
Natal, Quinta Feira - 05 Dezembro 2008, 21:30h
Primeira noite do Carnatal. O Ferreira providenciara convites para assistirem ao mais famoso carnaval fora de época do Brasil. Estavam num dos camarotes mais badalados, o barulho era infernal e fazia-se sentir um forte calor. Lá embaixo, no corredor da folia, desfilavam os tradicionais trios eléctricos que animavam os blocos e uma multidão multicolor pulava freneticamente.
Durante esse dia, tinham tido imensa dificuldade para convencer o Luís a acompanhá-los. Ele era bastante adverso a qualquer tipo de manifestação carnavalesca e a perspectiva de ficar muito tempo a olhar para um bando de foliões, não o motivava minimamente. Já eram decorridas quatro noites mal dormidas e ele preferia ficar no apartamento a descansar um pouco. No dia seguinte, iria-se encontrar com Patrícia e teria de estar com os sentidos bem despertos. No entanto, os amigos não lhe tinham dado tréguas durante horas e ele acabou por ceder. A festa tinha início relativamente cedo e o grupo acabou por não ter tempo para jantar. Escusado será dizer, que a ingestão de bebidas alcoólicas teve um efeito catastrófico bastante rápido. Entraram rapidamente no ritmo da folia, pulavam como uns doidos e transpiravam abundantemente. Até mesmo o Luís parecia ter esquecido Patrícia por alguns momentos e rodopiava sem parar com latas de cerveja na mão. Apenas o Lemos, se mostrava mais comedido nos movimentos porque ainda se encontrava bastante dorido pelo escaldão que apanhara na praia.
Por alturas da passagem do último bloco, o êxtase colectivo é interrompido por um alerta do Reis.
- Atenção pessoal! Olhem ali! O Fonseca já se orientou com uma gaja... - aponta num misto de admiração e inveja.
- Epá, sim senhor! Mas isto foi ela que se foi agarrar nele. De certeza absoluta - afirma o Ferreira céptico.
Num canto do camarote, o Fonseca beijava ferverosamente uma rapariga que aparentava ter uns vinte anos, de cabelo oxigenado e trajes diminutos. Ela nota que o grupinho observava o casal e acena com a mão na direcção de umas amigas que estavam próximas. Juntam-se todas, segredam, sorriem para os rapazes e avançam na direcção deles. A oxigenada pega na mão do Fonseca trôpego, que olha para os amigos com um sorriso de orelha a orelha.
- Oi rapazes! Os portugas estão gostando do Carnatal? - atira a oxigenada num tom atrevido.
- A festa está óptima! E vejo que o meu amigo já está acompanhado de uma bela rapariga - responde o Luís cheio de sorrisos.
- Rapariga foi quem te pariu, seu safado!!! - dispara ela em fúria.
Luís fica atónito com o tom agressivo da resposta e o Ferreira decide intervir para evitar um incidente diplomático.
- Calma! Desculpe meu amigo. Lá no nosso país, rapariga não é nada de mais. Ele não quis ofendê-la, minha querida. Tá certo?
- Ah,bom! E aí? A festa está acabando por aqui. Que vão fazer a seguir? - pergunta novamente a oxigenada.
- Hum...ainda não sabemos. Alguma ideia? - continua o Ferreira com malícia.
- Também não sei. Minhas amigas estão doidinhas para conhecer vocês. Podíamos fazer qualquer coisa legal - diz ela, olhando para as amigas que estavam junto dela.
- Vocês estão em algum hotel da Via Costeira? - pergunta uma das amigas que tinha um decote bem sugestivo.
- Não. estamos num apartamento lá em Ponta Negra - diz o Fonseca com a voz arrastada.
- Porque não vamos até lá? Que tal fazer uma festinha todos juntos? - atira a decotada provocante.
- Boa! Boa! - grita o Lemos.
- È isso mesmo. Até temos uma garrafa de champagne à nossa espera. Vamos embora? - avança o Reis eufórico.
- Calma...não sei se dá certo. O pessoal já bebeu demais, acabámos de nos conhecer...é meio estanho. - profere o Ferreira hesitante.
- Qual é portuga? Tá com medo da mulherada? Vamos curtir o resto da noite de um jeito bem gostoso - a oxigenada não desarmava.
Deixaram-se ficar por ali durante alguns minutos a conversar, fizeram-se apresentações rápidas, mas às tantas cada um deles já se tinha agarrado a uma delas. Trocavam-se alguns beijos, as mãos avançavam de forma insinuante e soltavam-se piadas brejeiras. Pouco depois, o grupo já procurava o carro nas imediações do recinto com o intuito de fazerem o caminho de casa. Durante o percurso, Luís liberta-se da sua parceira e faz sinal ao Ferreira para ele fazer o mesmo. O amigo deixa-se ficar um pouco para trás e nota algo de estranho no olhar de Luís.
- Ouve lá, não achas esta cena meio arriscada? - pergunta Luís receoso.
- Estás a pensar o mesmo que eu. Também estou a estranhar tanta facilidade...
- Eu não quero acordar amanhã debaixo de uma placa de cimento como os outros fulanos de Fortaleza, entendes?
- O que queres que eu faça? os outros três estão perdidos de bêbados e agora nem adianta fazê-los desistir. Olha ali o Fonseca todo atraçalhado com a loira - diz o Ferreira, apontando para o amigo que já estava encostado no carro.
- Que merda! Mais valia ter ficado em casa...isto cheira-me a esturro!
- Oxalá que não. Vamos pensar positivo. Estas malucas se calhar só querem mesmo uma noite de farra. Quem sabe?
- Pode ser que tenhas razão. Talvez seja hoje, que eu faço o meu vídeo caseiro - finaliza o Luís, caminhando na direcção dos outros.
Depois de conseguirem a façanha de enfiar dez pessoas dentro de um Fiat Palio, arrancam em direcção ao apartamento. Quando chegam ao acesso à garagem, o porteiro olha-os de modo desconfiado e abre o portão. Sobem em grande algazarra até ao 10ºandar, entram em casa, dirigem-se para a sala e ligam a aparelhagem. A música soava bem alto apesar de já ser tarde e o Fonseca ataca o frigorífico. Traz para a sala todas as latas de cerveja que restavam e a prometida garrafa de champagne. Continuavam a beber desenfreadamente, dançam com elas, beijam-se e as mãos avançam de modo cada vez mais ousado.
Entretanto, uma delas propõe uma sessão de strip-tease para os rapazes. O Luís vai até ao quarto buscar a sua câmera e a oxigenada vai para a cozinha. Tinha anunciado que iria preparar a caipirinha mais saborosa da região. Procura os condimentos necessários nos armários e enquanto isso, as restantes vão-se despindo na outra divisão de maneira lenta e sensual. Eles estão em delíro. Berram, riem e aplaudem. Elas vão atirando as peças de roupa para cima deles, provocam-nos e o Lemos também já se vai despindo de forma atabalhoada. Na sala iam-se misturando os odores da cerveja, dos cigarros e do suor.
A oxigenada surge da cozinha com uma bandeja com vários copos de caipirinha de aspecto delicioso. Distribui pelo grupo masculino. O Luís era o único que parara de beber. O seu estômago era sensível a misturas, receando vomitar. No entanto, depois da insistência da moça, aceita o copo e delicia-se com aquele néctar saboroso.
A sala parecia um forno, eles vão-se libertando das roupas e agarram as parceiras de ocasião. O Ferreira já se aninhava num dos sofás com uma delas quando sente uma ligeira tontura. A sua visão escurece e uma dormência sobre pelo seu corpo. Tenta olhar para o rosto da mulher e apenas vislumbra um vulto indistinto. Levanta-se aflito, esfrega os olhos e sente a sua cabeça andar à roda. As pernas perdem a sua firmeza e tomba no chão. A última imagem de que se recorda, foi ter visto o Reis passar junto dele em cuecas e meias.


































