
Toda a escrita de viagem é um equívoco, como afirmou Scott Fitzzerald; junte-se o facto de o espaço que se tem debaixo dos pés — que se sente, cheira e vê — estar desorbitado da realidade e dá este livro.
Começa com uma instrução: a China aqui retratada resulta numa diluição da repulsa com a adoração acrítica. Uma e outra reacção têm representantes associáveis: de um lado, os sinófobos, que gritam através da inscrição na T-shirt "I survived China!"; do outro, os tomados por uma espécie de "chinesite aguda", os que se querem comportar como orientais e vêem em cada chinês um descendente directo de Confúcio. No meio, está uma categoria angustiada: os sinólogos, para quem a China é um objecto formal, e que caíram na tentação de ir visitar a China real.
Mas apesar dessa mistura anunciada de extremos, não se dá a garantia de que a China que está dentro destas páginas seja a China verdadeira. Não é uma suspeita — já sabemos — é uma porta de entrada no livro, que já está no título: como ver/compreender o Dragão quando se está mesmo em cima dele? E, afinal, um Dragão imenso e fogoso, de delicado papel ondulante que se desvanece num fósforo. A China é — tem que ser — do princípio ao fim do livro, um sonho.
Esta obra não é um relato de viagem, nem um roteiro, nem um tratado etnográfico, talvez até nem seja especialmente relevante para quem vai visitar a China-destino turístico. É de certeza de muito interesse para quem vai viver para a China e deslocar-se dentro dela. Cláudia Ribeiro frequentou o curso livre de chinês, durante a licenciatura em Portugal, e foi estudante-bolseira em Pequim de 1987 a 1991 (com retorno pontual em 97). O livro é sobre isso: uma estada de anos e viagens de léguas e léguas.
O lapso temporal onde se inscrevem as acções e visões invocadas (usa-se recorrentemente o Pretérito Imperferito — que projecta as acções para o passado, mas que também as toca de irrealidade) é visado sob o tópico da mudança. É esse tópico que serve de delimitação do corpo do texto, feita através da nota-sugestão inicial e final, sobre Tiananmen: no início, a referência ao massacre e ao modo como ele rapidamente se apagou da memória colectiva; no fim, uma imagem, a da Praça cheia de gente descontraída e vestida à ocidental, e um sentimento só, o de que a China está a mexer.
O corpo do texto está organizado em duas partes: uma primeira, a abranger os quatro primeiros capítulos, que podia receber um título geral do tipo "Introdução ao dia-a-dia chinês"; e uma segunda constituída pelo 5º capítulo, que se subdivide em vários subcapítulos, intitulada mesmo — "Registos de viagens". Entre uma e outra há um ponto de viragem (prevista) de perspectivação da China.
A primeira parte arranca com um retrato colectivo dos filhos do dragão através de encadeamentos de conclusões tiradas a partir de percalços vividos ou ouvidos, em fuga à pura listagem de traços e hábitos do povo chinês: a elevada auto-estima, a explícita e escrupulosa hierarquia social baseada no dinheiro, o patriotismo atávico, a burocracia demente, as guanxi (cunhas — como é fácil traduzir para português!), a grosseria dos funcionários públicos (idem), os critérios torcidos para escolher parceiro, os gostos mórbidos, as escarradelas e assoadelas, a falta de higiene geral, a ressaca controversa com Mao e a adoração unânime de Zhou, a miséria atroz. Assim, sem mais, o retrato parece que sairá feio. Há porém na sua elaboração já uma boa dose de condescendência e relativização, que tomam assento mais demorado nos comentários e avaliações, mas que estão sempre presentes na construção dos episódios e situações absurdas e risíveis — sem desdém, a obrigar-nos a olhar para as nossas próprias (ocidentais e portuguesas) ridicularias e desaires.
Segue-se o olhar em espelho, o dos chineses em relação aos ocidentais e ao mundo exterior. A metodologia é a mesma: o registo da experiência própria ou da de outros estudantes ocidentais. Desta vez, bastou, em muitos casos, a captação passiva de conversas entre chineses que não suspeitam que a autora sabe falar chinês — donde saem situações mirabolantes. Quanto ao mundo exterior, ele aparece acentuadamente desnivelado entre os países pobres (de leste e ex-comunistas) e o "Belo País", ou seja, os EUA, a fazer jus ao adágio "enriquecer é glorioso".
O capítulo seguinte reparte-se por itens de uma enciclopédia vivida — as casas de banho, os comboios (o item que causa a sensação mais aguda de desespero), os espectáculos, a saúde, o comércio, o crime, o canibalismo, e curiosidades avulsas da presença de Portugal na China.
Antes de passar às crónicas de viagem, ainda um capítulo dedicado apenas a Pequim — o ancoradouro de todas as viagens, a China-China (por oposição a Xangai ou Cantão). O ritmo discursivo abranda e começam as descrições.
Um excelente livro que retrata a vida de uma portuguesa na China. Eu gostaria de ver mais testemunhos escritos das experiência vividas por portugueses residentes no estrangeiro, tanto em livro como via blogosfera. No que me diz respeito, tenho tentado de forma regular, fornecer alguma informação sobre o Nordeste brasileiro e durante este ano conto publicar algumas reflexões mais pessoais sobre mais de dois anos de vida nos trópicos.
No Dorso do Dragão - Cláudia Ribeiro; Publicações Europa-América