
Lisboa, Sexta-Feira - 05 Abril de 2008, 14:20h
Luís encontrava-se no escritório e aproveitava alguns minutos de pausa para escrever algo no seu blogue. A sua concentração momentânea é interrompida pelo toque do seu telemóvel pousado em cima da secretária.
- Estou? - atende com voz de enfado.
- Olá Luís! È o Ferreira...onde é que andas?
- No trabalho, onde é que haveria de ser!? Pá, desde quando é que me ligas com um número confidencial?
- Ah,ah,ah! Desculpa, mas é um esquema com uma gaja que conheci a semana passada. Olha, estou a ligar para saber se vais ao jantar do Reis logo à noite. Não te baldes. È uma noite especial...
- Especial? Só se for pelo facto do Reis estar a comemorar o divórcio com a Sónia. Eu entendo-o perfeitamente! A gaja era uma trombuda do piorio. Fora isso, não vejo nenhuma diferença em relação aos outros nossos jantares mensais.
- Não...o jantar deste mês é diferente. O Reis despede-se de um pesadelo de quatro anos e eu estou com umas ideias para as férias da malta.
- Férias da malta? Depois da desgraça que aconteceu em Espanha, dispenso as férias em grupo. Além do mais, a minha mulher já está enjoada das nossas noitadas e falta-me coragem para me escapar novamente para umas férias com o pessoal. Mas peraí...para onde é que nos queres levar? Escuta, nem penses que me arrastas para o Brasil!
- Tem calma. Já conversei com o resto do grupo sobre isso. O Lemos topou logo, o Reis agora quer é festança depois do divórcio e o Fonseca ainda ficou a fazer contas de cabeça. Já sabes como ele é para gastar dinheiro.
- Eu não vou para o Brasil e ponto final! - vociferou Luís que já estava vermelho de raiva.
- Méne, vê lá se te acalmas! Já ouviste falar em Xanax? Logo à noite conversamos sobre isso. E depois do jantar, o que fazemos?
- Sei lá...talvez um strip-tease no Tamila. Já estou farto de rodar Lisboa inteira a fazer figuras tristes convosco.
- Boa ideia.
- Onde é que é mesmo o jantar? Apaguei o mail do Reis sem querer e esqueci-me do nome do restaurante.
- Na Berlenga. Fica na Baixa, pertinho da igreja de São Domingos.
- Certo. Acho que consigo encontrar. Vejam lá se não se atrasam muito como já é hábito. E esquece essas férias no Brasil, ok?
- Vai-te lixar. Mais tarde damos-te na cabeça.
- Brasil nunca! - gritou Luís, mas o Ferreira já tinha desligado para o provocar.
O Ferreira vivera alguns anos no Brasil, entretanto regressara a Portugal, mas mantinha alguns negócios do outro lado do Atlântico que implicavam viagens regulares. Luís já receava que mais tarde ou mais cedo, o amigo tentasse arrastar o grupo para umas férias nos trópicos. Ele já jurara a si mesmo que seria país onde nunca pisaria, pois tinha uma antipatia congénita em relação ao Brasil. Sabia antecipadamente que a maioria do grupo já deveria estar excitada com a prespectiva de uns dias cheios de sol, praia, bebedeiras e engates de ocasião. O jantar daquela noite prometia complicações para o seu lado.
Restaurante A Berlenga - Lisboa, 22:55h
O jantar estava animado, a comida estava óptima e o Reis em estado eufórico. Os amigos sentiam-se felizes ao ver o seu parceiro alegre com a liberdade recém conquistada. O Luís era o que se mantinha mais silencioso. Tivera um dia cansativo no trabalho e receava o momento em que as férias no Brasil viessem à tona nas conversas do grupo. Enquanto Luís pensava sobre isto, os empregados colocam os cafés e as aguardentes velhas em cima da mesa e, o Ferreira aproveita o final da refeição para tomar a palvra.
- Atenção pessoal! Já estamos no final do jantar e ainda não falámos sobre as férias no Brasil. Eu tenho uns assuntos a tratar por lá no final do ano e gostaria que me acompanhassem para uns dias de borga. Podemos ficar no apartamento que costumo alugar quando vou a Natal. O que me dizem? - Ferreira ostentava um sorriso entusiasta enquanto vigiava Luís pelo canto do olho.
- Eu já te disse que alinho - respondeu prontamente o Lemos - a vida de vendedor de automóveis não está fácil, mas faz-se um esforço, nem que eu tenha que fazer um empréstimo. Eu quero é gajas!
- Bom...eu ainda não tenho bem a certeza - respondeu o Fonseca. Bem sei que nunca te visitei quando moravas em Natal, mas fica um pouco caro e tenho que dar uma boa desculpa à minha mulher para ir ao Brasil.
- Eu estou no ir! È já a seguir, mas é que é já a seguir! Agora depois do divórcio quero é curtir a vida. Bastaram-me quatro anos seguidos a passar férias na casa dos meus sogros no Algarve - disse o Reis.
- E tu, Luís? Podemos contar contigo? Não posso acreditar que nos vais fazer essa desfeita- inquiriu o Ferreira na direcção do Luís que se mantinha sorumbático.
- Vocês estão é todos malucos! - respondeu Luís, não conseguindo disfarçar a irritação. Eu não tenho vontade de ir ao Brasil e ainda por cima tenciono trocar de carro no final do ano. Até já tinha ligado ao Lemos para saber uns preços...
- Pá, não fica assim tão caro. Estás é com má vontade! - atirou o Ferreira, aumentando o volume de voz.
- Sinceramente não vejo qual é a pidada. E acham que vai ser fácil convencer a minha mulher? Quando regressámos de Espanha, ficou duas semanas sem me dirigir a palavra. Ferreira, eu até entendo que gostes do Brasil porque já viveste lá, tens negociatas em Natal mas não contes comigo para essa cena - afirmou com clareza.
- Hum...ainda bem que falaste das nossas férias em Espanha. Eu não alinhei prontamente dessa vez? Sabes que sou um nacionalista ferrenho e que os espanhóis me causam urticária. E daí? Desisti de ir com o pessoal? - o Ferreira não desarmava facilmente.
- Porra pá! Queres-me obrigar a fazer uma coisa que eu não quero? E neste momento estamos três contra dois, porque o Fonseca ainda não confirmou nada de concreto.
O Ferreira não gostava dos momentos de tensão, que por vezes surgiam no seio daquele grupo de amigos e constatou que a questão tinha de ser resolvida naquele momento.
- Caro Fonseca...como é que é? Ou sim ou sopas! Alinhas ou não? Deixa de ser forreta. Qual é o teu problema? Estás com medo da tua mulher? Tens pena de perder algum jogo do Sporting em Alvalade? - Ferreira disparava na direcção do amigo indeciso.
- Ok, eu vou! A minha mulher vai-me moer o juízo, mas faço-o em nome da nossa amizade e para manter a união do grupo - murmurou o Fonseca, enquanto fitava a chávena de café na sua frente.
- Estás a ver, Luís? Quatro contra um - chutou Ferreira de modo triunfal.
- Deixa-te de merdas. Vai ser porreiro. O Ferreira conhece bem aquilo, há gajas com fartura e tens de admitir que aqueles dias em Espanha não correram muito bem - afirmou o Reis em auxílio do Ferreira.
- Vocês são tramados...e para quando seria isso? - perguintou Luís vacilante.
O Ferreira piscou o olho de modo cúmplice e passou a explicar o plano que traçara com antecedência.
- Bom, eu tenho de ir a Natal de Novembro a Dezembro para fechar uns negócios que tenho em vista. Deste modo, seria óptimo irmos na primeira semana de Dezembro por vários motivos. Aqui já faz frio, o tempo por lá está esplêndido, é a semana do Carnatal e a cidade estpá cheia de gajas boas.
- Nem penses! - ripostou o Luís. Em Dezembro estarei sobrecarregado de trabalho e gosto de fazer as compras natalícias nas calmas. E combinar uma viagem com estes cromos com esta antecedência? Duvido que dê certo...
- Por mim qualquer data está boa - disse o Lemos.
- Realmente, não é um mês muito apropriado para tirar férias mas acho que uma semana apenas não irá fazer diferença - acrescentou o Fonseca.
- Luís, ouve bem o que te digo. Tiras duas semanas neste Verão para ires para a praia com a tua mulher e depois vens para o Brasil com o pessoal nos princípios de Dezembro. È apenas uma semana e lá no Instituto nem irão dar pela tua falta. Por outro lado, todos nós vamos tirar uma semana ou duas de férias no Verão para agradar às nossas parceiras. Senão habilitamo-nos a ter a fechadura de casa trocada quando viermos do Brasil - argumentava o Ferreira sorridente.
- Este gajo pensa em tudo. Ès do caraças! - zombou o Reis.
- Não restam dúvidas que és Touro como eu. A tua teimosia acabou por me convencer. Já sei que vou ter um resto de Dezembro sobrecarregado de trabalho e também terei que me esmerar com a prenda de Natal deste ano para a minha mulher - disse Luís já convencido pelos argumentos do parceiro.
A harmonia voltou a reinar na mesa. O Ferreira levantou-se e deu um forte abraço em Luís. Aproveitando o ambiente de fraternidade, O Fonseca propôs um brinde, erguendo o seu balão de aguardente velha.
- Um brinde ao grupo dos cinco cromos da bola! - gritou entusiasmado.
- Do tipo, um por todos e todos por um? - troçou o Lemos.
Ergueram-se das cadeiras e brindaram à sua longa amizade e fazendo votos que as férias em Natal fossem recheadas de aventuras.
- Vai ser curtir à grande! - exclamou o Ferreira.
- Ui, imagino as figuras de urso! Já faz parte do ritual - ironizou o Luís.
Após pagarem a conta, fizeram caminho rumo à Av. Duque de Loulé. A celebração da libertação do Reis das garras da soturna ex-mulher ainda não tinha terminado. Alguns meses depois iriam estar em paragens bem distantes...
Episódio 2 - Como sempre, ás quartas-feiras. Um desafio às bloggers femininas. Quem se oferece para escrever o contraponto, desta hisória na versão feminina das esposas, namoradas e derivados deste grupo de machistas? Seria uma forma original de criar uma narrativa cruzada, que fizesse os leitores saltar de página em página...































