
Na chegada a Natal, o quinteto de amigos acomoda-se no apartamento que o Ferreira costumava alugar na cidade, durante as as suas visitas de negócios. Ficava situado no turístico bairro de Ponta Negra, possuía uma ampla vista de mar, constituíndo o refúgio ideal para o descanso após as noitadas que pretendiam fazer. Contudo, logo na primeira noite, o Fonseca estranhara o facto de um dos quartos se encontrar fechado à chave. Ele espreitara pela fechadura e conseguiu enxergar uma secretária com muita papelada desordenada, um laptop e alguns aparelhos, cuja finalidade ele desconhecia por completo. Ao interrogar o Ferreira sobre o assunto, o amigo tentara contornar a situação, dizendo momentos depois que era a sua sala de trabalho e que os aparelhos eram de natureza médica. Uma representação comercial que tinha iniciado recentemente. O Fonseca estranhou um pouco, mas o assunto acabou por morrer ali.
Os primeiros dias em Natal decorreram da forma esperada. Muita praia, sol, passeios de buggy, uma visita ao Forte dos Reis Magos, algumas fotografias para a posteridade e muita cerveja para a tenuar o forte calor. Alugaram um carro e o Ferreira fornecera-lhes as coordenadas de orientação, já que este não os podia acompanhar sempre durante os dois primeiros dias, devido a alguns compromissos profissionais. As noite eram sagradas. Saíam invariavelmente para jantar junto à praia e empaturravam-se de marisco, regado a litros de cerveja. Depois do jantar iam em busca de caça feminina pela animada vida nocturna local. Vivia-se a estação alta brasileira e a cidade estava cheia de forasteiros em busca de sol e diversão. No entanto as deambulações nocturnas do grupo mostravam-se infutíferas em termos prácticos. Como sempre, o Luís era o mais afoito com as gajas e o Ferreira também revelava grande à vontade. Afinal de contas, aquela fora o seu território durante uns anos.
De facto, as brasileiras eram bastante extrovertidas e comunicativas. Eles conheceram e falaram com imensas durante aquelas noites. Por vezes o diálogo não era muito fluente, ora porque elas não entendiam muito bem o sotaque lusitano, ora o grupinho ficava meio embasbacado com as roupas ousadas que elas vestiam e faltavam-lhes as palavras. No entanto, algo estava a falhar. Falavam muito, riam, brincavam e nada de facturar! Na madrugada de terça-feira tudo parecia correr de feição para o Reis que se tinha agarrado a uma matulona loira. Passado um bom bocado, surge junto dos amigos esbaforido e com um ar assustado. Era um travesti! Qualquer coisa tinha de mudar na estratégia deles para obterem a glória desejada.
Na quarta-feira, à hora de almoço, o Ferreira lembra-se do convite que a Cinha Jardim lhes fizera no avião para a inauguração do bar do seu namorado. Ligou-lhe de imediato, cumprimentaram-se efusivamente e combinaram encontrar-se à noite para a festa de abertura do AMO.TE NATAL. Os amigos escutavam a ligação atentamente e mal ele desligou bombardearam-no com perguntas.
- Atão pá? Como vai ser? Há festança logo à noite? - disparou rapidamente o Lemos.
- Como foi? A gaja cortou-se? - perguntou o Fonseca receoso.
- Qual quê! A Cinha faz questão da nossa presença no evento. Somos convidados VIP - afirmou o Ferreira eufórico.
- Bom...esta noite temos de facturar! Chega de conversa da treta. As gajas que se cuidem esta noite - diz Luís com um brilho nos olhos.
- Devem estar estar lá vários fotógrafos das revistas sociais! Vamos chegar em Portugal e vamos ver as nossas carinhas larocas fotografadas ao lado do jet-set. Já imaginaram a cena? - disse o Ferreira, dando mais uma vez largas à sua faceta de pseudo-tio.
- Bah!Dispenso essa porcaria. Se a minha mulher vê isso estou frito! Ela compra essas revistas todas - reclamou o Lemos.
- Que se lixe! Esta noite é nossa, meu amigo. Vão lá estar resmas de gajas boas e seremos os reis da festa - acrescentou o Ferreira delirante.
Natal, Quarta-Feira - 04 de Dezembro de 2008 - 23:58h
Estava uma noite perfeita. O grupo tinha deixado os calções, as t-shirts e os chinelos de parte e vestiram as melhores roupas que tinham trazido na bagagem. Estavam todos muito bem penteados e perfumados, apostando num visual propício ao ataque do mulherio. Apenas o Lemos destoava um pouco, já que apresentava um valente escaldão do sol. Estava tão vermelho que mais parecia uma lagosta cozida.
A fachada do novíssimo AMO.TE NATAL estava iluminada por fortes holofotes e os convidados iam desfilando na entrada. Mal entraram, o Ferreira ficou algo desapontado com a lista de convidados. Para além dos anfitriões da noite, Pedro Miguel Ramos e Cinha Jardim, apenas marcavam presença, Fátima Felgueiras que desta vez tinha-se refugiado em Natal para se esquivar novamente da justiça portuguesa, Eládio Clímaco, o ex-treinador Quinito, o falido Artur Albarran, o Cônsul local e Ricardo Pereira que estava mais uma vez no Brasil para gravar a telenovela Um Portuga em Apuros nos Trópicos.
Passada a decepção inicial, os cinco amigos entusiasmaram-se com as beldades locais convidadas para a festa e atiram-se às bebidas da casa. Noites de bar aberto não aconteciam todos os dias. Posaram para algumas fotografias da praxe para gáudio do Ferreira e circularam alegremente pelo espaço. Por volta das duas da manhã, quando estavam reunidos em círculo, de copo na mão e em alegre cavaqueira, o Luís dá com os olhos numa morena dislumbrante. Ela tinha uns belos cabelos, olhar expressivo e dançava com uma amiga no centro da pista. Momentos depois, ela apercebe-se do olhar ostensivo de Luís, encara-o e sorri. Luís já não conseguia ouvir as conversas dos amigos e fica hipnotizado por aquele sorriso enigmático. As suas mãos suavam um pouco, mas decide arriscar. Pisca-lhe o olho e faz-lhe um discreto gesto com a cabeça na direcção do balcão. Precisava de se libertar dos companheiros e falar a sós com aquela mulher que o deixara electrizado. Aproveitado a chegada da Cinha junto do grupo com a sua histeria habitual, esgueira-se sorrateiramente para junto do balcão. Ela ao aperceber-se deste movimento, segreda qualquer coisa no ouvido da amiga e avança para perto dele.
- Olá! Tudo bem? Eu sou o Luís.
- Oi! Meu nome é Patrícia. Você não daqui, pois não?
- Não. Sou português. Estou aqui de férias com uns amigos. Um deles até já morou aqui.
- Nossa! Que legal! Eu desconfiei que você não era daqui. Pelo sotaque e pelo jeito da sua roupa - diz ela sorridente.
- Hum...você é linda, sabia? - atacou ele.
- Obrigada. Você também é um gato! Notei que você estava-me paquerando...
- Não consigo resistir a uma mulher bonita!
O diálogo entre os dois manteve-se nesta toada durante mais ou menos uma hora. Luís ignorava os gracejos e gestos que os amigos lhe faziam de longe e continuava a falar junto do ouvido de Patrícia. Apenas estranhou o facto do Ferreira já não estar junto dos outros. Avistava-o num canto, aos segredinhos com o Cônsul. Deviam ser negócios, pensou Luís.
Um pouco mais tarde, a amiga de Patrícia chega junto dela e diz que quer ir para casa. Ele apercebe-se que nessa noite continuaria a zero, mas tivera o previlégio de conhecer uma rapariga linda e no fundo nunca gostara muito de mulheres fáceis.
- Luís, sinto muito, mas tenho que ir embora. Tô de carona com a minha amiga. Você entende...
- Sim, claro que entendo. Mas gostaria de te ver antes de domingo. Amanhã, vou com os meus amigos espreitar o Carnatal. Você vai?
- Não vou. Não sou muito chegada em micaretas. Mas vou dar meu número pra você. Me ligue na sexta-feira para combinar qualquer coisa, tá?
- Está combinado! - responde Luís prontamente.
Patrícia anota o seu número de telefone num guardanapo, coloca na mão dele e despede-se com um suave beijo nos seus lábios. Luís deixa-se ficar por alguns segundos, encostado ao balcão. Sentia-se meio zonzo mas não era da bebida. Aquela mulher mexera com o seu íntimo e isso fazia-o sentir-se confuso. Volta para junto do grupo que estava morto de curiosidade.
- Quem era aquela brasa? - interroga o Reis.
- Linda, não é? Chama-se Patrícia, tem 27 anos e trabalha como guia turística. Vou sair com ela na sexta-feira. - atira Luís cheio de orgulho.
- Ai, se eu telefono à tua mulher é que está tudo estragado! E pensava que só gostavas de ibéricas, meu caro amigo - diz Ferreira trocista.
- Que piada! Atreve-te! E tu, o que contas? Passaste quase uma hora a cochichar com o Cônsul. Alguma coisa de interesse?
- Nada, nada...ele não me via há imenso tempo e estávamos a pôr a conversa em dia. Apenas isso...
- Tens a certeza? - insiste Luís ao notar a insegurança da resposta.
- Porra, agora já não posso falar com outras pessoas? Olhem, já são quatro da manhã e isto está quase vazio. Que tal irmos embora? - era notória a irritação do Ferreira.
O grupo despede-se dos anfitriões da festa, saem para a rua e rumam ao apartamento, lamentando-se por mais uma noite sem marcar pontos junto da ala feminina. Tanto trabalho e discussões para se libertarem das mulheres e nada de engates. Apenas Luís permanecia em silêncio e não reclamava de nada. Ele conhecera a "sua" Patrícia e ainda sentia o cheiro do seu doce perfume...mal podia esperar por sexta-feira.
Episódio 4 - Ainda é preciso dizer!?































