15, fazendo um breve aceno. Em seguida, desceu da aeronave a secretária Estado Condoleezza Rice. Menos de dois minutos depois de descer do avião, Bush já ingressava num Cadillac do governo americano, trazido ao Brasil, seguido por uma comitiva de cerca de 40 veículos com destino ao Hotel Hilton, em São Paulo, onde ficará hospedado. Bush foi recebido pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, pelo cônsul geral americano em São Paulo, Christopher Mcmullen, pelo secretário municipal de Relações Internacionais, Alfredo Cutait e pelo embaixador do Brasil em Washington, Antonio Patriota.
Durante cerca de 20 minutos, não houve nenhum pouso ou decolagem na área do aeroporto em torno do “Air Force One”. O forte esquema de segurança levou oficiais de segurança do governo americano, do Exercito brasileiro e do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) da Polícia Militar paulista e do esquadrão do antibomba a inspecionarem com cães os equipamentos utilizados pelos jornalistas que cobriam a chegada. Nenhuma das autoridades concedeu entrevista após a saída da comitiva de Bush. Hoje, em companhia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Bush visita pela manhã o Terminal da Transpetro no aeroporto de Cumbica, onde fazem uma declaração à imprensa. No local funciona um terminal da Petrobras Distribuidora, que faz operações de carregamento de produtos como diesel, biodiesel, gasolina e álcool, e um terminal terrestre da Transpetro. Lula e Bush têm novo encontro no início da tarde, seguido de almoço e declaração à imprensa no Hotel Hilton Morumbi. Bush embarcará no início da tarde para o Uruguai, Segunda etapa de sua visita à América Latina.
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, mudou a rotina de um dos principais centros empresariais de São Paulo, quando ainda nem havia desembarcado. Vários escritórios da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, no Brooklin, na zona sul, dispensaram os funcionários entre 16 horas e 16h30 de ontem. A avenida passa ao lado do Hotel Hilton, onde Bush está hospedado. A idéia era evitar que o horário de saída deles pudesse coincidir com a chegada da comitiva do presidente dos EUA.

Passeata termina em pancadaria

São Paulo - Um grupo de mais de seis mil pessoas realiza na tarde de ontem, na Avenida Paulista, sentido Consolação, junto à Praça Oswaldo cruz, no centro de São Paulo, passeata em comemoração ao Dia Internacional da Mulher e em protesto contra a visita do presidente americano, George W. Bush, à cidade. De acordo com a Polícia Militar, a manifestação começou por volta das 14 horas e o grupo deve seguir até o Museu de Arte de São Paulo (MASP), liderado por representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). A PM estima que cerca de 10 mil pessoas se juntem ao grupo.
Segundo a CET, por volta das 15h45, os manifestantes, que carregam faixas com os dizeres “Fora Bush!” e “Não à guerra!” ocupavam a faixa exclusiva de ônibus e a faixa direita do sentido Consolação da avenida. O policiamento já foi reforçado na região para evitar que o grupo ocupe toda a via.
Na avenida Paulista, região central da cidade, um confronto entre manifestantes e policiais deixou cinco feridos —três manifestantes, uma tenente da Polícia Militar e um fotógrafo.
Durante a manifestação, a Polícia Militar usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes que entraram em confronto com PMs. Os manifestantes responderam com pedras e paus.
O grupo protesta desde as 16h pelos direitos das mulheres e contra a presença do presidente George W. Bush no Brasil. O gás das bombas da PM atingiu, além dos manifestantes que enfrentaram a PM, idosos e crianças que passavam pelo local além de pessoas que participavam do protesto pacificamente. Segundo a PM, 6.000 pessoas estavam no local. A organização do evento falou em 20 mil pessoas.
O trânsito na região também foi afetado pelo protesto. Os manifestantes invadiram a pista sentido Paraíso da avenida. Inicialmente, o protesto estava previsto para ocupar duas faixas da avenida, mas o grupo invadiu todas as faixas no sentido Consolação. A manifestação terminou por volta das 18h50. Às 19h10, a pista sentido Consolação foi liberada ao tráfego às 19h10, mais de três horas após o início do protesto."

in Tribuna do Norte (09/03/2007)

Contraponto feminino

A Tati já escreveu o primeiro contraponto da minha blogsérie Férias em Natal. Vale a pena dar uma vista de olhos e aguardam-se novas alternativas da ala feminina.

quinta-feira, 8 de março de 2007

A todas as mulheres...

Deixo-vos com esta bela declaração de amor...quem resistiria a tão belas palavras sussurradas no ouvido?
Parabéns pelo vosso merecido dia!

quarta-feira, 7 de março de 2007

Blogsérie - Férias em Natal - Episódio 1


Lisboa, Sexta-Feira - 05 Abril de 2008, 14:20h

Luís encontrava-se no escritório e aproveitava alguns minutos de pausa para escrever algo no seu blogue. A sua concentração momentânea é interrompida pelo toque do seu telemóvel pousado em cima da secretária.
- Estou? - atende com voz de enfado.
- Olá Luís! È o Ferreira...onde é que andas?
- No trabalho, onde é que haveria de ser!? Pá, desde quando é que me ligas com um número confidencial?
- Ah,ah,ah! Desculpa, mas é um esquema com uma gaja que conheci a semana passada. Olha, estou a ligar para saber se vais ao jantar do Reis logo à noite. Não te baldes. È uma noite especial...
- Especial? Só se for pelo facto do Reis estar a comemorar o divórcio com a Sónia. Eu entendo-o perfeitamente! A gaja era uma trombuda do piorio. Fora isso, não vejo nenhuma diferença em relação aos outros nossos jantares mensais.
- Não...o jantar deste mês é diferente. O Reis despede-se de um pesadelo de quatro anos e eu estou com umas ideias para as férias da malta.
- Férias da malta? Depois da desgraça que aconteceu em Espanha, dispenso as férias em grupo. Além do mais, a minha mulher já está enjoada das nossas noitadas e falta-me coragem para me escapar novamente para umas férias com o pessoal. Mas peraí...para onde é que nos queres levar? Escuta, nem penses que me arrastas para o Brasil!
- Tem calma. Já conversei com o resto do grupo sobre isso. O Lemos topou logo, o Reis agora quer é festança depois do divórcio e o Fonseca ainda ficou a fazer contas de cabeça. Já sabes como ele é para gastar dinheiro.
- Eu não vou para o Brasil e ponto final! - vociferou Luís que já estava vermelho de raiva.
- Méne, vê lá se te acalmas! Já ouviste falar em Xanax? Logo à noite conversamos sobre isso. E depois do jantar, o que fazemos?
- Sei lá...talvez um strip-tease no Tamila. Já estou farto de rodar Lisboa inteira a fazer figuras tristes convosco.
- Boa ideia.
- Onde é que é mesmo o jantar? Apaguei o mail do Reis sem querer e esqueci-me do nome do restaurante.
- Na Berlenga. Fica na Baixa, pertinho da igreja de São Domingos.
- Certo. Acho que consigo encontrar. Vejam lá se não se atrasam muito como já é hábito. E esquece essas férias no Brasil, ok?
- Vai-te lixar. Mais tarde damos-te na cabeça.
- Brasil nunca! - gritou Luís, mas o Ferreira já tinha desligado para o provocar.

O Ferreira vivera alguns anos no Brasil, entretanto regressara a Portugal, mas mantinha alguns negócios do outro lado do Atlântico que implicavam viagens regulares. Luís já receava que mais tarde ou mais cedo, o amigo tentasse arrastar o grupo para umas férias nos trópicos. Ele já jurara a si mesmo que seria país onde nunca pisaria, pois tinha uma antipatia congénita em relação ao Brasil. Sabia antecipadamente que a maioria do grupo já deveria estar excitada com a prespectiva de uns dias cheios de sol, praia, bebedeiras e engates de ocasião. O jantar daquela noite prometia complicações para o seu lado.

Restaurante A Berlenga - Lisboa, 22:55h
O jantar estava animado, a comida estava óptima e o Reis em estado eufórico. Os amigos sentiam-se felizes ao ver o seu parceiro alegre com a liberdade recém conquistada. O Luís era o que se mantinha mais silencioso. Tivera um dia cansativo no trabalho e receava o momento em que as férias no Brasil viessem à tona nas conversas do grupo. Enquanto Luís pensava sobre isto, os empregados colocam os cafés e as aguardentes velhas em cima da mesa e, o Ferreira aproveita o final da refeição para tomar a palvra.
- Atenção pessoal! Já estamos no final do jantar e ainda não falámos sobre as férias no Brasil. Eu tenho uns assuntos a tratar por lá no final do ano e gostaria que me acompanhassem para uns dias de borga. Podemos ficar no apartamento que costumo alugar quando vou a Natal. O que me dizem? - Ferreira ostentava um sorriso entusiasta enquanto vigiava Luís pelo canto do olho.
- Eu já te disse que alinho - respondeu prontamente o Lemos - a vida de vendedor de automóveis não está fácil, mas faz-se um esforço, nem que eu tenha que fazer um empréstimo. Eu quero é gajas!
- Bom...eu ainda não tenho bem a certeza - respondeu o Fonseca. Bem sei que nunca te visitei quando moravas em Natal, mas fica um pouco caro e tenho que dar uma boa desculpa à minha mulher para ir ao Brasil.
- Eu estou no ir! È já a seguir, mas é que é já a seguir! Agora depois do divórcio quero é curtir a vida. Bastaram-me quatro anos seguidos a passar férias na casa dos meus sogros no Algarve - disse o Reis.
- E tu, Luís? Podemos contar contigo? Não posso acreditar que nos vais fazer essa desfeita- inquiriu o Ferreira na direcção do Luís que se mantinha sorumbático.
- Vocês estão é todos malucos! - respondeu Luís, não conseguindo disfarçar a irritação. Eu não tenho vontade de ir ao Brasil e ainda por cima tenciono trocar de carro no final do ano. Até já tinha ligado ao Lemos para saber uns preços...
- Pá, não fica assim tão caro. Estás é com má vontade! - atirou o Ferreira, aumentando o volume de voz.
- Sinceramente não vejo qual é a pidada. E acham que vai ser fácil convencer a minha mulher? Quando regressámos de Espanha, ficou duas semanas sem me dirigir a palavra. Ferreira, eu até entendo que gostes do Brasil porque já viveste lá, tens negociatas em Natal mas não contes comigo para essa cena - afirmou com clareza.
- Hum...ainda bem que falaste das nossas férias em Espanha. Eu não alinhei prontamente dessa vez? Sabes que sou um nacionalista ferrenho e que os espanhóis me causam urticária. E daí? Desisti de ir com o pessoal? - o Ferreira não desarmava facilmente.
- Porra pá! Queres-me obrigar a fazer uma coisa que eu não quero? E neste momento estamos três contra dois, porque o Fonseca ainda não confirmou nada de concreto.

O Ferreira não gostava dos momentos de tensão, que por vezes surgiam no seio daquele grupo de amigos e constatou que a questão tinha de ser resolvida naquele momento.
- Caro Fonseca...como é que é? Ou sim ou sopas! Alinhas ou não? Deixa de ser forreta. Qual é o teu problema? Estás com medo da tua mulher? Tens pena de perder algum jogo do Sporting em Alvalade? - Ferreira disparava na direcção do amigo indeciso.
- Ok, eu vou! A minha mulher vai-me moer o juízo, mas faço-o em nome da nossa amizade e para manter a união do grupo - murmurou o Fonseca, enquanto fitava a chávena de café na sua frente.
- Estás a ver, Luís? Quatro contra um - chutou Ferreira de modo triunfal.
- Deixa-te de merdas. Vai ser porreiro. O Ferreira conhece bem aquilo, há gajas com fartura e tens de admitir que aqueles dias em Espanha não correram muito bem - afirmou o Reis em auxílio do Ferreira.
- Vocês são tramados...e para quando seria isso? - perguintou Luís vacilante.

O Ferreira piscou o olho de modo cúmplice e passou a explicar o plano que traçara com antecedência.
- Bom, eu tenho de ir a Natal de Novembro a Dezembro para fechar uns negócios que tenho em vista. Deste modo, seria óptimo irmos na primeira semana de Dezembro por vários motivos. Aqui já faz frio, o tempo por lá está esplêndido, é a semana do Carnatal e a cidade estpá cheia de gajas boas.
- Nem penses! - ripostou o Luís. Em Dezembro estarei sobrecarregado de trabalho e gosto de fazer as compras natalícias nas calmas. E combinar uma viagem com estes cromos com esta antecedência? Duvido que dê certo...
- Por mim qualquer data está boa - disse o Lemos.
- Realmente, não é um mês muito apropriado para tirar férias mas acho que uma semana apenas não irá fazer diferença - acrescentou o Fonseca.
- Luís, ouve bem o que te digo. Tiras duas semanas neste Verão para ires para a praia com a tua mulher e depois vens para o Brasil com o pessoal nos princípios de Dezembro. È apenas uma semana e lá no Instituto nem irão dar pela tua falta. Por outro lado, todos nós vamos tirar uma semana ou duas de férias no Verão para agradar às nossas parceiras. Senão habilitamo-nos a ter a fechadura de casa trocada quando viermos do Brasil - argumentava o Ferreira sorridente.
- Este gajo pensa em tudo. Ès do caraças! - zombou o Reis.
- Não restam dúvidas que és Touro como eu. A tua teimosia acabou por me convencer. Já sei que vou ter um resto de Dezembro sobrecarregado de trabalho e também terei que me esmerar com a prenda de Natal deste ano para a minha mulher - disse Luís já convencido pelos argumentos do parceiro.

A harmonia voltou a reinar na mesa. O Ferreira levantou-se e deu um forte abraço em Luís. Aproveitando o ambiente de fraternidade, O Fonseca propôs um brinde, erguendo o seu balão de aguardente velha.
- Um brinde ao grupo dos cinco cromos da bola! - gritou entusiasmado.
- Do tipo, um por todos e todos por um? - troçou o Lemos.
Ergueram-se das cadeiras e brindaram à sua longa amizade e fazendo votos que as férias em Natal fossem recheadas de aventuras.
- Vai ser curtir à grande! - exclamou o Ferreira.
- Ui, imagino as figuras de urso! Já faz parte do ritual - ironizou o Luís.
Após pagarem a conta, fizeram caminho rumo à Av. Duque de Loulé. A celebração da libertação do Reis das garras da soturna ex-mulher ainda não tinha terminado. Alguns meses depois iriam estar em paragens bem distantes...

Episódio 2 - Como sempre, ás quartas-feiras. Um desafio às bloggers femininas. Quem se oferece para escrever o contraponto, desta hisória na versão feminina das esposas, namoradas e derivados deste grupo de machistas? Seria uma forma original de criar uma narrativa cruzada, que fizesse os leitores saltar de página em página...

terça-feira, 6 de março de 2007

My name is Mor, Capitão-Mor!


José Vegar é escritor e jornalista, especialmente interessado nos casos de polícia, de corrupção, de segurança. Sobre isso editou recentemente, em parceria com Maria José Morgado, O Inimigo Sem Rosto e, mais recentemente ainda, Serviços Secretos Portugueses - História e Poder da Espionagem Nacional.

«A segurança dos cidadãos e o poder do Estado dependem dos seus serviços secretos. Baseado numa investigação rigorosa com mais de uma década, este livro mostra-nos pela primeira vez a realidade oculta dos serviços secretos portugueses. As ameaças que investigam, os métodos de pesquisa e análise utilizados, o modo como se movimentam no terreno e com que riscos se defrontam os seus operacionais. A ameaça real do terrorismo islâmico no nosso país, o perigo causado pelo crime organizado global, o tráfico de armas e estupefacientes cada vez mais sofisticado, as redes de máfia chinesa impenetráveis, a manipulação do bilhete de identidade nacional por falsificadores de todo o mundo, ou a omnipresença da corrupção numa sociedade cada vez mais dominada por interesses. Serviços de Informações de Segurança, Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, Polícia Judiciária, Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, PSP e GNR são as principais forças que entram neste perigoso jogo e se confrontam na disputa do espaço das informações e do controlo de um território marcado pela indefinição de fronteiras e competências. Um mundo onde reina a conflituosidade e a falta de cooperação.»

Que tradição temos de espionagem? Algum agente, ao longo da História houve, assim particularmente carismático? Uma espécie de James Bond à portuguesa? Em tempos, li qualquer coisa sobre uma aparatosa operação ultra-secreta levada a cabo por agentes da SIED em Cabinda - Angola. Alguém tem algum conhecimento adicional sobre este universo nebuloso que queira partilhar? De qualquer modo, acredito que seja uma leitura bastante interessante e já tardava a aparição de alguma informação sobre os nossos serviços secretos. O futuro dos serviços de inteligência nacionais apresenta-se algo limitado. Acredito que num futuro próximo, essas actividades serão controladas na sua maioria pelas forças de segurança convencionais a nível interno e, pelos diplomatas a nível externo.
Por vezes, em tom de brincadeira, costumo dizer que sou agente secreto português destacado para os trópicos com a finalidade de salvar o Reino das forças do mal!

Serviços Secretos Portugueses: História e Poder da Espionagem Nacional - José Vegar - A Esfera dos Livros

segunda-feira, 5 de março de 2007

Ser estrangeiro

Acredito que até agora, tenho transmitido a ideia de um Brasil essencialmente pitoresco e turístico. Muitos de vocês devem-me imaginar com uma vida edílica, percorrendo praias ensolaradas, a repousar na sombra de um coqueiro, rodeado de belas mulheres e com um quotidiano tranquilo.
No entanto, a realidade é um pouco diferente e verifico que a minha adaptação aos trópicos ainda não foi totalmente bem sucedida a caminho de três anos.
A minha visão do Brasil era algo mitificada pelos meus conhecimentos de História, pela literatura e pelas minhas viagens turísticas. Desde logo, verifiquei que o meu estabelecimento por aqui seria árduo e necessitaria de esforços redobrados. O primeiro grande obstáculo, foi a obtenção do visto de residência por intermédio de investimento, que se arrastou por quase um ano, num verdadeiro embate com a complexa burocracia brasileira que não cede um milímetro. O segundo grande choque foi a nível cultural, educacional e de mentalidades. Eu costumo dizer que a única semelhança existente entre o Nordeste brasileiro e Portugal, é o uso de uma língua comum, embora com diferenças substanciais. Natal, foi até meados dos anos 90, uma pacata cidade do litoral nordestino que foi descoberta pela indústria do turismo. As mudanças nos hábitos locais foram algo bruscas e foi com alguma apreensão que verifiquei que uma grande parte da população não soube adaptar-se à nova realidade. Muitos deles revelam-se bastante adversos à introdução de novos elementos culturais e, por vezes, chegam a ser hostis em relação aos estrangeiros residentes. A própria palavra estrangeiro é pronunciada, algumas vezes, num tom claramente depreciativo.
Acredito que seja um sentimento de inferioridade cultural e económica que os faz agir deste modo absurdo.

A cidade cresceu bastante nestes últimos anos e consequentemente surgiram alguns males sociais, muitas vezes associados ao grande fluxo de turistas estrangeiros na região, sobretudo no que diz respeito ao tráfico de drogas, prostituição e aumento do custo de vida. Mesmo aqueles que trabalham directamente no sector turístico evidenciam algum preconceito e uma hospitalidade postiça. Normalmente, o estrangeiro é bem recebido enquanto turista que vem gastar divisas por aqui, mas quando tenta estabelecer a sua vida na região, o cenário muda um pouco de figura, esquecendo-se que muitas das vezes são esses próprios estrangeiros que através dos seus investimentos possibilitam a criação de empregos a nível local. Muitas coisas têm que ser obtidas por troca de favores ou dinheiro, onde a dualidade de critérios é evidente. Aliás, considero extremamente irritante o hábito local de "tirar vantagem", quando qualquer pessoa com quem se lida quer sempre lucrar alguma coisa no mínimo serviço que presta.

O mito da hospitalidade e alegria espontânea do brasileiro, deixa um pouco a desejar nesta região. Os nordestinos são bastante calados, desconfiados e sisudos e notoriamente racistas em relação a negros. Habitualmente, apenas se aproximam de estranhos por conveniência e a própria cidade funciona num estranho processo de conhecimentos pessoais, familiares e troca de favores, onde a corrupção é mais que evidente. Devo confessar, que neste período de tempo, fiz um círculo de amigos muito restrito porque o choque de mentalidades é bastante profundo. Grande parte dos nordestinos são profundamente ignorantes nem se esforçam por conhecer novas realidades, não possuem hábitos culturais, o machismo impera e bebem em demasia, tendo uma noção de lazer e divertimento algo bizarra, sob a minha perspectiva. Mais estranho ainda é que os hábitos mais pacatos e os bons modos europeus são facilmente cofundidos com arrogância e snobismo.

Outro facto que me deixou algo desgostoso, foi verificar que a propagada amizade luso-brasileira tem pouco entusiastas por aqui. Ao contrário de outras regiões do Brasil, que convivem com comunidades imigrantes há muitos anos, o Nordeste teve mais contacto directo com europeus muito recentemente. Noto que existe uma certa inveja do poder aquisitivo que possuímos, das mulheres que se aproximam com mais facilidade e por vezes ainda escuto piadas sobre os supostos abusos cometidos no período colonial português.
O nordestino é pouco solidário com os menos favorecidos e as classes mais abastadas desprezam profundamente a pobreza, revelando um egoísmo extremo. Ainda fico chocado com om tratamento que dão aos empregados domésticos e revelam-se completamente obcecados pelos bens materiais. Existe um verdadeiro culto da ostentação e torna-se extremamente monótono estabelecer um diálogo com essas pessoas. São capazes de ficar horas a fio a falar sobre a casa que compraram, do carro que tencionam comprar ou sobre a herança que receberam, tudo isto com cifões fornecidos ao pormenor. Creio que esta atitude é fruto de uma certa ignorância, de pessoas vazias que desconhecem que este tipo de diálogo é deselegante e enfadonho. E eu que pensava que os portugueses eram o supra-sumo do novo riquismo!

A sociedade local demonstra ser conservadora e fechada em relação às coisas mais insignificantes. Será difícil encontrar apreciadores de música estrangeira, cinéfilos, são incapazes de experimentar uma gastronomia diferente e ainda olham de viés para pessoas que apresentem um visual menos convencional.
Não quero que fiquem com a ideia de um discurso racista e xenófobo. Acho que seria altura de conhecerem o reverso da medalha de um europeu que escolhe viver no Nordeste brasileiro. È óbvio, que também conheci pessoas maravilhosas e educadas, mas é pena que sejam uma pequena minoria. As coisas boas vocês já sabem: um clima estupendo, lindas paisagens, um custo de vida acessível e a possibilidade de serem empreendedores com mais facilidade.
Contudo, costuma-se dizer que as vitórias são mais saborosas em terreno hostil. È isso que tenho tentado fazer, mostrando os meus princípios, educação e valor profissional. E acreditem que nunca imaginei que um português se pudesse sentir "tão estrangeiro" por terras de Vera Cruz. Tenho a sensação que vou desiludir bastante aqueles que ainda têm a ideia de um paraíso tropical deste lado do Atlântico e terei que aceitar comentários adversos dos leitores brasileiros. Acredito que sempre fiz um esforço para me adaptar a uma nova realidade, mas não me podem pedir para abdicar de ser eu próprio...

"Mas hoje, nesta primeira noite, não te quero falar disso. Queria apenas dar-te conta da primeira impressão que sente um inocente português que sai directamente do Chiado para uma aldeia metida dentro da selva e deixada à deriva no meio do Atlântico, à latitude do Equador: sente-se esmagado pela chuva, derretido pelo calor e pela humidade, comido vivo pélos mosquitos, espantado pelo medo.
E sinto, João, uma imensa e desmedida solidão."
in Equador, Miguel Sousa Tavares (Pag.147)

domingo, 4 de março de 2007

Até que enfim!

Consulado Honorário de Portugal em Natal
Cônsul: Francisco José Pereira Falcão Lamy
Endereço: Av. Rio Branco, nº 728 – 1º andar - Cidade Alta
Natal – RN
59025-002
Rio Grande do Norte
Telefone: 84.32150809
Fax: 84.32150819
E-mail: portugalemnatal@suissecolor.com.br
Horário: 2ª a 6ª, das 9:00 às 12:30

Menos mau! Agora já não temos que percorrer cerca de 300km até Recife para tratar de assuntos triviais. Ainda tive esperanças de vir a ser nomeado Cônsul Honorário aqui da região mas, como sempre, existe sempre alguém que se antecipa! :)

sexta-feira, 2 de março de 2007

O mito Dona Beija


Há dias atrás, fui desafiado pela minha blogamiga Rubina, para escrever um pouco sobre Dona Beija, um mito brasileiro que foi imortalizado por diversas obras literárias e uma telenovela em que a actriz Maitê Proença encarnava esta mulher de fibra. Uma história de uma mulher que estava à frente da sua época...

Com a inauguração do Complexo Turístico do Barreiro Araxá passou a ser conhecida nacionalmente. Desde então, o tipo de clima, o valor das suas águas e da lama termal foram associados ao mito Dona Beija, apelido de Anna Jacintha de São José.
Existe, de fato, uma documentação que comprova a existência de Dona Beija indicando que ela nasceu em Formiga, que viveu em Araxá e em Estrela do Sul, onde faleceu em 1873 deixando expressos em testamentos os últimos desejos.
A análise do contexto social da época, sob a ótica dos documentos, nos leva a considerar um factor preponderante: Dona Beija na condição de mulher, de mãe, com estado civil de solteira, moradora no arraial de São Domingos de Araxá nas primeiras décadas do século XIX, teria alcançado ma posição de destaque na sociedade local.

Casou suas filhas com membros de famílias influentes. Num tempo em que as mulheres eram habituadas a saírem de casa somente para assistirem à missa aos domingos (dentro da igreja agrupavam-se na nave, enquanto aos homens era concedido o privilégio de se concentrarem próximos ao altar), Anna Jacintha de São José parece ter sido uma mulher que exerceu a sua cidadania assumindo atitudes atribuídas exclusivamente ao sexo masculino.
A exemplo, algumas iniciativas como solicitar providências à administração pública ou tomar providências que seriam próprias desta, recorrer à justiça, comprar, vender ou construir imóveis, e ocupar uma posição político-partidária como a ocorrida por ocasião do Movimento Político de 1842. Comprovadamente Anna Jacintha de São José foi proprietária de escravos, muitos dos quais ainda baptizou. Foi proprietária de um sobrado situado na praça da antiga Matriz, fato que reforça sua posição social destacada pelo tipo de construção e pela legalização do imóvel na Vila.

Em meados do século XIX, Anna Jacintha de São José teria-se mudado para Bagagem(actual Estrela do Sul) por ocasião da corrida aos diamantes ali encontrados. A busca de novas perspectivas é procedente, bem como, o êxodo da população, já que naquele momento, Araxá atravessava uma fase de estagnação.
A vida de Dona Beija teria despertado atenção e encantamento a partir dos anos 30 e 40, como a construção do Grande Hotel e das Termas do Barreiro. Os trabalhos artísticos que enriquecem as paredes do Balneário mostram a figura dessa personagem e associam sua beleza ao valor das águas e da lama termal. Muitos escritores, araxaenses ou não, escreveram romances que tinham como tema central a vida de Dona Beija.

quinta-feira, 1 de março de 2007

O Crime do MSN


O paulista Carlos Eduardo Cabral, 18 anos, e seu primo, um adolescente de 17 anos, confessaram ontem envolvimento no assassinato da corretora de imóveis Célia Maria de Carvalho Damasceno, 43 anos, mas divergiram quanto à autoria do crime. Em depoimento à polícia, um atribui ao outro o espancamento e morte da vítima. Para a polícia, além dos dois, a namorada de Carlos Eduardo, uma adolescente de apenas 16 anos, também participou da morte. Ela se apresentou à polícia acompanhada do pai e, na DP, confessou que também bateu na vítima.
Segundo o subsecretário de Defesa Social, Maurílio Pinto de Medeiros, a corretora conheceu o adolescente de 17 anos pelo Messenger, um programa de bate-papo pela internet, há cerca de uma semana. Eles tiveram um encontro e marcaram para a noite de sábado, dia 24, um segundo encontro numa casa abandonada em Jenipapu.
A corretora foi ao encontro com o adolescente sem comunicar seu paradeiro. Sua família estranhou o desaparecimento e, desde o domingo, procurava por pistas de Célia Maria.

Segundo a polícia, a corretora foi estrangulada na noite de sábado e enterrada na madrugada de domingo. O delegado Maurílio Pinto concluiu que ela foi morta por Carlos Eduardo, a namorada dele de 16 anos e o adolescente de 17 anos, todos residentes no Parque das Dunas. “Todos eles estavam na cena do crime e têm participação. A menor, inclusive, ficou com o celular da vítima”, afirmou o delegado.
O motivo do crime ainda não está esclarecido, porque os acusados dão versões diferentes. O menor diz que o primo queria assaltar a vítima. Ele também revelou que a namorada do primo ficou com ciúmes de Célia Maria e, por isso, incentivou o assassinato e participou do estrangulamento. Carlos Eduardo, por sua vez, alega que o menor planejou o assalto que terminou em homicídio. Carlos Eduardo disse ainda que todos o três (ele isentou a namorada de culpa) estavam embriagados. A adolescente alega que a vítima foi morta para dar a senha do banco. “Eduardo chegou a tentar sacar dinheiro, mas não tinha saldo”, disse o delegado.

A polícia também confirmou que os três acusados participaram da ocultação do cadáver no quintal da casa. O corpo de Célia Maria só foi encontrado na noite de terça-feira, quatro horas depois do delegado Maurílio Pinto ter sido acionado para investigar o caso. “Tudo começou às 14 horas de terça-feira. A filha da vítima nos procurou com a cópia das mensagens entre a mãe e o adolescente. Eles falavam num encontro em Jenipabu. Aí descobrimos que uma pessoa havia ligado para o disque denuncia informando que um rapaz tinha enterrado uma mulher em Jenipabu”, explicou.
A filha da corretora marcou um encontro com o adolescente - que não a conhecia - e um policial da Subsecretaria de Defesa Social a acompanhou no carro para detê-lo. Com a localização do adolescente, os policiais civis, com o apoio da PM, chegaram ao primo dele, Carlos Eduardo, que mostrou o local onde o corpo foi enterrado. “A filha da vítima foi muito valente e corajosa. A participação dela foi decisiva para a elucidação do crime”, falou Maurílio Pinto.

“Eu acho que ela foi enterrada viva”

O adolescente de 17 anos, apreendido sob acusação de participação no assassinato, disse que viu a corretora Célia Maria ser assassinada, mas alegou que nada pôde fazer para impedir o crime.
Ele acredita que o primo dele, Carlos Eduardo, teve duas motivações para o assassinato: financeira, para roubar os pertences e sacar dinheiro da conta da vítima, e para mostrar a namorada que ela não precisava ter ciúmes de Célia Maria.
O adolescente também revelou que estava no começo de um “namoro secreto” com a vítima e não tinha interesse em assassiná-la. Ele revelou que tinha sido detido há alguns meses armado com um revólver. O depoimento dele é conflitante com a versão de Carlos Eduardo, que atribui ao menor a autoria do homicídio.


TRIBUNA DO NORTE: Como você conheceu Célia Maria?
Adolescente: Foi pelo Messenger. Eu entrei num bate papo e a encontrei

Esse era seu primeiro encontro com ela?
Adolescente: Não foi o segundo

Por que ela foi morta?
Adolescente: Eu não a matei

Quem matou Célia Maria?
Ele (Carlos Eduardo, primo do adolescente) e namorada dele (uma adolescente de 16 anos) mataram ela na minha frente. Ele (Carlos Eduardo) disse que ia me matar também. Eu não pude fazer nada. Fiquei calado, vendo

Por que você não pôde fazer nada?
Adolescente: Ele (Carlos) é violento. O cara deu uma facada na boca da irmã, bateu no pai dele e já quebrou tudo dentro de casa. Ele não é flor que se cheire. O cara fica doido quando bebe. Se ele fez isso com a irmã, imagine comigo

E por que Carlos Eduardo matou a corretora?
Adolescente: Porque a namorada dele ficou com ciúmes dela. Ela também matou. Querem jogar isso para mim, porque sou de menor

Foi só isso? Seu primo diz que foi você quem matou.
Adolescente: Ele quer jogar para cima de mim porque sou de menor. Ele deu um muro nela e depois ficou doido. A menina segurou ela pelo pescoço e ele ficou batendo. A idéia de matar foi também dela. Eles ficaram batendo, depois ele amordaçou ela com a camisa. Ele disse: se você falar também morre


A polícia está afirmando que seu primo queria assaltá-la. É verdade?

Adolescente: Ele ficou batendo nela e pedindo a senha do cartão. Ele dava chute, murro e a menina segurava. Ela não lembrava das coisas e ele batia mais. Ele bateu de “chapa” nela (com o facão)

Quem decidiu enterrá-la?
Adolescente: Foi eles (SIC). Eu acho que ela foi enterrada viva

Por que?
Adolescente: Porque ela tava quase morrendo. Aí ele pulou no pescoço dela

Você está arrependido?
Sim! Muito

“Eu também bati, mas foi uma porrada”

O paulista Carlos Eduardo Cabral, mais conhecido como “Gugu”, 18 anos, é apontado pela polícia como um dos autores do assassinato da corretora. Ele respondeu a processo em São Paulo por tráfico de drogas e há um ano mora em Natal, onde trabalha com o pai dirigindo cegonhas (carretas usadas para o transporte de carros).

O acusado atribui ao primo menor de idade a autoria do crime, mas confessa que chegou a espancar a vítima e a ocultar o corpo. Ele também nega que sua namorada, de apenas 16 anos, tenha participado do homicídio.

TRIBUNA DO NORTE: Porque você matou Célia Maria?
Carlos Eduardo: Não fui eu

Seu primo diz que foi você e sua namorada
CE: Ele (o adolescente de 17 anos) está mentindo. Ele queria roubá-la. Ele disse que ela tinha dinheiro. Foi ele quem premeditou tudo.

Então, qual a sua participação no crime?CE: Ele disse que queria o dinheiro. Eu disse que ia junto.

Que dinheiro?
CE: Quatro mil. Ele disse que ela ia comprar um carro.

Era um roubo?
CE: Era

E por que vocês a mataram?
CE: A gente foi dormir e ele colocou um pano na boca dela. Ele começou a bater nela, deixou o olho roxo. Eu também bati, mas foi uma porrada. O resto foi ele. Foi ele quem a enforcou

Por que?
CE: Não sei. Ele queria que ela desse o dinheiro

Quem teve a idéia de ocultar o corpo?
CE: Foi ele

Ele cavou e jogou o corpo sozinho?
CE: Ele cavou o buraco sozinho. Depois eu e ele colocamos ela

E depois?
CE: Eu fui embora a pé

Seu primo diz que sua namorada também participou do crime. É verdade?
CE: Não. Foi ele sozinho

Você conhecia a vítima?
CE: Não.

E seu primo, como ele conheceu a vítima?
CE: Não sei. Parece que foi no carnaval da Redinha

E por que ele a matou?
CE: Não sei. Ele queria o dinheiro e começou a bater nela. Ele amarrou ela e começou a bater.

Você não o impediu?
CE: ... (não respondeu)

Você está arrependido?
CE: ...(não respondeu)

Sente remorso?
CE: Sim senhor

Veja a conversa entre o adolescente e Célia Maria

A filha da corretora assassinada recuperou no computador a conversa no Messenger entre sua mãe e o acusado. Os trechos provam que o adolescente convidou a vítima para o local do crime, uma casa em Genipabu. No dia do assassinato, vítima e acusado mantiveram duas conversas, uma de madrugada e outra à tarde. Abaixo, alguns trechos do diálogo divulgado pela polícia.

Trecho da conversa no Messenger entre vítima e adolescente, ocorrida na madrugada de sábado, dia 24, cerca de 23 horas antes do crime.

Célia Maria - Quem vai estar na casa de Genipabu?

Adolescente - Ninguém porque? (a interrogação é vermelha com a fonte estilizada representando sangue escorrendo)

CM - Não vai ter nenhum problema?
A - A gente vai dar um rolé na praia e volta!

CM - Você tem a chave?
A - Não precisa de chave

CM - Como assim?
A - e aberto lá!
A - Mas ninguém entra! Só a gente!

CM - A sei
A - Só nós dois!

CM - Ok.

Trecho da última conversa no Messenger entre vítima e adolescente, ocorrida cerca de oito horas antes do assassinato.
Célia Maria - Acabei de chegar em casa
Adolescente - Ótimo!
A - To tc (teclando) com meu irmão hacker!

CM - Ainda vou ter que mostrar um apartamento a um cliente
CM - Agora, às 16h30
CM - Me ligue às 5 horas

A - Combinado!

CM - De onde eu estiver eu vou
CM - Aí nos encontramos no posto (Posto Jenipabu, perto da casa onde ocorreu o crime)

Adolescente - Então tá ótimo! Combinadíssimo!

CM - Ou no terminal de ônibus
A - Pode ser tb (também)!

CM - Terminal de ônibus
A - Demoro!

CM - Tchau
CM - Tomar banho
CM - Bjo (beijo)

A - Outro.

Adolescente se apresenta com o pai

A adolescente de 16 anos acusada de envolvimento na morte da corretora se apresentou na manhã de ontem ao delegado Maurílio Pinto e, depois de negar envolvimento, disse aos policiais que chegou a bater na vítima.

A jovem, no entanto, ressaltou que não matou a corretora. “O menor diz que o crime foi praticado por Eduardo e a namorada. Eduardo diz que ela não tem nada com o crime. Mas a adolescente confirma que chegou a puxar a roupa da vítima durante a briga. Ela disse que bateu na cabeça da mulher para ela dar a senha do banco. Por isso tudo, comunicamos o caso ao juiz e vamos apresentar a adolescente ao promotor da Infância e da Juventude”, disse Maurílio Pinto.

Corretora foi torturada e depois estrangulada

Segundo a polícia, a corretora Célia Maria foi torturada para fornecer aos bandidos a senha do banco. Ela foi amordaçada com uma camisa, teve as mãos amarradas para trás com o cordão de uma bermuda e ainda teve as pernas amarradas com uma corda. Ela foi espancada com o lado cego da lâmina de um facão e, quando já estava sem forças, foi estrangulada.
Para a polícia, o crime teve requintes de crueldade, sobretudo porque desde o momento que foi rendida, a vítima não apresentou reação. “Ela foi muito espancada. Eduardo diz que eles deram murros, chutes e pauladas”, contou o delegado. Depois de morta, Célia Maria teve o corpo ocultado numa cova rasa.
Célia foi assassinada em uma casa de primeiro andar abandonada, na estrada de Jenipabu, próxima ao posto Jenipabu. A área é habitada. De um lado da casa, tem uma residência colada muro com muro, e do outro funciona um barzinho. Os vizinhos contaram, no entanto, que na noite do assassinato, domingo, não ouviram nem viram nada estranho. Antes, porém, os moradores próximos disseram ter avistado, na casa, Célia na companhia de Carlos e do primo. Também disseram que Carlos era o caseiro do imóvel, que foi comprado há dois anos por uma pessoa que seria seu tio e que mora em São Paulo mas que nunca chegou a investir no local. Segundo os vizinhos, Carlos costumava usar a casa para fazer festinhas regadas à bebida nas quais reunia moças e rapazes. No carnaval, ele foi visto com uma turma farreando lá.

Psicanalista alerta para os riscos da internet

O Orkut e o MSN, sites em que Célia Maria de Carvalho navegava com freqüência para conhecer pessoas, são uma febre. Gente de praticamente todas as idades e de ambos os sexos passam horas neles em busca de relacionamentos virtuais, que funcionam como um excelente remédio para a solidão. E muitos acabam levando o relacionamento do mundo digital para o real, como fez a corretora de imóveis.

A psicanalista Ruth Dantas não entrou no caso particular de Célia, até porque não sabe nada sobre a vida da corretora e da família, mas a recomendação de Ruth serve para todos. Ela diz que é preciso um cuidado redobrado antes de dar um passo à frente.

“Na internet, corre-se um risco muito maior porque no contato real a pessoa vê a outra, suas feições, gestos, jeito. Há algumas pistas para saber quem o outro é. Claro que se pode mentir, enganar, mas na internet é ainda mais fácil”, fala Ruth, lembrando que na net existem muitas pessoas usando nomes e perfis falsos (são os populares “fakes”).

A psicóloga entende que, no geral, os relacionamentos pela internet são a marca dos tempos atuais, em que tudo é descartável. “As pessoas se encontram e depois somem. Fica-se tentando encontrar alguém sem que se precise se comprometer seriamente”, diz a psicanalista. Há, no entanto, casos bem sucedidos de relacionamentos que começam na rede mundial de computadores. Mas o exemplo que deve ser levado em consideração é o e Célia.

A corretora era divorciada, mas morava com o ex-marido. Ela deixou dois filhos, um rapaz de 17 e uma moça de 20 anos.

Artigo de Augusto Bezerra in Tribuna do Norte (01/03/2007)

Um alerta muito sério, para a forma leviana como que muitas vezes expomos a nossa vida privada na internet e nos relacionamos com as nossas amizades "virtuais"...

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

A Noitada - Episódio 4



Seca. Uma primeira olhadela, bastara para perceber porque diabo os porteiros só lhes tinham pedido cinco euros: eram os primeiros clientes da noite. Quem os mandara acreditar no Lemos quando ele garantira que hoje era ladies night? "Ainda é cedo. Vão ver que isto já fica à maneira", chilreava ele. "Se este gajo não se cala, estrangulo-o", pensaram os outros em uníssono.

Turistas! Se calhar, Deus até existia! E era homem pela certa. Em resposta às suas preces colectivas, tinha acabado de chegar um bando de turistas-fêmeas. Meia dúzia, todas com montes de pele recém-tostada à mostra. E ram da variedade civilizada, sem pêlos debaixo dos braços. Notaram que eram inglesas e todos sabiam arranhar um pouco da língua de Sua Majestade.
O grupo deles mudou de mesa num ápice. Sem se mexer só ficou o casalinho Reis. Ela estava mesmo com ar de quem preparava um relatório para as amigas. "Que se lixe", pensou o Luís. Sempre podia dizer que estava bêbado. O que até nem andava já muito longe da verdade.

Universitários. Estavam eles na fase dos olhares sugestivos e dos sorrisinhos à distância, quando a coisa se degradou. Entrara um grupo de estudantes. O folclores era o do costume: capas sebentas e guitarrinhas à tiracolo. Feitos abutres, plantaram-se ao lado delas e desataram a cantar. Como é que um gajo concorre com aquilo? A única coisa digna de nota que o Fonseca sabia fazer era tocar com a língua na ponta do nariz. Venham daí mais umas cervejas, e esperemos que eles sejam todos gays...

Vinolência. O Luís estava farto de cerveja. Num momoneto de coragem, sacou do multibanco e pediu um whisky. Já que não ia facturar, ao menos afogava as mágoas em álcool de qualidade. O Ferreira fazia-lhe companhia; como de costume, deserto para andar à pancada. Mal passava perto dos estudantes, lá saía mais um encontrão. Ainda eram sequelas dos tempos do râguebi universitário!

Xenofobia. Os parvos das capas negras tinham-se sentado na mesa delas. Os mais afoitos estavam já de bracinho em cima das parceiras de ocasião. O Luís encontrava-se escandalizado. As estrangeiras são todas umas promíscuas!

Zebras. A última recordação que o Luís guardou daquela noite foi uma parede decorada num lindo padrão zebrado.
A andar à roda! Depois, vomitou-lhe abundantemente em cima...

FIM

A última adivinha. Que discoteca é esta? A primeira fotografia é apenas para vos despistar...
Os que quiserem lêr esta blosérie na íntegra, terão apenas que clicar no marcador.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Javali à Obelix


Numa época em que as carnes vendidas nos supermercados possuem uma qualidade cada vez mais duvidosa, apresento-vos uma receita de caça, de cujas carnes sempre fui grande apreciador. Trata-se de um prato robusto e de confecção mais complexa, mas com o requinte necessário para receber um grupo de amigos em casa, numa noite de Inverno animada por boas conversas instigadas pelo calor de uma lareira. No entanto,não será muito simples encontrarem peças de caça à venda. Quando pretendia cozinhar alguma peça de caça, dirigia-me normalmente à Charcutaria Tábuas (Rua Barros Queiroz) na baixa lisboeta, onde as peças são de qualidade e sem preços proibitivos.

Ingredientes:
2 alhos franceses
Azeite q.b.
Batata q.b.
0,5 garrafa de espumante
1 ramo de estragão
6kg de javali
Legumes q.b.
10 folhas de louro
Manteiga q.b.
Sal q.b.
2 ramos de salsa
1 ramo de tomilho
2 garrafas de vinho tinto
Tempo de Preparo: 6 horas

Preparação:
São necessários dois dias de preparação, caso o javali seja fresco. No caso da peça ser congelada, juntem mais um dia para o seu descongelamento. Numa panela grande coloquem as peças limpas e partidas (lombo, perna e costoletas) a marinar em vinho tinto de boa qualidade misturado com vinho espumante temperado com sal, bastante salsa picada, cebolinha, louro, estragão, tomilho e alho francês picados. Deixem marinar de um dia para o outro, virando as peças mais ou menos de 3 em 3 horas. Retirem do vinho (reservando o vinho - coado) e untem todas as peças com manteiga e azeite. Levem ao forno num pirex grande, a temperatura baixa-média (pré-aquecido) durante 6 horas. Durante as 3 primeiras horas o javali deve assar totalmente coberto de folha de alumínio, para não esturricar. Depois, retirem o papel e, de tempos a tempos, reguem a carne com um pouco de vinho marinado que reservaram. Sirvam acompanhado de batatas assadas, arroz e legumes cozidos. O vinho da marinada deve servir como molho de acompanhamento.
Vinho aconselhado: Terra d`Ossa (Tinto) - Redondo/Alentejo

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Mário Soares em Natal


O ex-chefe de Estado português Mário Soares estará em Natal, no Rio Grande do Norte, em Março, numa visita cuja agenda já tem dois compromissos: a Aula Magna da Universidade Potiguar (UNP) e uma conferência na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.
Mário Soares pertence à Academia de Letras de Portugal e é membro honorário da Academia Brasileira de Letras. O convite ao antigo presidente português partiu do senador Garibaldi Alves Filho, que recentemente esteve em Lisboa e foi recebido por Mário Soares.
Segundo o jornal "Tribuna do Norte", é possível que José Aparecido de Oliveira - ex-ministro da Cultura do Brasil (no governo José Sarney) e amigo pessoal de Soares - se encontre com o ex-presidente português em Natal, sendo também possível a vinda de José Sarney, cujo mandato na presidência do Brasil coincidiu com o mandato presidencial de Mário Soares em Portugal.
Mário Soares foi, no ano passado, a terceira personalidade a receber o prémio Dário de Moreira Castro Alves, atribuído anualmente pelo Clube de Empresários do Brasil a personalidades que se destaquem nas relações luso-brasileiras. A entrega do prémio foi feita em Maio, em Lisboa.

Estilo americano


Talvez por influência dos filmes americanos, gostei sempre muito do Jeep Wrangler, apesar da sua presença discreta no mercado português. Ele representa as origens do original Jeep Willys, sendo o único 4x4 puro e duro da marca. Pena que a sua motorização a gasolina seja incomportável para o mercado nacional.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

A noite do cinema



Esta noite, realiza-se mais uma entrega dos Òscares de Hollywood, os troféus mais cobiçados pelos profissionais da indústria cinematográfica. A presente edição apresenta um bom lote de filmes e a luta adivinha-se renhida nas principais categorias. Devido a um fuso horário mais favorável, posso assistir à cerimónia num horário razoável e espero que o serão reserve algumas surpresas agradáveis. Mais uma vez, lamento que nenhum filme português tenha sido nomeado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Será uma utopia?

Óscares 2007 - Lista de Nomeações:

Melhor Filme
Babel
Entre Inimigos (The Departed)
Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima)
Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos (Little Miss Sunshine)
A Raínha (The Queen)

Melhor Realizador
Alejandro González Iñárritu - Babel
Martin Scorsese - Entre Inimigos (The Departed)
Clint Eastwood - Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima)
Stephen Frears - A Rainha (The Queen)
Paul Greengrass - Voo 93 (United 93)

Melhor Actor Principal
Leonardo DiCaprio -Diamante de Sangue (Blood Diamond)
Ryan Gosling - Half Nelson
Peter O'Toole - Venus
Will Smith - Em Busca da Felicidade (The Pursuit of Happyness)
Forest Whitaker - O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland)

Melhor Actor Secundário
Alan Arkin - Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos (Little Miss Sunshine)
Jackie Earle Haley - Pecados Íntimos (Little Children)
Djimon Hounsou - Diamante de Sangue (Blood Diamond)
Eddie Murphy - Dreamgirls
Mark Wahlberg - Entre Inimigos (The Departed)

Melhor Actriz
Penélope Cruz - Voltar (Volver)
Judi Dench - Diário de Um Escândalo (Notes on a Scandal)
Meryl Streep - O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada)
Helen Mirren - A Rainha (The Queen)
Kate Winslet - Pecados Íntimos (Little Children)

Melhor Actriz Secundária
Adriana Barraza - Babel
Cate Blanchett - Diário de Um Escândalo (Notes on a Scandal)
Abigail Breslin - Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos (Little Miss Sunshine)
Jennifer Hudson - Dreamgirls
Rinko Kikuchi - Babel

Melhor Filme Estrangeiro
After the Wedding (Dinamarca)
Days of Glory (Indigènes) (Argélia)
As Vidas dos Outros (The Lives of Others) (Alemanha)
O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth) (México)
Water (Canadá)

Melhor Argumento Adaptado
Borat (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan) - Sacha Baron Cohen & Anthony Hines & Peter Baynham & Dan Mazer & Todd Phillips
Os Filhos do Homem (Children of Men) - Alfonso Cuarón & Timothy J. Sexton e David Arata e Mark Fergus & Hawk Ostby
The Departed - Entre Inimigos (The Departed) - William Monahan
Pecados Íntimos (Little Children) - Todd Field & Tom Perrotta
Diário de Um Escândalo (Notes on a Scandal) - Patrick Marber

Melhor Argumento Original
Babel - Guillermo Arriaga
Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima) - Iris Yamashita & Paul Haggis
Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos (Little Miss Sunshine) - Michael Arndt
O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth)- Guillermo del Toro
A Rainha (The Queen) - Peter Morgan

Melhor Filme de Animação«Carros» («Cars») - John Lasseter
«Happy Feet» - George Miller
«Monster House» - Gil Kenan

Melhor Direcção Artística
Dreamgirls - John Myhre, Nancy Haigh
O Bom Pastor (The Good Shepherd) - Jeannine Oppewall, Gretchen Rau e Leslie E. Rollins
O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth)- Eugenio Caballero, Pilar Revuelta
Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest) - Rick Heinrichs, Cheryl A. Carasik
O Terceiro Passo(The Prestige) - Nathan Crowley, Julie Ochipinti

Melhor Cinematografia
A Dália Negra (The Black Dahlia) - Vilmos Zsigmond
Os Filhos do Homem (Children of Men) - Emmanuel Lubezki
O Ilusionista (The Illusionist)- Dick Pope
O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth) - Guillermo Navarro
O Terceiro Passo(The Prestige) - Wally Pfister

Melhor Guarda-Roupa
A Maldição da Flor Dourada (Curse of the Golden Flower) - Yee Chung Man
O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada) - Patricia Field
Dreamgirls - Sharen Davis
Marie Antoinette - Milena Canonero
A Rainha (The Queen) - Consolata Boyle

Melhor Documentário
Deliver Us from Evil - Amy Berg e Frank Donner
Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth)- Davis Guggenheim
Iraq in Fragments - James Longley e John Sinno
Jesus Camp - Heidi Ewing e Rachel Grady
My Country, My Country - Laura Poitras e Jocelyn Glatzer

Melhor Montagem
Babel - Stephen Mirrione e Douglas Crise
Diamante de Sangue (Blood Diamond) - Steven Rosenblum
Os Filhos do Homem (Children of Men)- Alex Rodríguez e Alfonso Cuarón
The Departed - Entre Inimigos (The Departed) - Thelma Schoonmaker
Voo 93 (United 93) - Clare Douglas, Christopher Rouse e Richard Pearson

Melhor Caracterização
Apocalypto - Aldo Signoretti e Vittorio Sodano
Click - Kazuhiro Tsuji e Bill Corso
O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth) - David Marti e Montse Ribe

Melhor Banda Sonora Original
Babel - Gustavo Santaolalla
O Bom Alemão (The Good German) - Thomas Newman
Diário de Um Escândalo (Notes on a Scandal) - Philip Glass
O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth)- Javier Navarrete
A Rainha (The Queen) - Alexandre Desplat

Melhor Canção Original
I Need to Wake Up - Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth), Música e letra de Melissa Etheridge
Listen - Dreamgirls, Música de Henry Krieger e Scott Cutler. Letra de Anne Preven
Love You I Do - Dreamgirls, Música de Henry Krieger. Letra de Siedah Garrett
Our Town - Carros - Música e letra de Randy Newman
Patience - Dreamgirls, Música de Henry Krieger. Letra de Willie Reale

Melhor Curta-Metragem
Binta and the Great Idea (Binta Y La Gran Idea) - Javier Fesser e Luis Manso
Eramos Pocos (One Too Many) - Borja Cobeaga
Helmer & Son - Soren Pilmark e Kim Magnusson
The Saviour - Peter Templeman e Stuart Parkyn
West Bank Story - Ari Sandel

Melhores Efeitos Sonoros
Apocalypto - Kevin O'Connell, Greg P. Russell e Fernando Camara
Diamante de Sangue (Blood Diamond) - Andy Nelson, Anna Behlmer e Ivan Sharrock
Dreamgirls - Michael Minkler, Bob Beemer e Willie Burton
As Bandeiras dos Nossos Pais (Flags of Our Fathers) - John Reitz, Dave Campbell, Gregg Rudloff e Walt Martin
Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest) - Paul Massey, Christopher Boyes and Lee Orloff

Melhores Efeitos Visuais
Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest) - John Knoll, Hal Hickel, Charles Gibson e Allen Hall
Poseidon - Boyd Shermis, Kim Libreri, Chaz Jarrett e John Frazier
Super-Homem: O Regresso (Superman Returns) - Mark Stetson, Neil Corbould, Richard R. Hoover e Jon Thum

Oscar Honorário: Ennio Morricone
via TSF online

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Ronda Nocturna - Carnaval 2007


Querem fazer umas palhaçadas comigo?


Onde está o meu Mickey Mouse?


Eis a prova que o Capitão-Mor não é homofóbico! Posei sem preconceitos com alguns travestis numa das festas mais animadas da cidade. Mas reparem que não estava muito descontraído. LOL!!!!



Esta engana bem! :)


A misantropa enjaulada!


A festa tem mais piada quando se está bem acompanhado...

Lois, ainda continuas a preferir as ibéricas?


O Brasil consegue causar sérias deformações mentais!


Tony, não tinhas ficado de passar por aqui no Carnaval?


A agitação dos camarotes.


Fim de festa!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Quando os euros não pagam as expectativas



"Marco, Paula, Margarida, Inês e Bruno não constam do número de licenciados inscritos nos centros de emprego. Eram 42 mil em 2005. Marco, Paula, Margarida Inês e Bruno têm entre 23 e 30 anos, têm uma licenciatura, têm um emprego, mas nenhum dos cinco exerce a função para a qual recebeu formação. Rima. Rima também com frustração e uma lista de sacrifícios para que ao fim do mês sobre alguma coisa e não falte estímulo para continuar à procura de um lugar compatível e que alguns, apesar de tudo, acham que o mercado ainda tem para lhes dar.
Escusado será dizer que, dos cinco, nenhum tem é independência. Essa não se compra com 300, 400, 500 ou mesmo 600 euros, sobretudo quando se vive em Lisboa e se quer comprar casa e carro. Nenhum conseguiu. Apesar do curso superior, o tal canudo que, como refere Inês, "os governantes e os pais" lhes vendem como garante de um futuro mais digno.
Marco, Paula, Margarida, Inês e Bruno são uma pequena amostra num imenso universo que falta quantificar. Sentem-se rejeitados por um mercado que não os aceita como trabalhadores, mas que os aliciou com o eldorado que poderia representar uma licenciatura. Licenciaram-se e agora trabalham como caixa em supermercado, vendem material de escritório, desgravam entrevistas que outros fazem, trocam o dinheiro que outros têm. Houve quem no meio de tudo isso, desta lengalenga que é o entra e sai em trabalhos precários, descobrisse outros gostos, outras motivações, mas as habilitações continuam a ser a mais para o menos que levam para casa ao fim do mês.
Marco, Paula, Margarida, Inês e Bruno são um retrato. Pessoal. Irrepetível por si. Mas têm reflectidas neles as frustrações de outros.


Margarida Ferra
Transcrição de entrevistas
300 euros
29 anos
Licenciatura em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa


Quando tenta arranjar um termo que defina o trabalho que faz, Margarida Ferra, 29 anos, recorre à expressão de um amigo. "Ele diz que sou uma mulher-a-dias do texto." Complexo de inferioridade? Nenhum. "Não encontro melhor definição", atira, no sorrir aberto de quem se incomoda pouco em limpar impurezas e repetições, em lidar com as palavras dos textos dos outros que sabe não serem, muitas vezes, as que usaria se a assinatura fosse sua. Mas não é. Ela ouve e transcreve. Tal qual. Expressão a expressão. Excepto quando lhe dão liberdade para fazer alguma tarefa de edição e livrar-se da "palha", substantivo que nestes domínios designa o que não acrescenta nada à mensagem. Mas Margarida acaba por confessar: "Estou nos bastidores, mas gostava de estar um bocadinho mais à frente..."
Margarida desgrava entrevistas, depoimentos, dissertações. Ganha à hora. Uma hora de gravação equivale a... pouco. Defina-se, então, "pouco": em 2005 ganhou cerca de 400 euros por mês, em 2006, a média, somados todos os recibos verdes que passou, não foi além dos 300. Não se queixa. "Este ano está a aparecer mais trabalho." Talvez chegue aos 400 euros novamente. Confessa que precisaria de mais 200 para conseguir "comprar umas roupas, ir mais vezes jantar...". O seu orçamento dá uma pequena ajuda em casa. Com o grosso das despesas a cargo do marido, ela paga à empregada para lhe "organizar a casa uma vez por semana", paga para lhe passarem a roupa a ferro, paga a conta do telemóvel e a Segurança Social. O que sobra? Nada. "É incrível ter de pagar 150 euros por mês por ter facturado em 2004 o equivalente a nove salários mínimos. É um convite a não fazer nada", indigna-se.
Como trabalha em casa, não gasta em transportes e tem tempo para os dois filhos. Bebés de dois anos e quatro meses, respectivamente. A Alice e o Pedro, que dormem a sesta numa tarde de chuva em que não se houve um ruído no apartamento onde vivem, num bairro popular de Lisboa.
Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, Margarida, na hora de escolher uma especialização, soube o que não queria. E não queria a vertente "jornalismo", sentia que não tinha "bagagem" para se aventurar no cinema, e a televisão não era um projecto que encarasse. Optou por "comunicação e cultura", coisa vaga, concede, mas que lhe permitia não se afastar do que gostava. Os livros.
E enquanto fazia o curso, foi fazendo outras coisas. Trabalhou no IPJ, escreveu para várias publicações, como o Jornal de Letras ou a revista dos Artistas Unidos, fez revisão de texto. Ganhava à peça. Fixo, só quando foi para uma galeria de arte ou esteve na Clepsidra, livraria especializada em poesia, com porta aberta em Massamá. Era lá que Margarida fazia o que mais gosta. Vender livros, aconselhar, falar de livros mesmo com quem nada sabe deles. Mais tarde haveria de ir para a Barata, de Campo de Ourique, fazer o mesmo até que se cumpriu o princípio do seu grande projecto: "Ser mãe de dois filhos antes dos 30." No início de 2005 nascia Alice. No Verão de 2006 haveria de nascer Pedro.
O projecto cumpriu-se. Além de lidar com as palavras dos outros, Margarida gostava agora de apostar nas dela. Até porque de tanto desgravar entrevistas foi aprendendo a técnica de as fazer. E gostava de tentar a reportagem. Escrever em casa, por agora, enquanto Pedro faz a sesta e Alice fica no infantário... Ah!, e se pudesse, fazia uma pós-graduação em Letras e um curso de espanhol, porque descobriu que gosta de traduzir, e...

Marco Afonso
Funcionário de uma casa de câmbios
650 euros
27 anos
Licenciatura em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE, terminada em 2006


O tempo está contado. Uma hora e 15 minutos de bocejo em que Marco funciona como um autómato. Gestos mecanizados que o levam de um barco a um autocarro e, finalmente, a um comboio. Começa no Barreiro, acaba no Cacém. Doze horas depois, regressa. O ciclo repete-se. Mais uma hora e 15 minutos de sonolência para um percurso inverso em que a música do leitor de MP3 sempre ajuda a matar o que resta de um dia que começou bem cedo, antes das sete da manhã.
Feitas as contas, são doze horas diárias de trabalho numa casa de câmbios - horário sem pausa -, a que há a somar mais duas horas e meia de transportes. Prosseguindo nas contas, 14 horas e meia resultam em 650 euros no fim do mês, mais prémio menos prémio, e descontados os impostos.
Pouco dinheiro? Demasiado tempo? Tudo depende das expectativas. As de Marco Afonso, 27 anos, eram maiores. Não tanto em relação ao salário, nem ao dispêndio de um tempo que dá para pouco mais do que cabecear junto às várias janelas que ligam um su-búrbio a outro e sem reter vistas da cidade. "Já tentei ler, mas não há concentração possível. O cansaço vence-me", desabafa. Sobram-lhe as folgas para fazer o que gosta. "Dois dias de trabalho dão direito a dois dias livres", diz, com o sorriso da "compensação possível" para quem queria era poder ter uma palavra a dizer em matéria de "programação cultural".
Licenciado em História Moderna e Contemporânea pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), Marco Afonso "queria mesmo era trabalhar numa autarquia", confessa, manuseando um cigarro que não acende, mas do qual não retira o olhar. É refúgio para uma frustração que o riso vai temperando. "Mandei uns 15 currículos para outras tantas autarquias e tive apenas duas respostas." Um, não obrigado, dito duas vezes. Pouco eco para quem esperava pelo menos a convocação para uma conversa. Não houve. E um amigo arranjou-lhe um emprego para ganhar algum dinheiro, poder sustentar-se. Até...
É que Marco Afonso teve 13 mensagens sem feedback e duas respostas negativas, mas isso não chega para o fazer desistir do que quer. "O meu sonho é trabalhar no departamento de cultura da Câmara Municipal do Barreiro". E o cigarro lá continua a mudar de uma mão para outra, sem que o sorriso se desfaça. "Acho que vou conseguir." Não sabe quando. Por enquanto trabalha dois dias sim, dois dias não a lidar com o dinheiro dos outros e a gerir o seu. Dos 650 euros que leva para casa, 220 vão para a prestação do carro, que optou por não levar para o trabalho. "Se fosse de carro gastava uns 120 euros em gasolina. Nos transportes gasto 50 euros, preço do L123". Depois há o resto. O tabaco, um ou outro CD, cinema, algumas saídas à noite. A casa e a alimentação ficam por conta dos pais, com quem vive, fora os dias em que fica com a namorada. No fim do mês sobra sempre qualquer coisa. Uns 80 euros e a certeza de "ter de" comprar uma casa sua... "Mais tarde", atira. Afinal, há colegas meus que conseguem..." É que a vida dá muitas voltas, tantas quantas o cigarro deu nas suas mãos.

Inês
Relações Públicas
560 euros
30 anos
Licenciatura em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação Social, terminada em 2001


Inês gosta do que faz. Mas Inês não diz o resto do nome. Chama-se Inês e trabalha com livros. Resumo biográfico para uma identidade inconformada. Inês gosta do que faz e vai sempre sublinhando esse gostar num discurso onde a mágoa fica por conta dos sacrifícios que tem de fazer só por fazer o que gosta. Lengalenga. É que as vezes a vida é uma lengalenga. E Inês olha a sua um pouco assim.
Não foi para trabalhar com livros que Inês, 30 anos, fez uma licenciatura em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Não. Inês queria mesmo era ser jornalista e ainda andou pelos regionais. Aliás, só andou pelo regionais. Jornais regionais que pagavam mal e exigiam disponibilidade total. Sempre assim. "Ah, e invariavelmente pagavam mal." Impossível para quem tem aspirações a uma vida além de uma secretária e de um computador que lhe garantia ao fim dos mês 423 euros. Por isso Inês foi saltitando. Sempre na esperança de encontrar um sítio mais estável. "O que é isso?" Ela pergunta, mas ela nunca chegou a saber a resposta. Pelo menos no jornalismo. Por isso não hesitou em aceitar lugar numa editora quando essa oportunidade lhe surgiu.
Relações públicas, copy, assessora de imprensa... Os livros são o seu metier de segunda a sexta, das nove às cinco, com meia hora para almoço. Gosta. Diz mais uma vez. Nunca pensou gostar tanto, insiste. Mas não flecte. Não se curva ao facto de receber 560 euros que leva limpos de impostos. Não lhe chegam, por exemplo, para viver na casa que comprou, "sabe lá com que dificuldade! Que banco dá crédito a quem ganha o que eu ganho?" Conseguiu um apartamento de 85 mil euros, na Moita, que está a pagar a 46 anos, a meias com o namorado, e que lhe leva uma prestação mensal de 400 euros.
Uma casa muito longe de Cascais, onde sempre viveu e onde vive ainda durante a semana, em casa da avó, porque o que ganha não lhe daria para os transportes, nem para as contas que sustentam uma casa própria. Vai pagando a prestação e juntando o que sobra para ir comprando móveis para a casa da Moita onde por enquanto só passa os fins- -de-semana.
Inês tem 30 anos e gostaria de não ter de viver assim. Porque, afinal, trabalha no que gosta e gostaria de poder continuar a fazer o mesmo: Edição. Mesmo assim revolta-se. Contra um "sistema" que lhe fez acreditar no que veio a confirmar ser uma impossibilidade. "Quem tira uma licenciatura pensa que é garantia para qualquer coisa de bom. Era isso o que nos diziam os governantes, era isso que nos incutiam os nossos pais."
Inês, a Inês que trabalha com livros e gosta do que faz, só não gostou que lhe tivessem "mentido" um dia quando lhe fizeram crer que podia ser jornalista e viver bem disso. "Bem é com dignidade", define. Sem ter de contar todos os tostões nem poder pensar em fazer grandes projectos. Os normais na vida. Casar, ter filhos...
Inês, que trabalha com livros, sente-se enganada e faz-se ouvir nesse protesto. Apesar de ter descoberto que pode haver gosto em fazer outra coisa, acha que as habilitações que tem, o investimento que fez na sua formação, lhe dariam para ter a tal "dignidade". Não pensar duas vezes quando lhe apetece comprar uma revista, não poder passar um fim-de-semana fora... "A taxa de esforço é bastante grande. No fim do mês não sobra nada..."

Bruno Leonardo
Vendedor
675 euros
23 anos
Licenciatura em Sociologia pelo ISCTE e frequência de mestrado em Comunicação


"As minhas namoradas têm sorte. Às vezes escrevo-lhes poemas e elas ficam sempre um pouco espantadas." Bruno confessa a poesia como se de um segredo. Um dom, a palavra que lhe sai sempre fluida, sem gaguez ou hesitação, escrita ou falada. E não há poemas sobrepostos porque namoradas, só uma de cada vez. O riso é de puto, mas o discurso sai coeso.
Bruno queria escrever, fazer jornalismo, mas, acima de tudo "queria comunicar". Na televisão, de preferência. Nada de surpreendente na sua geração. Mais inusitada "é a cena da poesia". Inesperada, pelo menos, para quem a recebe, sem aviso, de um rapaz de 23 anos, roupa desportiva, olhar irrequieto, adrenalina de sobra para trabalhar, fazer um mestrado em Comunicação e praticar desporto diariamente e ainda sair quando dá, andar sempre a correr. "Se não for agora..."
Quando será que Bruno Leonardo conseguirá cumprir o seu sonho? "Ser jornalista desportivo." Não estabeleceu prazos. Encolhe os ombros, mexe nos dedos, que parecem poucos para acompanhar o ritmo com que vai desfiando vontades. É que pelo meio de um percurso tão curto - começou a trabalhar em Setembro - descobriu que pode fazer carreira numa empresa começando como vendedor e sem se sentir frustrado com isso. "Lá está...", diz. E é à facilidade de comunicação - "a tal" - a que se refere. É que um sonho pode levar a outro. Basta que a ambos se apliquem os argumentos que justificam a escolha de um modo de vida. E à comunicação junta-se aqui a vantagem de ser dono do seu próprio tempo, o que só depende da capacidade que tiver para gerir os clientes que encontrar.
Licenciado em Sociologia pelo ISCTE, Bruno está a frequentar um mestrado que o há-de preparar para trabalhar em comunicação. Espera. Aí entram "jornalismo, televisão, rádio, cultura tecnológica da informação". É também no ISTE. "Uma especialização depois de um curso de que não gostei." Assim. Confessado sem um único mas, porque o arrependimento também se finta e afinal sempre houve alguma coisa que se aproveitou ao longo de uma licenciatura que aconteceu não ser a que escolheu. "Não entrei por uma décima na Escola Superior de Comunicação Social." Precisava de 16,5. Teve 16,4. E o que se aproveitou então na Sociologia segundo a experiência de Bruno: os inquéritos. "Disso gostei." De resto, a matéria foi feita de "coisas que não têm muito a ver comigo. Demasiada teoria".
Agora a prática é a de vender material de escritório numa empresa onde pensa que tem meios para progredir. "Fazer carreira", como diz. Porque não? A pergunta é dele. A resposta também. "Tento não idealizar. Ser racional e se me der bem por aqui..." Faz uma pausa, mas não espera perguntas. Prossegue. "Tenho humildade para ver os mais velhos, aprender com eles, e a vantagem de ter mais habilitações. Afinal, sempre tenho uma licenciatura e isso pode ajudar na progressão."
Se financeiramente justificar, Bruno está disposto a sacrificar a escrita, o "trabalho com as palavras para o qual até dizem que tenho jeito" pela carreira comercial. Ganha à comissão. Tira uns 675 euros e pode juntar a isso uns prémios. No mês passado foram mais 300 euros e vai dando para as despesas fixas. Pagar o portátil, o carro, o seguro e as mensalidades do mestrado, que deve andar pelos 2500 euros na totalidade. Como vive com os pais, ainda lhe dá para ir ao cinema, sair à noite e ficar com uns 250 euros de reserva."

Artigo de Isabel Lucas in DNOnline (18/02/2007)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A Noitada - Episódio 3


Molhada. À porta uma confusão sem nome.
Acotovelavam-se ali para cima de cinquenta pessoas, todas em bicos de pés, tentando chamar a atenção dos funcionários encarregues da selecção. Os dois porteiros, de smoking a pedir reforma, olhavam para os potenciais clientes como se estivessem a escolher gado para o matadouro. Alguns "clientes habituais" abriam caminho por entre a populaça, penetrando sem mais esforço que uns apertos de mão aos gatos-pingados. Os Escolhidos podiam vir em grupos só de gajos, podiam até ter mau aspecto; o facto é que lá iam entrando.

Népia! Esta foi a única resposta que o Fonseca obteve quando chegou à fala com um dos porteiros. Pelo que ouviam, estava gente ali que já esperara mais de uma hora. O Luís mantinha-se elegantemente à margem daquele preocesso aviltante. Nem que aquilo estivesse pejado de boazonas; o orgulho de um homem não tem preço. Implorar, nunca!

Ó que saudades...dos dias da Expo 98. Quando a malta saía dos empregos para ir beber uns copos e acabava a noite naquele bar dançante. Como levavam sempre as porcas das secretárias e telefonistas, a entrada nunca era complicada.

Pulos. Lá dentro, no andar de cima, a cena do costume. Tudo aos pulos em cima das mesas. O Luís fechou os olhos e viu centenas de coxas jovens, cobertas por meias de rede e suor. Outras imaginava-as de calças brancas justas com a marquinha da cueca fio dental perceptível pela tranparência do tecido. Imaginou-se a passear entre as mesas, com o nariz a centímetros daquele frenesim de hormonas descontroladas.
Hum...talvez até nem fosse assim tão mau implorar!

Quéfrô? Com o sorriso mais alarve deste mundo, o vendedor enfiara-lhe um molho de rosas em cima das narinas. Mas de onde saíam aqueles gajos todos? Deviam andar em Lisboa mais vendedores de rosas que polícias!

Revolta. Vinte e cinco euros de consumo mínimo. Como ninguém tinha tanto dinheiro na carteira, a escolha foi fácil. Melhor seria partirem em busca de um estabelecimento onde apreciassem gente com estilo. E, se calhar, muitas daquelas pernas tinham varizes, consolou-se em silêncio o Luís. O Fonseca, do fundo do seu desespero, ainda arranjou energias para lançar uma praga aos porteiros: "Tomara que pulem tanto que essa porra vos caia toda em cima!"

Episódio 4 (e último) - Na próxima quarta-feira.
A adivinha desta semana é bastante fácil. Em que bar lisboeta decorre este episódio? Devo adiantar que fez furor de 1998 a 2001, mas entrentanto fechou as suas portas...

sábado, 17 de fevereiro de 2007

È Carnaval!!!


E ninguém levará a mal! Vou ali brincar um pouco mas volto já...

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

O estranho mundo de David Lynch

Hoje, gostaria de prestar uma homenagem ao meu cineasta preferido - David Lynch. Este longo texto fez parte da introdução de um projecto de mestrado, apresentado por mim em 2005, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte que tinha a obra de Lynch como objecto de estudo. Espero que todos aqueles que desconhecem a sua obra, busquem ver algum destes filmes porque estamos perante o cinema na sua essência mais pura.

Imaginem a seguinte visão. Um lindo céu azul, uma bela cerca branca e um agradável jardim com rosas vermelhas. É manhã numa pacífica cidade americana do Mid-West. As pessoas são gentis e cumprimentam-nos com sorrisos no rosto. Um homem rega o seu jardim na companhia do seu cãozinho. Tudo está perfeito no mundo. O homem contorce-se de dor e cai ao chão agonizando. O seu imprestável cachorrinho limita-se apenas a latir. Enquanto ele sofre, é possível observar de perto a relva do jardim. Escondida dentro dela, um grupo de insectos nojentos rasteja na escuridão em alguma actividade incompreensível e desagradável. Bem vindo ao mundo de David Lynch.

Esta é a cena de abertura de um de seus filmes mais conhecidos, o clássico Veludo Azul (1986). Possivelmente o melhor ponto de partida para entrar em contacto com a filmografia do cineasta, pois estão presentes todas as suas características mais marcantes.

O realizador pode ser comparado a outros grandes cineasta contemporâneos, como Tim Burton, também um criador de mundos, Brian DePalma e Lars Von Trier, que de maneira semelhante trabalham com os limites do cinema e as sensações que ele provoca.

Um típico jovem americano, Jeffrey (Kyle MacLachlan), da pequena cidade de Lumberton, faz uma surpreendente descoberta, uma orelha humana amputada. Ao tentar descobrir o "dono" da orelha, percebe que o seu mundo é maior e mais assustador do que pensava. Lumberton tem dois lados, sua aparente tranqüilidade e sua sombra assustadora. Tudo lembra um filme de atmosfera noir, com sua femme fatale Dorothy (Isabella Rossellini), a jovem inocente Sandy (Laura Dern) e o memorável vilão Frank Booth (Dennis Hopper).

Em princípio, estamos diante de outro representante do género policial, mas as aparências enganam. Com absoluto controle sobre imagens e sons, Lynch desfaz a ilusão de realidade. É impossível ter certeza da época em que se passa a trama, cenas de horror e violência contrastam com a beleza do lugar, criminosos cantam In Dreams enquanto torturam suas vítimas e mortos recusam-se a cair no chão, permanecendo em pé. Veludo Azul lembra um sonho, alternando momentos terríveis e belos.

Com as frequentes referências a sonhos e a própria atmosfera onírica de seus filmes, é difícil não pensar em Lynch como um surrealista. Seus filmes não são repletos de metáforas indecifráveis, como os seus detratores costumam afirmar. Não há metáforas, só cinema. Sensações quase abstractas e não compreendidas pelo espectador, mas sentidas pelo subconsciente. Aceitar o seu cinema envolve não o uso da razão, mas o da intuição.

O surrealismo possui características em comum, como a ruptura dos padrões tradicionais de espaço e tempo, ênfase em deformações físicas e mutilações, clima de mistério e humor negro satirizando instituições respeitáveis da sociedade como o Estado e a Família. Lumberton é a perfeita utopia americana, um lugar onde todos são felizes e conformados com suas vidas. Mas a cortina de felicidade é rasgada, revelando um mundo de drogas, violência e perversão.

Ao final, Jeffrey resolve o mistério e derrota a ameaça de Frank Booth e seus comparsas. No entanto, o pássaro que surge para anunciar o triunfo da bondade é falso, mecânico. Não se ignora o horror, após presenciá-lo. Jeffrey e seus amigos preservam a inocência, o espectador jamais. É uma crítica subtil ao final feliz fácil de Hollywood, talvez a instituição respeitável mais atacada por Lynch.

Para atingir este estágio de perfeição estética e artística, o realizador teve um começo de carreira interessante. Inicialmente um estudante de pintura, logo passou a interessar-se pela possibilidade de criar imagens em movimento. Nascia um cineasta. Sua primeira longa-metragem, Eraserhead (1977) é famoso por suas imagens incomuns e pelo clima grotesco. O sucesso no circuito cult bastou para dirigir o Homem-Elefante (1980) e a polémica adaptação de Dune (1984).

O primeiro filme narra a vida de John Merrick (John Hurt), deformado ao ponto de ter ganho o apelido de Homem-Elefante. Aberração de circo em 1884, Merrick é descoberto por um médico inglês e apresentado ao resto do mundo. Sua transição do mundo do circo para o lado respeitável da sociedade será traumático.

Além de excelentes actuações, também conta com uma fotografia em P&B fantástica, de inspiração expressionista, o que demonstra as influências do expressionismo no cinema de Lynch, influência que também pode ser vista noutros filmes, comprovando o misto de referências e influências do realizador.

O expressionismo seria a busca pelo lado escuro da alma humana, um retrato deformado de sensações como angústia e melancolia, com a intenção de mostrar que nem tudo no mundo é belo. Veludo Azul expressa o dilema entre o desejo por uma vida tranqüila e as nossas necessidades mais inconfessáveis. Esse dilema pode ser visto em practicamente todos os filmes do autor.

David Lynch também não segue as regras de caracterização típicas de outros filmes. Inicialmente, suas personagens são propositadamente superficiais, caricatos até. Por exemplo, Jeffrey é um rapaz americano comum e bem intencionado. Nada mais é dito sobre ele, seu passado, suas relações com a família, etc.

Esse "método" de caracterização além de auxiliar na aura de mistério (comum ao surrealismo e ao expressionismo), aumenta o impacto quando os personagens trocam de identidade. Situação surreal freqüente no cinema de Lynch, pois levanta questões sobre identidade, tempo e espaço. Exemplificando, essa metamorfose ocorre explicitamente em Estrada Perdida e Mulholland Drive e de maneira apenas sugerida em Veludo Azul. Na cama com Dorothy, o bom rapaz Jeffrey mostra o quão "bom menino" realmente é.

Coração Selvagem (1990), aprofundou seu estilo marcante. É um road-movie sobre o casal Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern), cujo amor é proibido pela família dela. Ambos partem pela estrada, mas com assassinos no encalço. Além de sua atmosfera absurda, também é lembrado por sua extrema violência (algumas cenas são revoltantes) e pelo humor cínico. Coração Selvagem antecede em muitos anos Assassinos Natos, Tarantino e toda uma série de filmes violentos-e-engraçadinhos que surgiram nos anos 90.

Também é uma sátira as aventuras e clichés típicos de Hollywood. Não importa as ameaças, o casal está destinado a vencer seus inimigos e consumar seu amor. Bem adequado ao senso de humor do filme, poucas vezes um Deux Ex Machina foi tão artificial e levou a um final feliz ridículo, de tão exagerado.

Em seguida, Lynch movimentou-se numa direção inesperada, ao criar a série de televisão Twin Peaks, cujo mistério sobre a morte de Laura Palmer intrigou espectadores tanto quanto os seus excêntricos personagens. No entanto, problemas nos bastidores para manter o controlo sobre a série geraram o seu pior filme, Os Últimos Dias de Laura Palmer, um filme arrastado, confuso e despropositado,onde Lynch não parecia saber muito bem o que estava a fazer.

Mas a obra-prima de Lynch talvez seja mesmo Estrada Perdida (1997), um dos grandes filmes dos anos 90. Fred (Bill Pulman) e Renee (Patricia Arquette) são um casal com problemas de relacionamento e assustados com a entrega em casa de perturbadoras cassetes de vídeo. Uma noite Renee é morta e Fred preso, considerado culpado pela sua morte.

No entanto, esta breve sinopse não explica realmente o filme, cujo desenvolvimento da trama, que envolve troca de identidades e rupturas no espaço e no tempo, complica-se e surpreende a todo instante. Ignora intencionalmente qualquer lógica racional na sequência dos eventos, subvertendo a noção de como deve ser um filme "normal". Poucas vezes no cinema uma frase simples e objectiva como "Dick Laurent está morto" foi tão repleta de mistério.

A Estrada Perdida é um longo e sombrio pesadelo, cuja estrutura do guião lembra o anel de moëbius, aquele que aparenta ter dois lados como qualquer outro anel, mas tem apenas um, num ciclo infinito. Também é uma homenagem ao noir no cinema, cujos elementos comuns, como tramas complexas e mulheres fatais são exacerbadas ao limite aqui. Fred tenta escapar da sua culpa, qualquer que seja ela, e reencontrar seu amor perdido por Renee. Mas "Você jamais me terá", ela afirma na conclusão.

Uma História Simples, inverte todas as expectativas. Inspirado numa história verídica, Alvin Straight (Richard Farnsworth), de 73 anos de idade, decide viajar para reencontrar o seu irmão doente, utilizando um pequeno tractor, já que não pode conduzir um carro.

Uma História Simples (1999) é terno e emocionante, um belo sonho, repleto de belas imagens e a música de Angelo Badalamenti, colaborador frequente do realizador. Não há perversão por trás das aparências, como em Veludo Azul. Também há espaço para um mundo de bondade e uma bela visão da relação de amor existente entre irmãos.

Recentemente em 2001, Mulholland Drive recebeu muita atenção. É um mistério de inspiração noir, onde Betty (Naomi Watts) recém chegada a Hollywood com o sonho de ser actriz, busca ajudar a amnésica Rita (Laura Harring) a encontrar o seu passado, enquanto ocorre uma misteriosa conspiração nos bastidores da terra do cinema.

Combinando a beleza intensa de História Simples com um enredo menos complexo do que em Estrada Perdida, mas ainda confundindo o espectador e lançando dúvidas sobre a trama, com trocas de identidades e situações inesperadas. Além de questionar a importância da memória e da identidade, o cineasta também critica a maneira como Hollywood conduz os seus negócios e a pretensão do grande cinema comercial americano em simular a realidade.

É inesquecível o momento em que Betty e Rita estão no misterioso Clube do Silêncio. Um mestre de cerimónias anuncia no palco que "Não há música! Está tudo gravado! É tudo uma ilusão!". Apesar do aviso, impossível não se surpreender e se emocionar com a performance dos músicos e de uma cantora, cujo número é interrompido diversas vezes, mas a música continua.

Difícil traduzir a sensação que dá ver essa seqüência. Aberta a qualquer interpretação, uma leitura possível é compreende-la como a representação metalingüística do próprio estilo cinematográfico de David Lynch. É a ilusão que se cria e se destrói diversas vezes. Sabemos ser apenas uma miragem, mas somos seduzidos mesmo assim. Nos mundos que Lynch constrói e desconstrói, certezas são dúvidas, ilusões são reais e anarquia é regra. Mas quem tem certeza do que é real ou não?

Lynch nos lembra constantemente que tudo é possível no cinema e desta maneira busca libertar o olho domesticado do espectador, como Buñuel mostrava o órgão ocular sendo cortado no surrealista Um Cão Andaluz.

Sua filmografia causa o mesmo espanto e perplexidade que escritores tão distintos entre si, mas igualmente notórios como James Joyce, William Burroughs, Kafka e Lewis Carroll. Diante de seus filmes, somos como Alice entrando na toca do Coelho e admirando o Gato com sorriso e o sorriso sem Gato. Cineasta das sensações, autor de imagens e sons inesquecíveis, David Lynch é o nosso motorista numa estrada perdida.
Como ilustração do post, deixo-vos uma cena sublime de Estrada Perdida, o meu filme favorito da sua extensa obra.