quinta-feira, 12 de abril de 2007

Vigorexia: A Doença da Vaidade


As pressões da sociedade moderna são responsáveis pelo surgimento
de distúrbios da imagem corporal. Uma doença cuja frequência tem aumentado nos últimos anos é a vigorexia, que tem como principal sintoma a valorização excessiva da silhueta perfeita
A pessoa que possui este distúrbio busca tornar o corpo magro e musculoso a qualquer custo, mesmo que isto lhe traga prejuízos futuros. Apesar da vigorexia ser mais comum entre homens, ela também pode ser vista em mulheres.
Os ginásios costumam ser os lugares preferidos dos vigoréxicos. Lá, eles realizam exercícios físicos por horas a fio, pesam-se várias vezes ao dia e comparam sua musculatura com a de seus colegas. O uso de esteróides e anabolizantes pode ser um recurso frequente, por facilitar a obtenção de resultados imediatos.
Além disto, há uma preocupação excessiva com a alimentação: as gorduras são evitadas e as proteínas são consumidas de forma exagerada.
“Mais importante do que exibir um corpo musculoso e perfeito é ostentar uma imagem saudável, que não seja construída em detrimento do próprio bem-estar”
Entre as características psicológicas dos vigoréxicos, encontram-se o sentimento de inferioridade, retracção social e timidez que fazem com que a pessoa busque se afirmar através de um corpo perfeito. Apesar de serem musculosos os vigoréxicos sentem-se internamente enfraquecidos e distantes de si e de seus ideais.
A vigorexia causa um desgaste orgânico e mental e pode trazer consequências semelhantes às do stress, tais como: insônia, desinteresse sexual, falta de apetite, irritabilidade, fraqueza, cansaço, entre outros. Além disto, são também freqüentes os problemas físicos e estéticos, como desproporção dos membros, problemas ósseos e articulares e falta de agilidade.
A situação torna-se mais grave com o uso de anabolizantes, pois estes aumentam os riscos de doenças cardiovasculares e das disfunções sexuais além de diminuírem o tamanho dos testículos e criarem maior propensão ao cancro de próstata.
É desejável que as pessoas tenham preocupação com o próprio físico, desde que esta não se torne uma obsessão e venha a prejudicar outros sectores da vida. Reconhecer as pressões estéticas impostas pela sociedade e saber lidar com elas de maneira saudável é a chave para evitar doenças como a vigorexia e outros distúrbios da imagem corporal. Mais importante do que exibir um corpo musculoso e perfeito é ostentar uma imagem saudável, que não seja construída em detrimento do próprio bem-estar.

Já temos a anorexia, a bulimia, a vigorexia, os viciados na internet...que outras doenças a modernidade irá trazer?

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Férias em Natal - Episódio 6


Natal, Sábado - 07 de Dezembro 2008, 00:15h

Luís terminara de jantar com Patrícia. A conversa tinha fluído de modo agradável e ele sentia-se cada vez mais atraído pelo olhar daquela morena. Após o jantar, entram no carro e permanecem em silêncio. Luís sempre fora um mulherengo de primeira linha, mas existia algo em Patrícia que o deixava mais acanhado. Ela decide tomar a iniciativa. Coloca as mãos na nuca dele; as duas bocas tocam-se num beijo intenso. Ambos eram suficientemente adultos para terem plena consciência de como aquela noite iria terminar. Luís liga o carro e arrancam na direcção de um motel que o Ferreira lhe indicara. Após terem estacionado o automóvel na garagem, sobem até ao quarto e Patrícia diz que precisa de tomar um banho. Ele despe-se, atira-se para cima da cama redonda e liga o televisor. No ecrã passava um monótono filme pornográfico. "Porque será que as mulheres são tão demoradas?" - pensava Luís, enquanto escutava a água do chuveiro. O vinho do jantar e as noites mal dormidas faziam-no sentir o corpo cansado, os olhos pesavam cada vez mais...

Enquanto isso, os restantes elementos do grupo ainda degustavam um excelente jantar tardio, confeccionado pelo Ferreira que aprimorava cada vez mais os seus dotes culinários. O azar do dia anterior tinha refreado o ímpeto conquistador dos rapazes que, mantinham uma conversa séria, coisa rara nas suas reuniões.
- Por vezes, questiono-me sobre esta nossa necessidade de estar sempre a ter casos paralelos aos nossos casamentos. Vocês não pensam no mesmo? - questiona o Fonseca.
- È claro que penso sobre isso. Olhem para o meu caso. Não posso dizer que tenha sido muito bem sucedido no casamento. Eu sei que vocês acham a minha mulher uma dondoca e não vos tiro a razão. Optei por casar com a Constança porque ela era bonita e elegante. Ficava bem ao meu lado nas festas e tinha aquele ar aristocrático que sempre apreciei. No entanto, com o passar do tempo fui-me cansando das suas futilidades. Ajudei-a na abertura da boutique e proporciono-lhe algum conforto. Em troca, ela não se mete na minha vida, viajo para o Brasil quando quero e claro que ela sabe que tenho os meus casos. A última foi aquela miúda de vinte anos que vocês viram uma vez... - disserta o Ferreira, enquanto fuma um cigarro.
- Cada um com a sua cruz. Olhem, os problemas que tenho com a minha relacionam-se basicamente com dinheiro. Por vezes excede-se nas contas do cartão de crédito. Fico fulo! E também acho que a gravidez dela foi um pouco prematura... - diz o Fonseca.
- Eu divorciei-me da Sónia devido aos ciúmes dela. Como sabem, os meus engates saem quase sempre frustrados, mas ela imaginava-me sempre com um monte de amantes. Para além disso, também já estava saturado do eterno mau humor dela. Mas não se preocupem muito com isso. Nós homens, temos essa necessidade de transgressão que elas nunca irão compreender - refere o Reis.
- Vocês nem vão acreditar no que a minha mulher me disse há tempos! Veio com umas conversas sobre a rotina do nossa relacionamento sexual. Propôs que fôssemos a uma daquelas festas onde se fazem trocas de casais. Swing, não é? Disse que era para apimentar o casamento...dá para acreditar? - confidencia o Lemos um pouco embaraçado.
- Porra! Ela deve estar é doida! Eu nem admitia que minha viesse com uma conversa dessas. A não ser, que ela quisesse convidar uma amiga para dividir a cama connosco -atira o Ferreira, rindo à gargalhada.
- Mudando de assunto...vocês não estranharam, o facto delas ainda não nos terem ligado? - interroga o Lemos.
- Como é que queres que elas nos liguem, se nos roubaram os telemóveis? - responde o Fonseca.
- Sim...mas isso foi na madrugada de quinta-feira. Antes disso, ainda tivemos vários dias contactáveis - relembra o Lemos.
- E tu por acaso tentaste ligar para a Marta? - pergunta o Ferreira no gozo.
- Pá, por acaso até tentei ligar na quarta-feira. Em casa ninguém atendia e o telemóvel dela estava desligado.
- Hum...estranho, não acham? Bom, se isso acontecesse comigo até nem me admirava. Ou estava enfiada no salão de beleza ou então teria ido a um daqueles cocktails cheios de tias e bastante enfadonhos - o Ferreira não perdia o bom humor.
- Cá para mim, juntaram-se todas para conspirar contra nós. E deve ser a Sónia que anda a meter veneno junto das outras. Ela não se conforma de me ter perdido! - opina o Reis.
- È capaz de ser isso. Só espero que a Lúcia não tenha feito despesas desnecessárias na minha ausência - conclui o Fonseca.

Natal, Sábado - 07 de Dezembro 2008, 07:00h
Nessa manhã, Luís acorda com um doce sussurro no seu ouvido.
- Acorde meu querido...está na hora! Tenho de sair para trabalhar.
- Hum...como é? - responde ensonado - Que vergonha! Nem quero acreditar que adormeci desta maneira...
- Eu entendo. Esqueça isso...foi muito bom ter ficado juntinho de você.
- Mas...espere mais um pouco. Assim não vale! - diz ele agarrando Patrícia pela cintura.
- Não posso. È sério...tenho de estar no hotel daqui a pouco. Tenho de acompanhar um grupo de turistas que chegou ontem de S.Paulo.
- Hoje à noite, podemo-nos encontrar novamente? - Luís não escondia a sua frustração.
- Não dá. Tenho muita pena, mas vou ter de acompanhar esse grupo este final de semana inteiro.
- Porque é que não me acordou? - insistia Luís.
- Não se precocupe com bobagens. Foi bom...você fica lindo dormindo, sabia? Por vezes o sexo é apenas um detalhe...
O casal despede-se desta forma abrupta e inesperada. Ambos prometem mantar contacto via internet e telefone. Luís deixa Patrícia na portaria do hotel, onde se despedem com um beijo terno. Quando entra no apartamento, dirige-se para a sala, senta-se no sofá e fica imerso nos seus pensamentos. Os amigos dormiam nos quartos. Ele ficou ali sentado entregue à sua melancolia. Nunca imaginara que uma situação destas lhe pudesse acontecer.

O grupo de amigos decidiu passar o sábado na praia. Para felicidade do Luís, os outros tinham sido bastante discretos e poucas perguntas fizeram sobre a noite anterior. Já estavam na véspera da partida para Lisboa, queriam aproveitar o máximo e regressar aos seus empregos com um bronzeado invejável. A meio da tarde, são abordados por dois rapazes - Mauro e Rodrigo - que os desafiam para uma partida de futebol de praia. O amigável luso-brasileiro terminou com um surpreendente empate a cinco bolas. A equipa portuguesa era constituída por trintões que evidenciavam má forma física, devido aos excessos cometidos naqueles dias, mas que ainda assim deram uma boa réplica aos brasileiros. O jogo ficou marcado por uma excelente exibição de Luís na baliza e pelo instinto goleador do Lemos que marcou três dos cinco golos lusitanos. Os destaques negativos ficaram por conta do Fonseca que não se adaptava ao forte calor e pelo Ferreira que insistia em fazer placagens nos adversários. Ele teimava em confundir as regras do futebol com as do râguebi!
No final da partida, Mauro e Rodrigo, ainda tentaram arranjar uma briga com o grupo, em virtude do excesso de faltas cometidas pelo Ferreira, mas eles decidiram ignorar as provocações. Bastava de sarilhos no Brasil.
Após saírem da praia, fazem uma incursão pelas lojas de artesanato nas proximidades. Aproveitaram para comprar algumas lembranças para as suas esposas, amigos e colegas de trabalho.

O serão foi preenchido com um simpático jantar no restaurante Casa Portuguesa. O Ferreira convocara vários amigos que tinha na cidade e por ali ficaram durante umas horas na conversa. Contudo, os efeitos do vinho ingerido não tardaram a surgir. Na saída, ainda trataram de importunar um grupo de turistas portuguesas que estavam numa mesa próxima. Ao aperceberem-se do estado alcóolico do grupo, decidem ignorá-los ostensivamente e eles acabam por desistir das investidas.
Despedem-se do amigos brasileiros, metem-se no carro e arrancam de forma veloz em direcção ao Forró do Pote que se situava na periferia. Pouco antes do jantar, o Ferreira ainda tentara ensinar os fundamentos daquela dança sensual aos amigos, mas de nada lhes adiantou. A falta de maleabilidade na cintura era exasperante, velendo-lhes mais tarde, a ajuda das parceiras de dança que lhes iam impondo o seu ritmo. A meio da noite, já conseguiam dançar de modo aceitável e aproveitavam a proximidade da dança para dizer um monte de baboseiras nos ouvidos do mulherio. Definitivamente, o álcool e a sedução não eram bons aliados. Elas riam e conversavam com os rapazes mas momentos depois, escapuliam das garras deles. Entretanto, o Luís retirara-se do recinto e dormia no carro. Os amigos tinham estranhado o mau humor dele durante o dia, mas tinham-no poupado de perguntas desnecessárias. O Lemos já pouco se mexia. O jogo de futebol na praia tinha-o deixado exausto. Na pista, restavam apenas o Ferreira, Fonseca e Reis que não paravam de dançar no seu passo cambaleante.
O relógio marcava três e meia, quando decidem retornar a Ponta Negra. Por milagre, chegaram ilesos a casa, já que todos eles se encontravam num estado lastimável. As férias estavam no final. Nenhum deles tinha conseguido atingir o objectivo de conquistar o maior número de mulheres possível. Regressavam a Portugal com o placard a zero e receando enfrentar as crises de ciúmes das suas companheiras.

Voo YSS501, Domingo - 08 de Dezembro 2008, 19:05h
A cidade de Natal e o calor ficavam para trás. Estavam de regresso a Lisboa. Apesar dos desaires amorosos, a viagem tinha reforçado ainda mais o espírito do grupo. A sua amizade era indestrutível. O grupo parecia outro durante o voo de regresso. Permaneciam silenciosos. Sentiam-se cansados e não tardou muito para que o Reis e Lemos mergulhassem num sono profundo. Luís olhava absorto para a janela do seu lado. Ainda não se tinha recomposto do desaire perante Patrícia. O Ferreira assistia ao filme que passava nos ecrãs e, ao seu lado o Fonseca, lia atentamente uma revista sobre turismo.
Será que teriam alguém à espera deles no aeroporto? A aterragem estava prevista para as seis da manhã de segunda-feira...

Não percam o último episódio desta blogsérie, na próxima quarta-feira!

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Touros


Vista nocturna da praia.

Farol do Calcanhar.

Jangada típica do litoral nordestino.

Panorâmica da praia.

Marco de Touros, colocado durante a expedição de Gaspar de Lemos que fazia parte da esquadra de Pedro Álvares Cabral.

Canhões coloniais no centro da cidade.

Pousada Sino dos Ventos, propriedade do cantor Rui Veloso.

Este município tem lugar assegurado na história como o local em que foi implantado o primeiro e mais antigo monumento de colonização lusitana em território brasileiro, o Marco de Touros, segundo a opinião recente de vários historiadores. O passado e futuro fundem-se no cenário que ilustra um dos polos turísticos mais promissores do estado do Rio Grande do Norte. A 89 Km da capital, pela BR 101, Touros tem uma localização geográfica privilegiada, situada exactamente na esquina do continente. Tem as costas da América Latina mais próximas da Europa e da África. Palco de acontecimentos épicos, o município de Touros guarda relíquias e monumentos que remontam a época da colonização portuguesa. Esse paraíso tropical foi baptizado de Touros porque os colonizadores, ao se aproximarem da costa, avistaram uma grande falésia, rochedo negro conhecido hoje como "tourinho", que dava a impressão de esculpir a cabeça de um touro.

domingo, 8 de abril de 2007

Orkutmania

Se a senhora Buyukkokten tivesse baptizado o filho de John - ou quem sabe de Paul, ele provavelmente não teria criado uma rede de relacionamentos com o próprio nome. Mas talvez aquela mãe turca tenha sentido que o seu rebento estava predestinado a diferenciar-se dos outros. Por isso chamou-o de Orkut. Em Janeiro de 2004, quase três décadas depois do seu nascimento, o jovem Orkut Buyukkokten, então programador do Google, lançou um site em que as pessoas poderiam fazer amigos e criar as suas comunidades. Para entrar, só sendo convidado, o que garantiria uma ligação confiável entre todos os seus membros. Se Orkut desconfiava que isso iria transformar-se num vício de alguns e a febre de tantos, não se sabe. O certo é que ele nunca imaginou que a língua portuguesa dominaria a sua criação. Hoje dos 16 milhões de pessoas que exibem os seus perfis em www.orkut.com, 70% são brasileiras. Este site funciona mais ou menos nos mesmos moldes do Hi.5 que é mais difundido em Portugal. A única diferença é que o Orkut tornou-se uma verdadeira psicose do povo brasileiro, que passa horas a fio a espiar a vida alheia.

O site consegue despertar o voyeur que existe dentro de todos nós. Sim, porque o Orkut faz aflorar uma curiosidade absurda. Quando menos se espera, a pessoa já está a espiar os perfis pessoais, lendo os scraps, ou seja, os recados que as pessoas deixam nas páginas pessoais e os álbuns de fotografias que ficam ali para que todos possam ver. Claro que dá para apagá-los, mas isso é quase como ir contra o que o Orkut propõe: que a vida seja um livro aberto. No entanto, o site funciona de modo algo psicótico. Se a pessoa decidir navegar pelas ondas orkutianas para ler perfis alheios e (re)encontrar pessoas que nos interessaram em algum momento da vida, incluído ex-namoradas e afins, arriscamo-nos a passar por alguns embaraços. Todos ficam a saber que andámos a bisbolhotar nas suas páginas. Isso porque, nos últimos tempos, foi criado um recurso que permite ver quem visitou a nossa página, assim como avisa os outros quando nós entramos na deles. Para quem quer navegar livremente sem ser descoberto, resta uma alternativa que para a mioria é bastante irritante: a criação de um perfil falso.
Essa estratégia da dissimulação é bastante usada pelos que querem descobrir se o namorada ou esposa troca mensagens picantes com outras pessoas. Aliás, não é de hoje que o Orkut é responsabilizado pelo fim de relacionamentos, pelo ciúme doentio e por descobertas nem sempre agradáveis.

Os que só entraram no Orkut para reencontrar amigos do passado acham que ele perde a graça depois que isso acontece. Mas, para os que gostam de encontros inusitados e procuram parceiros sexuais, a empolgação mantém-se por mais tempo.
A busca de uma identidade e a sensação de pertencer a um grupo é mais do que normal, é quase necessária. E isso não vai mudar nunca, daí o sucesso dos sites de relacionamento. No entanto, o mundo não é apenas feito de pessoas de boa índole e muitos usam a internet para falar mal dos outros, lançar ofensas ou mesmo procurar informações nefastas. Há pouco tempo, os jornais noticiaram um jovem que matou a namorada depois de trocar informações numa comunidade do Orkut sobre armas. Existem casos de fotografias de mulheres que, são manipuladas em fotomontagens e colocadas posteriormente em sites pornográficos. Existem vários especialistas em sequestro que fazem pesquisas intensivas nos perfis para identificar os locais que a pessoa frequenta, a casa onde mora e ter uma noção do seu estilo de vida. È por essas e por outras que os peritos em Orkut aconselham: não publiquem fotos de corpo inteiro e prefiram ângulos que fujam do convencional. Fotos de filhos e crianças nem pensar. Apesar da página inicial do Orkut defini-lo como uma comunidade online que conecta pessoas por intermédio de uma rede de amigos confiáveis, lembrem-se que são milhões de pessoas. E nem todos são bisbilhoteiros inocentes como nós.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Férias em Natal - Episódio 5


Natal, Sexta Feira - 06 Dezembro de 2008, 14:40h

Luís acorda em cima de um dos sofás da sala. Abre os olhos com dificuldade. Sente uma ligeira dor de cabeça, as articulações presas e um gosto amargo na boca. Senta-se com alguma dificuldade e franze os olhos, devido à claridade que entrava pelas janelas da sala. Olha ao seu redor e sente um aperto no coração. Os amigos estavam todos deitados pelo chão da sala, absolutamente imóveis. Estariam mortos? Surgem na sua memória alguns flashes da noite anterior e rapidamente se apercebe do que tinha acontecido. Haviam sido drogados pelo grupo de raparigas que tinham levado para o apartamento. Reinava uma enorme desarrumação na casa. Copos vazios, latas de cerveja, roupas espalhadas e gavetas reviradas. De súbito, sente um enorme pavor apossar-se da sua mente. Seria ele, o único sobrevivente de uma noitada irresponsável? Ganha coragem, levanta-se rapidamente e aproxima-se do Fonseca que estava mais perto. Segura-lhe o pulso e sente um grande alívio ao constatar que o seu amigo apenas dormia um sono profundo.
- Fonseca, Fonseca! Acorda pá! Estás a ouvir? Acorda por favor! - berrava o Luís.
- Hã? O quê? - Fonseca desperta lentamente.
- Levanta-te rápido! Aquelas cabras drogaram-nos e parece que roubaram algumas coisas.
- O que estás para aí a dizer? - o amigo já se sentara no chão e passava as mãos no rosto.
- Hello??? As gajas de ontem pá! Porra, caímos que nem uns patinhos! Eu vi logo que o esquema ia acabar mal - a revolta de Luís era evidente.
Perto da mesa da sala, o Reis acordara e olhava ao seu redor com um ar meio perdido.
- O que se passou aqui? - pergunta balbuciante.
- Fomos roubados, seu otário! Estás a ver o resultado da bebedeira de ontem? Eu e o Ferreira desconfiámos logo das gajas. Vocês são os culpados desta merda! - gritava o Luís.
- Nós!? - pergunta o Fonseca ainda confuso.
- Sim, vocês. Nunca viram mulheres na vida? Parecia que estavam com o cio! Temos sorte delas não nos terem cortado as goelas...
- Putas de merda! - exaltou-se o Ferreira que se erguera entretanto. Avança atordoado em direcção ao corredor. Pára em frente duma porta, roda a maçaneta e parece aliviado ao constatar que o quarto se mantinha inviolável. Entra no aposento do lado e depara-se com um cenário desolador. Tudo revirado do avesso. Já estavam todos acordados e lentamente foram-se apercebendo das coisas que faltavam. Todos os telemóveis, cartões bancários, dinheiro, relógios e alguma roupa de marca tinham desaparecido dos quartos. A câmera do Luís e as máquinas fotográficas também tinham sido furtadas.
- Que bronca! Levaram a câmera que os meus sogros me ofereceram - lamenta o Luís.
- E o meu dinheiro? Os meus cartões? Para não falar do telemóvel que comprei pouco antes de vir - diz o Fonseca com os olhos marejados de lágrimas.
- Ei pessoal! E os nossos passaportes e passagens aéreas? - interrompe o Ferreira aos gritos.
- Estamos tramados! - exclama o Luís.
- Fiquem tranquilos... - diz o Reis, acenando com um pequeno saco de plástico na mão. Como a malta é meio desorganizada, reuni os passaportes e os bilhetes de avião neste saco para não se perderem. Depois, arrumei na estante da sala. Por sorte, não mexeram lá...
- Ufa, estamos safos! - soltou o Lemos.
- Podes crer...sem passaportes, não sei como iríamos fazer para sair daqui no domigo - acrescenta o Ferreira.
- Se calhar, nem sabiam o valor que um passaporte pode ter no mercado negro. Queriam outro tipo de coisas... - explica o Luís.
- Dentro do azar, acabámos por ter sorte. Os passaportes escaparam das mãos delas e estamos vivos. Poderia ter sido bem pior! - diz o Reis meio conformado.
- E agora? Prestamos queixa à polícia? - pergunta o Fonseca.
- È melhor não. Não quero polícia aqui dentro do apartamento. E o que temos para explicar? Que ficámos bêbados e trouxemos umas gajas desconhecidas para aqui? Nem sequer sabemos os nomes delas - atira o Ferreira.
- A que estava comigo chamava-se Silvana. A loira era Mônica, creio eu... - refere o Lemos hesitante.
- Deixa de ser idiota! Ias dizer isso à polícia? Provavelmente os nomes são falsos e ainda podiam alegar que teríamos abusado de menores de idade. Esqueçam a polícia,ok? - o Ferreira evidenciava um grande nervosismo.
- Pois...mas ainda temos tês dias pela frente e nem um centavo no bolso. Como vamos fazer? - interroga o Fonseca.
- Eu tenho conta bancária no Brasil, mas hoje é sexta-feira e a esta hora já não tenho tempo de passar na minha agência. - continua o Ferreira pesaroso - Mas conheço uma pessoa que nos poderá ajudar. Vai ser complicado ter de lhe explicar o caso, mas enfim...
- Outra coisa...porque é que foste logo verificar se aquela porta tinha sido arrombada? - Fonseca aponta na direcção do quarto que se mantivera trancado durante aqueles dias.
Trata-se de material médico muito caro. O prejuízo seria bem maior e fiquei preocupado com isso - desta vez o Ferreira respondera de forma convincente.
- Ok, já entendi - Fonseca parecia convencido.

O Ferreira tomou um banho, vestiu uma roupa lavada e desceu até à recepção do prédio para telefonar ao Cônsul Frederico Robles.
- Estou? È o Dr. Frederico Robles?
- Sim...é o próprio. Quem fala?
- Agente 0069. A noite passada aconteceu um imprevisto e necessito do seu auxílio.
- Qual é o problema, meu caro?
- Sabe como é...ontem levei os meus amigos para conhecer o Carnatal. Bebemos além da conta e trouxemos umas moças para o apartamento. Deram-nos umas bebidas adulteradas e acabámos por perder a consciência. Quando acordámos, vimos que nos tinham roubado várias coisas.
- Mas...mas como é que um agente ao serviço da nação, pode ser tão irresponsável? Na última conversa, já lhe tinha dito que tinha sido uma imprudênca trazer esse grupo de arruaceiros para aquela casa. E agora, você tem coragem de me contar uma coisa dessas? E o equipamento? Os vossos passaportes? Foi tudo roubado? - o Cônsul não difarçava o seu ultraje.
- Nada disso. A sala de trabalho manteve-se inviolável e os passaportes estão em nossa posse.
- Menos mau...e o que pretende de mim?
- Estamos em dinheiro. Precisamos de uma pequena quantia para nos aguentarmos até domingo. Quando chegar a Portugal, poderemos acertar as contas consigo.
- Eu não acredito no seu descaramento! Vou providenciar uma quantia e mandarei entregar aí mesmo. Mas quero que saiba que tudo sito irá ser reportado à sede do Serviço em Lisboa. Tem consciência de quais serão as consequências?
- Dr. Robles, mas...estou? Estou?
O Cônsul já tinha desligado. O Ferreira para além dos seus negócios além-mar, tinha-se revelado durante os últimos anos, um excepcional agente secreto ao serviço da República Portuguesa nos trópicos. Contudo, ele calculava que aquela infantilidade iria arruinar a sua carreira nos serviços de inteligência nacionais. Aquele apartamento era a sua célula secreta, o misterioso quarto trancado albergava sofisticados equipamentos de espionagem e diversos ficheiros secretos. Como pudera ser tão imprudente?

Ao entrar novamente no apartamento, os amigos estranham, o seu ar cabisbaixo.
- O que te aconteceu? Estás branco como a cal! - inquiriu o Luís.
- Não foi nada. O dinheiro já vem a caminho. O meu amigo já enviou um estafeta para cá - diz o Ferreira, tentando desviar o assunto.
- Falaste com os porteiros sobre as gajas? Eles não estranharam nada? - pergunta o Lemos.
- Os seguranças acreditaram que nos teríamos contratado prostitutas, para fazer uma orgia. Disseram-me que saíram às duas e meia da manhã. Por isso, não nos roubaram o carro. Iria levantar suspeitas e seriam barradas no portão da garagem.
- Nem me lembrei do carro...sabem o que vos digo? Depois do dinheiro chegar, vou passear um pouco para espairecer e aproveito para ligar à Patrícia. Só mesmo aquela beldade para me fazer esquecer tudo isto - disse o Luís.
- Cuidado com as caipirinhas! - gracejou o Reis.
- Vê lá se te cai um dentinho com a piada! E vocês vão fazer o quê?
- O Ferreira disse-nos que vai fazer um petisco. Hoje, devemos ficar por casa - continuou o Reis.
- Parece-me bem. Pelo menos, não irão meter-se em mais encrencas - rematou o Luís.

terça-feira, 3 de abril de 2007

STOP SEX TOURISM!




Mais palavras para quê? Basta!!!

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Simplicidade Voluntária - Um regresso às origens?

Um novo movimento surge em países altamente consumistas, como os Estados Unidos, que sempre pensaram em simplificar a vida inventando mil e um produtos para o dia-a-dia de donas-de-casa e executivos.
Engraçado é que, se a idéia original era simplificar para que sobrasse tempo para as pessoas fazerem o que gostam, para curtirem a vida, o que aconteceu foi exactamente o contrário. Inúmeras atribuições, mais e mais trabalho para se ganhar muito dinheiro e consumir tudo o que vai sendo criado. E ninguém se lembra mais porque foi mesmo que tudo começou, esta roda-viva de inventos que a cada dia é suplantada por uma nova safra, mais tecnologia mais sofisticada e cara.
Simplicidade voluntária pode soar como um sacrilégio para muitas pessoas, especialmente as que adoram consumir. Para essas, nada como os shoppings centers da vida, onde se compra de tudo.
Na terra do consumismo surge um movimento formado por pessoas um tanto diferentes, que advogam um retorno à vida simples. Para que se matar de trabalhar para comprar um monte de inutilidades que depois nem se sabe onde guardar? Não é melhor trabalhar menos, passear mais, ter mais tempo para o lazer, para estar em contacto com a família, os amigos, a natureza, para se curtir um hobby, um passatempo favorito? "Ser" mais ao invés de "ter" mais?

Será que as pessoas precisam "mesmo" de telemóvel para pôr o pé na padaria da esquina? Ou dar uma caminhada no quarteirão? Será que precisamos "mesmo" ter não sei quantos pares de ténis, de sandálias, de sapatos de todas as cores, com as respectivas bolsas para combinar? Será que precisamos "mesmo" ter tantas peças no guarda-roupas? Comprar tantos produtos de beleza e verificar que continua tudo igual? Será que a beleza não vem de dentro para fora? Precisamos realmente comer tantas porcarias e tomar tantos refrigerantes? Isto é saudável? Precisamos "mesmo" da muleta do cigarro, da bebida, até da droga para nos sentirmos "gente"? Isso realmente faz-nos tão felizes assim? Precisamos realmente daquele jipe, não só despertando a cobiça dos ladrões, como também expondo as nossas vidas ao perigo de assaltos? Claro que sim, vão responder alguns, é o "sagrado direito de comprar o que se entende, de ter o que se quer, se temos dinheiro para tal".
Porque será que as pessoas se voltam tanto para fora de si e não olham para dentro delas mesmas? Para que tantas luzes a piscar nas noites das grandes cidades, para que tantos outdoors, para quê tanto barulho? Será para chamar a nossa atenção para o que nos "falta", para tudo que não temos e achamos que precisamos para sermos felizes? É, os homens do marketing da felicidade fácil estão a facturar, e como! Mas então, porque será que as pessoas parecem cada vez mais infelizes, mais tristes e vazias?

Porque será que o amor se vulgarizou tanto? Por que estamos sempre em busca de algo que não sabemos o que seja. Algo fora de nós, algo longe, distante, onde, onde? Os relacionamentos são tão fugazes... Ficamos na superfície, quase sempre. Não mergulhamos fundo, temos medo. Medo de nos envolvermos de verdade, de nos comprometermos. E queremos tanto ser felizes!... E buscamos, buscamos. E não podemos esquecer-nos de marcar a terapia com o psicólogo para a semana que vem. "O Reino de Deus está dentro de vós", disse Jesus de Nazaré. Porque buscar fora de nós o que está dentro de nós? No auge da guerra dos EUA contra os Talibans, li no jornal uma frase de um daqueles chefes tribais talvez ao ser perguntado pelo repórter sobre a aridez, pobreza do povo da região: "O ser humano não precisa de muita coisa para viver!" E, na verdade, olhem os índios brasileiros quando os portugueses chegaram aqui. Eram saudáveis, bonitos e felizes. O homem branco foi quem lhes presenteou com os mais variados tipos de doença e vícios do civilizado, dizimando as suas tribos. E o que "possuíam" então? A natureza, a vida simples, a liberdade, a pureza, o espírito de comunidade, fraternidade, solidariedade e tantas coisas assim.

Pois, surge agora, em algumas partes do mundo, esse saudável movimento de volta à vida simples. Cada um olhando em volta de si, tanto na sua vida pessoal, como na sua família, no seu ambiente doméstico, na sua casa, seu trabalho, no seu escritório, o lugar físico em si, podem começar já com uma limpeza. Podem começar a repensar os vossos (contra) valores. Comecem a partilhar o seu supérfluo pois existem milhões que não têm o essencial para viver. Não têm o que comer no seu dia-a-dia. Enquanto isso, não sabemos onde guardar tanta quinquilharia. Gastamos o nosso dinheiro, nos endividamos com aquilo que não nos sacia. Quem não tem dinheiro venha também! Para quê gastar dinheiro com coisas que não alimentam?

Existem já diversas comunidades no Brasil que fazem reuniões regulares sobre esta temática, sobretudo no Rio de Janeiro e Porto Alegre. Eu não preciso ir a nenhuma delas. Esta foi a minha grande aprendizagem na minha vivência para o Brasil. Aprendi a libertar-me das minhas enormes futilidades de outrora, a olhar para o próximo e a ter uma vida mais regrada. Não é moralismo, nem falsidade...é uma lição de vida que aconselho a todos vós!

sábado, 31 de março de 2007

Um abraço português

Dois temas musicais que retratam na perfeição, uma união entre Portugal e Brasil. A primeira música - O Brasil - remonta aos primeiros tempos dos Madredeus. Uma composição rítmica da autoria de Pedro Ayres Magalhães,feita após uma viagem ao Brasil em 1986. O segundo tema é um fado escrito por Vinicius de Morais para a diva Amália Rodrigues. "Saudades do Brasil em Portugal" é interpretado aqui por Gonçalo Salgueiro, um dos nomes da nova geração de fadistas. Dedico estes dois temas à minha blogamiga Sofia. Haja o que houver estaremos por aqui...

sexta-feira, 30 de março de 2007

BRASIL 2014


O Brasil decidiu avançar com a candidatura do país, como sede do próximo Mundial 2014. O sucesso do Europeu 2004 é apontado por todos como o grande modelo de referência a ser seguido.

"Portugal deu um exemplo, na Europeu 2004, de como um País com
uma população de 10 milhões de habitantes, e pequeno território, em
comparação ao Brasil, se pode organizar.
A Sociedade Euro 2004 S.A. foi responsável por 54,8% do capital.
A FPF (Confederação como a CBF) ficou com 40,2%. O Governo por
tuguês com 5%.
A construção de cinco novos estádios custaram R$ 2,3 bilhões, custo
que se dividiu entre a Sociedade Euro 2004 (12%), Clubes (47%), Go-
verno português (4%) e Câmaras Municipais das Cidades sedes
(37%).
Para os acessos aos estádios foram investidos R$ 275 milhões pelo Es
tado. Autocarros e Metro levaram os adeptos para todos os estádios.
A segurança mereceu um invstimento de R$ 43 milhões pelo Governo,
que adquiriu 400 viaturas e outras ferramentas.
Foi implementado um sistema de venda de bilhetes para os jogos via
INTERNET, com identificação do comprador e limitada a 4 bilhetes por
pessoa/jogo.
Foi arrecadado só em patrocínios com Empresas portuguesas,R$ 26,2
milhões.
A Federação da Europa, UEFA, arrecadou com a Euro 2004.... 589 mi
lhões de Euros ( 136% a mais que o torneio anterior em 2000 ).

INVESTIMENTOS EM ESTÁDIOS (valores em milhões de Euros) :
Europeu 2004 - Portugal = 620,4
-Dinheiro privado : 278,4 (44,8)
-Governo : 105 (17%)
-Prefeituras : 236 (38,2%)
-Estádios : 10
-Lugares : 377.427
Uma constatação :
A economia portuguesa é 4 vezes MENOR que a brasileira."


CAPITAIS FEDERAIS ENUNCIADAS PARA ACOLHER O TORNEIO:
Rio de Janeiro - Maracanã - 90 mil
São Paulo - Morumbi - 80 mil
Belo Horizonte - Mineirão - 90 mil
Porto Alegre - Beira Rio - 65 mil
Brasília - Mané Garrincha - 50 mil
Goiânia - Serra Dourada - 54 mil
Curitiba - Arena da Baixada - 30 mil
Florianópolis - Orlando Scarpelli - 30 mil
Salvador - Barradão - 45 mil
Belém - Mangueirão - 60 mil
Maceió - Rei Pelé - 45 mil
Fortaleza - Castelão - 80 mil
Recife - Arrudão - 60 mil

Ao nível das cidades escolhidas pelo comité organizador, discordo com duas ou três escolhas. A decisão ainda não foi tomada a nível definitivo, mas creio que a aposta em Maceió e Goiânia não são muito correctas. Tratam-se dse duas capitais federais que ficam claramente deslocadas das principais rotas aéreas internacionais e apresentam diminutos atractivos turísticos. Não querendo puxar a brasa à minha sardinha, creio que a escolha de Natal seria uma boa aposta. È o destino turístico que mais cresce no Nordeste brasileiro, o Estádio Machadão (40.000 lugares) está a ser alvo de profundas reformas que serão concluídas até ao final deste ano, existe uma rede hoteleira diversificada e esta é a cidade brasileira mais próxima da Europa e África. Contudo, apesar do Brasil ser o país do futebol, acredito que esta candidatura não terá grande sucesso. Os índices de criminalidade do país são muito elevados, a estrutura de transportes públicos é deficitária e grande maioria dos estádios necessita de amplas obras de melhoramento. Creio que a decisão final será tomada em Novembro deste ano e vamos ter esperanças que o Brasil seja bem sucedido nesta investida. Poderemos até pensar que existirão outras prioridades no país, mas de qualquer modo estes eventos constituem sempre um forte incentivo na economia.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Férias em Natal - Episódio 4


Natal, Quinta Feira - 05 Dezembro 2008, 21:30h

Primeira noite do Carnatal. O Ferreira providenciara convites para assistirem ao mais famoso carnaval fora de época do Brasil. Estavam num dos camarotes mais badalados, o barulho era infernal e fazia-se sentir um forte calor. Lá embaixo, no corredor da folia, desfilavam os tradicionais trios eléctricos que animavam os blocos e uma multidão multicolor pulava freneticamente.
Durante esse dia, tinham tido imensa dificuldade para convencer o Luís a acompanhá-los. Ele era bastante adverso a qualquer tipo de manifestação carnavalesca e a perspectiva de ficar muito tempo a olhar para um bando de foliões, não o motivava minimamente. Já eram decorridas quatro noites mal dormidas e ele preferia ficar no apartamento a descansar um pouco. No dia seguinte, iria-se encontrar com Patrícia e teria de estar com os sentidos bem despertos. No entanto, os amigos não lhe tinham dado tréguas durante horas e ele acabou por ceder. A festa tinha início relativamente cedo e o grupo acabou por não ter tempo para jantar. Escusado será dizer, que a ingestão de bebidas alcoólicas teve um efeito catastrófico bastante rápido. Entraram rapidamente no ritmo da folia, pulavam como uns doidos e transpiravam abundantemente. Até mesmo o Luís parecia ter esquecido Patrícia por alguns momentos e rodopiava sem parar com latas de cerveja na mão. Apenas o Lemos, se mostrava mais comedido nos movimentos porque ainda se encontrava bastante dorido pelo escaldão que apanhara na praia.

Por alturas da passagem do último bloco, o êxtase colectivo é interrompido por um alerta do Reis.
- Atenção pessoal! Olhem ali! O Fonseca já se orientou com uma gaja... - aponta num misto de admiração e inveja.
- Epá, sim senhor! Mas isto foi ela que se foi agarrar nele. De certeza absoluta - afirma o Ferreira céptico.
Num canto do camarote, o Fonseca beijava ferverosamente uma rapariga que aparentava ter uns vinte anos, de cabelo oxigenado e trajes diminutos. Ela nota que o grupinho observava o casal e acena com a mão na direcção de umas amigas que estavam próximas. Juntam-se todas, segredam, sorriem para os rapazes e avançam na direcção deles. A oxigenada pega na mão do Fonseca trôpego, que olha para os amigos com um sorriso de orelha a orelha.
- Oi rapazes! Os portugas estão gostando do Carnatal? - atira a oxigenada num tom atrevido.
- A festa está óptima! E vejo que o meu amigo já está acompanhado de uma bela rapariga - responde o Luís cheio de sorrisos.
- Rapariga foi quem te pariu, seu safado!!! - dispara ela em fúria.
Luís fica atónito com o tom agressivo da resposta e o Ferreira decide intervir para evitar um incidente diplomático.
- Calma! Desculpe meu amigo. Lá no nosso país, rapariga não é nada de mais. Ele não quis ofendê-la, minha querida. Tá certo?
- Ah,bom! E aí? A festa está acabando por aqui. Que vão fazer a seguir? - pergunta novamente a oxigenada.
- Hum...ainda não sabemos. Alguma ideia? - continua o Ferreira com malícia.
- Também não sei. Minhas amigas estão doidinhas para conhecer vocês. Podíamos fazer qualquer coisa legal - diz ela, olhando para as amigas que estavam junto dela.
- Vocês estão em algum hotel da Via Costeira? - pergunta uma das amigas que tinha um decote bem sugestivo.
- Não. estamos num apartamento lá em Ponta Negra - diz o Fonseca com a voz arrastada.
- Porque não vamos até lá? Que tal fazer uma festinha todos juntos? - atira a decotada provocante.
- Boa! Boa! - grita o Lemos.
- È isso mesmo. Até temos uma garrafa de champagne à nossa espera. Vamos embora? - avança o Reis eufórico.
- Calma...não sei se dá certo. O pessoal já bebeu demais, acabámos de nos conhecer...é meio estanho. - profere o Ferreira hesitante.
- Qual é portuga? Tá com medo da mulherada? Vamos curtir o resto da noite de um jeito bem gostoso - a oxigenada não desarmava.

Deixaram-se ficar por ali durante alguns minutos a conversar, fizeram-se apresentações rápidas, mas às tantas cada um deles já se tinha agarrado a uma delas. Trocavam-se alguns beijos, as mãos avançavam de forma insinuante e soltavam-se piadas brejeiras. Pouco depois, o grupo já procurava o carro nas imediações do recinto com o intuito de fazerem o caminho de casa. Durante o percurso, Luís liberta-se da sua parceira e faz sinal ao Ferreira para ele fazer o mesmo. O amigo deixa-se ficar um pouco para trás e nota algo de estranho no olhar de Luís.
- Ouve lá, não achas esta cena meio arriscada? - pergunta Luís receoso.
- Estás a pensar o mesmo que eu. Também estou a estranhar tanta facilidade...
- Eu não quero acordar amanhã debaixo de uma placa de cimento como os outros fulanos de Fortaleza, entendes?
- O que queres que eu faça? os outros três estão perdidos de bêbados e agora nem adianta fazê-los desistir. Olha ali o Fonseca todo atraçalhado com a loira - diz o Ferreira, apontando para o amigo que já estava encostado no carro.
- Que merda! Mais valia ter ficado em casa...isto cheira-me a esturro!
- Oxalá que não. Vamos pensar positivo. Estas malucas se calhar só querem mesmo uma noite de farra. Quem sabe?
- Pode ser que tenhas razão. Talvez seja hoje, que eu faço o meu vídeo caseiro - finaliza o Luís, caminhando na direcção dos outros.

Depois de conseguirem a façanha de enfiar dez pessoas dentro de um Fiat Palio, arrancam em direcção ao apartamento. Quando chegam ao acesso à garagem, o porteiro olha-os de modo desconfiado e abre o portão. Sobem em grande algazarra até ao 10ºandar, entram em casa, dirigem-se para a sala e ligam a aparelhagem. A música soava bem alto apesar de já ser tarde e o Fonseca ataca o frigorífico. Traz para a sala todas as latas de cerveja que restavam e a prometida garrafa de champagne. Continuavam a beber desenfreadamente, dançam com elas, beijam-se e as mãos avançam de modo cada vez mais ousado.
Entretanto, uma delas propõe uma sessão de strip-tease para os rapazes. O Luís vai até ao quarto buscar a sua câmera e a oxigenada vai para a cozinha. Tinha anunciado que iria preparar a caipirinha mais saborosa da região. Procura os condimentos necessários nos armários e enquanto isso, as restantes vão-se despindo na outra divisão de maneira lenta e sensual. Eles estão em delíro. Berram, riem e aplaudem. Elas vão atirando as peças de roupa para cima deles, provocam-nos e o Lemos também já se vai despindo de forma atabalhoada. Na sala iam-se misturando os odores da cerveja, dos cigarros e do suor.
A oxigenada surge da cozinha com uma bandeja com vários copos de caipirinha de aspecto delicioso. Distribui pelo grupo masculino. O Luís era o único que parara de beber. O seu estômago era sensível a misturas, receando vomitar. No entanto, depois da insistência da moça, aceita o copo e delicia-se com aquele néctar saboroso.
A sala parecia um forno, eles vão-se libertando das roupas e agarram as parceiras de ocasião. O Ferreira já se aninhava num dos sofás com uma delas quando sente uma ligeira tontura. A sua visão escurece e uma dormência sobre pelo seu corpo. Tenta olhar para o rosto da mulher e apenas vislumbra um vulto indistinto. Levanta-se aflito, esfrega os olhos e sente a sua cabeça andar à roda. As pernas perdem a sua firmeza e tomba no chão. A última imagem de que se recorda, foi ter visto o Reis passar junto dele em cuecas e meias.

terça-feira, 27 de março de 2007

Memórias do Lumiar


Janela da casa da minha avó, no Paço do Lumiar. Edifício do século XIX.

Pormenor da fachada de um dos vários palacetes do Paço do Lumiar. Este era pertencente à família dos banqueiros Espírito Santo.

Painel de azulejos (sec.XIII) na Quinta dos Azulejos, localizada nos terrenos pertencentes ao Colégio Manuel Bernardes no Paço do Lumiar.

Largo da Igreja do Lumiar (sec.XIII), com a fachada do Museu do Traje como pano de fundo.

Rua Direita do Paço do Lumiar. Um bom exemplo de alguns restauros que têm sido feitos em imóveis do bairro.

Capela de S.Sebastião (sec.XVII), no Paço do Lumiar. Necessita de urgentes obras de restauro.

O belo Parque Monteiro Mor, anexo ao Museu do Traje. Um óptimo lugar para relaxar um pouco, namorar ou lêr um bom livro.

Uma das poucas colectividades de bairro que resistiram à modernidade.

Azinhaga do Jogo da Bola - Paço do Lumiar

Este é um dos meus bairros preferidos de Lisboa. Aqui reside a minha avó e grande parte da minha família materna. Outrora foi local de residência da nobreza, facto comprovável pela existência de vários palacetes e aqui se localizava a zona rural da cidade, onde se cultivavam vários produtos que abasteciam os mercados da capital. Os anos foram passando, as urbanizações cresceram, o campo foi dando lugar ao betão, mas algumas áreas ainda conservam aquela magia de uma Lisboa de outros tempos. Aqui morei os primeiros dois anos da minha existência. Uns anos mais tarde, incentivado pelo meu avô, fui aprendendo a dar os meus primeiros pontapés numa bola e surge a minha paixão pelo Sporting, com as primeiras idas ao Estádio de Alvalade que fica logo ali ao lado. Doces memórias...

domingo, 25 de março de 2007

Parabéns Portugal!

A Selecção portuguesa de râguebi assegurou, ontem , pela primeira vez na história, a presença num Campeonato do Mundo. Apesar de ter sido derrotada ontem em Montevideu, ante o Uruguai (12-18), valeu a vantagem do jogo da primeira «mão» (12-5).
Os «lobos» asseguraram a última vaga no Mundial, a realizar em Setembro, onde serão os únicos amadores a participar. Nova Zelândia, Escócia, Itália e Roménia serão, então, os adversários a defrontar, inseridos no Grupo C da competição que decorrerá em França. Um exemplo para as modalidades profissionais!

sábado, 24 de março de 2007

Os Imortais


A partir de agora, prentendo publicar regularmente textos sobre alguns filmes que marcaram a minha vida. Dou início a este périplo com um filme português. Ao contrário de muitas pessoas, sempre me afirmei um forte defensor da nossa cinematografia nacional. È hora de deitar por terra todos os preconceitos existentes em relação ao cinema português e orgulhar-nos das películas que são feitas em Portugal.

Todos os anos, quatro ex-comandos (Joaquim de Almeida, Rogério Samora, Rui Unas e Joaquim Nicolau) combinam juntar-se, na companhia de quatro mulheres (Emmanuelle Seigner, Paula Mora, Ana Padrão e Carla Salgueiro) para comemorar os feitos de guerra e solidificar o espírito de grupo. Naquele Verão de 1985, fartos da "pasmaceira do país", decidem assaltar um banco. Joaquim Malarranha (Nicolau Breyner), um inspector da Judiciária em vésperas de se reformar, vai cruzar-se no seu caminho e, por ironia do destino, acaba a tocar guitarra na casa de fados de um deles. Um filme de polícias e ladrões, de heróis desempregados ou à beira da reforma, de sobreviventes e inadaptados. Um filme sobre uma certa necessidade de solidão masculina que as mulheres nunca irão compreender.

É sabido de todos (se não então passam a saber) que António-Pedro Vasconcelos é "O" reconciliador por excelência do nosso público com o seu cinema. A fórmula que segue é tão simples que devia envergonhar muitos pseudo-realizadores-artistas da nossa praça: saber contar uma história. Assim. Tão simples como isto. Daquelas que têm um princípio, um meio e um fim. Das que não se perdem em dissertações obscuras, com mensagens induzidas a meia-dúzia de indivíduos iluminados que seguem não uma cinefilia, mas algo mais abstracto. Como uma "cosa nostra" a que o comum espectador não pode ter acesso.
Não quero com estas palavras denegrir o chamado "cinema de autor". Apenas recordar aos nossos fazedores da sétima arte que esta, às vezes, deve servir a todos (de preferência sempre).
António-Pedro Vasconcelos foi o realizador do segundo filme português mais visto de sempre nos nossos cinemas. Refiro-me a "O Lugar do Morto", de 1984. Mas também "Jaime" (1999) se encontra nesse top, numa honrosa quinta posição. Melhor que ele só mesmo Joaquim Leitão, que vai alternando alguns filmes de digestão fácil (o primeiro lugar do top, "Tentação") com desastres de realização, vãs tentativas de clonar o modelo americano (o horrível "Inferno").
"Os Imortais" é uma adaptação de um livro assinado por Carlos Vale Ferraz, "Os Lobos Não Usam Coleira". Adaptação muito livre, conforme referiu o realizador, habituado a escrever os seus próprios textos originais. A história centra-se num dia fatídico, no Verão de 1985, numa reunião anual de um grupo de ex-comandos da guerra colonial, homens desadaptados ao actual estado de coisas do país. "Uma pasmaceira", como eles dizem. Depois do 25 de Abril, estes "desempregados da guerra", treinados desde muito cedo para matar e ser violentos, são obrigados a recorrer a comportamentos desviantes para dar algum sentido à sua vida. É então que decidem assaltar um banco.
Os imortais do filme são os actores Joaquim de Almeida, Rogério Samora, Joaquim Nicolau e... Rui Unas.
Exactamente. O apresentador de televisão na sua primeira experiência de representação no cinema. Unas sai-se muito bem, embora num papel que foi feito à sua medida, o de Vitor Pratas. Divertido, desenrascado e conciliador, é talvez o mais esperto e sobrevivente dos imortais.
O eixo da história roda muito em redor dos personagens interpretados por Rogério Samora (Horácio Lobo) e Joaquim de Almeida (Roberto Alua), sendo a interpretação de Joaquim Nicolau (Sérgio Mano) algo apalhaçada e com demasiados tiques.
No meio destes inadaptados vai surgir um investigador da polícia judiciária à beira de se reformar. É o personagem de Nicolau Breyner, único conhecedor dos intentos do grupo de ex-comandos.
Ao elenco juntam-se outros grandes nomes da nossa praça, como Alexandra Lencastre no papel da esposa amargurada de Roberto Alua, Maria Rueff em mais uma investida no cinema ( aqu i como filha do investigador Malarranha, papel de Nicolau Breyner), assim como Ana Padrão ou Carla Salgueiro.
Mas há também uma personagem feminina muito importante na trama policial de "Os Imortais". Nas reuniões do grupo de ex-combatentes é normal que cada um seja responsável por levar uma mulher, "para entreter". É aqui que entra Madeleine, uma mulher francesa que seduz Alua e vai ser a razão de todos os problemas. Esta mulher é interpretada, nada mais nada menos, que por Emmanuelle Seigner, actriz fétiche e casada com o realizador Roman Polanski.
Sem que se possa dizer que estamos perante uma interpretação do outro mundo, Seigner aguenta-se muito bem num papel em que tem de dar o corpo ao manifesto (literalmente).
Em suma, "Os Imortais" é filme que conseguiu entrar no top de bilheteira dos filmes . Uma história bem contada, bem montada, e com uma fotografia acima da média (de Barry Ackroyd, habitué do realizador Ken Loach).

Título Original: Os Imortais
País de Origem/Ano: Portugal (2003)
Realização:António-Pedro Vasconcelos
Elenco: Joaquim de Almeida
Nicolau Breyner
Rogério Samora
Rui Unas
Emmanuelle Seigner
Alexandra Lencastre
Ana Padrão...

sexta-feira, 23 de março de 2007

Areia Branca









Areia Branca é um dos municípios do Rio Grande do Norte, localizado a cerca de 320km da capital Natal, bem perto da divisa com o Ceará. A sua economia centra-se na extracção de sal marinho e alguma actividade portuária. Apesar de possuir belas e amplas praias, o turismo ainda se encontra relativamente subdesenvolvido, apresentando amplas oportunidades para os mais aventureiros. A grande concentração de veraneantes, dá-se por altura do Carvanal que é um dos mais animados da região. Sejam bem-vindos à Costa Branca.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Vamos jantar?



Numa das colinas de Lisboa, perto de jardins verdejantes e zonas de típica arquitectura, a fachada simples do Restaurante Clara encerra um espaço de calma e requinte onde se cruzam a melhor tradição e a necessária modernidade.
Além de uma variada cozinha - algumas vezes premiada - e de um serviço de superior qualidade, o Clara oferece uma espaçosa sala (aquecida no Inverno por uma acolhedora lareira), que se prolonga num aprazível jardim, sempre apetecido nos dias de calor.
Como alternativa, a gerência põe à disposição dos seus clientes um luxuoso bar, ideal para encontros de negócios, e uma sala privada para situações em que se requer maior intimidade.
Hoje apetecia-me reunir um simpático grupo de amigos, para um jantar e ficar horas a fio na conversa. Esta seria a minha escolha para este dia. Um excelente restaurante que tive o previlégio de conhecer na minha última viagem a Portugal. A simpatia, o charme e a arte de bem receber da sua proprietária Célia Pimpista são apenas um bónus para uma noite bem passada. Na impossibilidade de me deslocar até Lisboa neste momento, que tal ficarmo-nos por um brinde virtual?

Restaurante Clara
Campo Mártires da Pátria, nº49 - Lisboa

quarta-feira, 21 de março de 2007

Férias em Natal - Episódio 3


Na chegada a Natal, o quinteto de amigos acomoda-se no apartamento que o Ferreira costumava alugar na cidade, durante as as suas visitas de negócios. Ficava situado no turístico bairro de Ponta Negra, possuía uma ampla vista de mar, constituíndo o refúgio ideal para o descanso após as noitadas que pretendiam fazer. Contudo, logo na primeira noite, o Fonseca estranhara o facto de um dos quartos se encontrar fechado à chave. Ele espreitara pela fechadura e conseguiu enxergar uma secretária com muita papelada desordenada, um laptop e alguns aparelhos, cuja finalidade ele desconhecia por completo. Ao interrogar o Ferreira sobre o assunto, o amigo tentara contornar a situação, dizendo momentos depois que era a sua sala de trabalho e que os aparelhos eram de natureza médica. Uma representação comercial que tinha iniciado recentemente. O Fonseca estranhou um pouco, mas o assunto acabou por morrer ali.

Os primeiros dias em Natal decorreram da forma esperada. Muita praia, sol, passeios de buggy, uma visita ao Forte dos Reis Magos, algumas fotografias para a posteridade e muita cerveja para a tenuar o forte calor. Alugaram um carro e o Ferreira fornecera-lhes as coordenadas de orientação, já que este não os podia acompanhar sempre durante os dois primeiros dias, devido a alguns compromissos profissionais. As noite eram sagradas. Saíam invariavelmente para jantar junto à praia e empaturravam-se de marisco, regado a litros de cerveja. Depois do jantar iam em busca de caça feminina pela animada vida nocturna local. Vivia-se a estação alta brasileira e a cidade estava cheia de forasteiros em busca de sol e diversão. No entanto as deambulações nocturnas do grupo mostravam-se infutíferas em termos prácticos. Como sempre, o Luís era o mais afoito com as gajas e o Ferreira também revelava grande à vontade. Afinal de contas, aquela fora o seu território durante uns anos.
De facto, as brasileiras eram bastante extrovertidas e comunicativas. Eles conheceram e falaram com imensas durante aquelas noites. Por vezes o diálogo não era muito fluente, ora porque elas não entendiam muito bem o sotaque lusitano, ora o grupinho ficava meio embasbacado com as roupas ousadas que elas vestiam e faltavam-lhes as palavras. No entanto, algo estava a falhar. Falavam muito, riam, brincavam e nada de facturar! Na madrugada de terça-feira tudo parecia correr de feição para o Reis que se tinha agarrado a uma matulona loira. Passado um bom bocado, surge junto dos amigos esbaforido e com um ar assustado. Era um travesti! Qualquer coisa tinha de mudar na estratégia deles para obterem a glória desejada.

Na quarta-feira, à hora de almoço, o Ferreira lembra-se do convite que a Cinha Jardim lhes fizera no avião para a inauguração do bar do seu namorado. Ligou-lhe de imediato, cumprimentaram-se efusivamente e combinaram encontrar-se à noite para a festa de abertura do AMO.TE NATAL. Os amigos escutavam a ligação atentamente e mal ele desligou bombardearam-no com perguntas.
- Atão pá? Como vai ser? Há festança logo à noite? - disparou rapidamente o Lemos.
- Como foi? A gaja cortou-se? - perguntou o Fonseca receoso.
- Qual quê! A Cinha faz questão da nossa presença no evento. Somos convidados VIP - afirmou o Ferreira eufórico.
- Bom...esta noite temos de facturar! Chega de conversa da treta. As gajas que se cuidem esta noite - diz Luís com um brilho nos olhos.
- Devem estar estar lá vários fotógrafos das revistas sociais! Vamos chegar em Portugal e vamos ver as nossas carinhas larocas fotografadas ao lado do jet-set. Já imaginaram a cena? - disse o Ferreira, dando mais uma vez largas à sua faceta de pseudo-tio.
- Bah!Dispenso essa porcaria. Se a minha mulher vê isso estou frito! Ela compra essas revistas todas - reclamou o Lemos.
- Que se lixe! Esta noite é nossa, meu amigo. Vão lá estar resmas de gajas boas e seremos os reis da festa - acrescentou o Ferreira delirante.

Natal, Quarta-Feira - 04 de Dezembro de 2008 - 23:58h
Estava uma noite perfeita. O grupo tinha deixado os calções, as t-shirts e os chinelos de parte e vestiram as melhores roupas que tinham trazido na bagagem. Estavam todos muito bem penteados e perfumados, apostando num visual propício ao ataque do mulherio. Apenas o Lemos destoava um pouco, já que apresentava um valente escaldão do sol. Estava tão vermelho que mais parecia uma lagosta cozida.
A fachada do novíssimo AMO.TE NATAL estava iluminada por fortes holofotes e os convidados iam desfilando na entrada. Mal entraram, o Ferreira ficou algo desapontado com a lista de convidados. Para além dos anfitriões da noite, Pedro Miguel Ramos e Cinha Jardim, apenas marcavam presença, Fátima Felgueiras que desta vez tinha-se refugiado em Natal para se esquivar novamente da justiça portuguesa, Eládio Clímaco, o ex-treinador Quinito, o falido Artur Albarran, o Cônsul local e Ricardo Pereira que estava mais uma vez no Brasil para gravar a telenovela Um Portuga em Apuros nos Trópicos.
Passada a decepção inicial, os cinco amigos entusiasmaram-se com as beldades locais convidadas para a festa e atiram-se às bebidas da casa. Noites de bar aberto não aconteciam todos os dias. Posaram para algumas fotografias da praxe para gáudio do Ferreira e circularam alegremente pelo espaço. Por volta das duas da manhã, quando estavam reunidos em círculo, de copo na mão e em alegre cavaqueira, o Luís dá com os olhos numa morena dislumbrante. Ela tinha uns belos cabelos, olhar expressivo e dançava com uma amiga no centro da pista. Momentos depois, ela apercebe-se do olhar ostensivo de Luís, encara-o e sorri. Luís já não conseguia ouvir as conversas dos amigos e fica hipnotizado por aquele sorriso enigmático. As suas mãos suavam um pouco, mas decide arriscar. Pisca-lhe o olho e faz-lhe um discreto gesto com a cabeça na direcção do balcão. Precisava de se libertar dos companheiros e falar a sós com aquela mulher que o deixara electrizado. Aproveitado a chegada da Cinha junto do grupo com a sua histeria habitual, esgueira-se sorrateiramente para junto do balcão. Ela ao aperceber-se deste movimento, segreda qualquer coisa no ouvido da amiga e avança para perto dele.
- Olá! Tudo bem? Eu sou o Luís.
- Oi! Meu nome é Patrícia. Você não daqui, pois não?
- Não. Sou português. Estou aqui de férias com uns amigos. Um deles até já morou aqui.
- Nossa! Que legal! Eu desconfiei que você não era daqui. Pelo sotaque e pelo jeito da sua roupa - diz ela sorridente.
- Hum...você é linda, sabia? - atacou ele.
- Obrigada. Você também é um gato! Notei que você estava-me paquerando...
- Não consigo resistir a uma mulher bonita!

O diálogo entre os dois manteve-se nesta toada durante mais ou menos uma hora. Luís ignorava os gracejos e gestos que os amigos lhe faziam de longe e continuava a falar junto do ouvido de Patrícia. Apenas estranhou o facto do Ferreira já não estar junto dos outros. Avistava-o num canto, aos segredinhos com o Cônsul. Deviam ser negócios, pensou Luís.
Um pouco mais tarde, a amiga de Patrícia chega junto dela e diz que quer ir para casa. Ele apercebe-se que nessa noite continuaria a zero, mas tivera o previlégio de conhecer uma rapariga linda e no fundo nunca gostara muito de mulheres fáceis.
- Luís, sinto muito, mas tenho que ir embora. Tô de carona com a minha amiga. Você entende...
- Sim, claro que entendo. Mas gostaria de te ver antes de domingo. Amanhã, vou com os meus amigos espreitar o Carnatal. Você vai?
- Não vou. Não sou muito chegada em micaretas. Mas vou dar meu número pra você. Me ligue na sexta-feira para combinar qualquer coisa, tá?
- Está combinado! - responde Luís prontamente.
Patrícia anota o seu número de telefone num guardanapo, coloca na mão dele e despede-se com um suave beijo nos seus lábios. Luís deixa-se ficar por alguns segundos, encostado ao balcão. Sentia-se meio zonzo mas não era da bebida. Aquela mulher mexera com o seu íntimo e isso fazia-o sentir-se confuso. Volta para junto do grupo que estava morto de curiosidade.
- Quem era aquela brasa? - interroga o Reis.
- Linda, não é? Chama-se Patrícia, tem 27 anos e trabalha como guia turística. Vou sair com ela na sexta-feira. - atira Luís cheio de orgulho.
- Ai, se eu telefono à tua mulher é que está tudo estragado! E pensava que só gostavas de ibéricas, meu caro amigo - diz Ferreira trocista.
- Que piada! Atreve-te! E tu, o que contas? Passaste quase uma hora a cochichar com o Cônsul. Alguma coisa de interesse?
- Nada, nada...ele não me via há imenso tempo e estávamos a pôr a conversa em dia. Apenas isso...
- Tens a certeza? - insiste Luís ao notar a insegurança da resposta.
- Porra, agora já não posso falar com outras pessoas? Olhem, já são quatro da manhã e isto está quase vazio. Que tal irmos embora? - era notória a irritação do Ferreira.
O grupo despede-se dos anfitriões da festa, saem para a rua e rumam ao apartamento, lamentando-se por mais uma noite sem marcar pontos junto da ala feminina. Tanto trabalho e discussões para se libertarem das mulheres e nada de engates. Apenas Luís permanecia em silêncio e não reclamava de nada. Ele conhecera a "sua" Patrícia e ainda sentia o cheiro do seu doce perfume...mal podia esperar por sexta-feira.

Episódio 4 - Ainda é preciso dizer!?