
Há meses, escrevi aqui sobre todas as dificuldades que um estrangeiro pode enfrentar por estas paragens, assim como, o próprio preconceito que essa própria designação pode acarretar, num texto que suscitou muita polémica.
No entanto, após a conclusão de três anos de residência no Brasil, gostaria de reflectir um pouco sobre a face osbscura que a própria comunidade estrangeira acarreta consigo, numa mescla de comportamentos que me causa certa estranheza. Acredito que todos nós - eu próprio não fui imune a esse fenómeno - sofre uma espécie de deslumbramento inicial, que eu costumo designar por febre dos trópicos. Creio que a combinação de muito calor, uma vida relaxada e muitas mulheres disponíveis, se torna uma armadilha eventualmente fatal a médio prazo, para uma larga faixa de europeus. Não tenho por costume julgar os comportamentos e atitudes alheias, já que somos dotados do livre arbítrio. Porém, por ter sido fruto de uma educação rígida e conservadora, ainda fico perplexo com a falta de princípios e atitudes morais duvidosas.
Tudo isto a propósito de uma conversa informal que tive com um italiano há semanas atrás, que poderá servir como exemplo ilustrativo do tipo de
eurolixo que desagua por aqui. Vou-lhe dar o nome fictício de Francesco, 41 anos de idade e natural de Milão. Disse-me que as suas actividades profissionais em Itália estavam relacionadas com a indústria farmacêutica, era casado e pai de uma filha de dez anos, fruto desse mesmo matrimónio contraído há treze anos. Visita Natal pela primeira vez em Julho de 2006, na companhia de um grupo de colegas de trabalho. Fica automaticamente fascinado pela região e efectua a compra de um apartamento de imediato. Durante a estadia, conhece uma jovem de vinte e pouco anos e envolve-se com ela. De regresso a Itália, comunica à sua esposa, a intenção de se divorciar sem mais nem porquês e avança com a decisão de mudar rapidamente para o Brasil. Após a resolução de alguns problemas burocráticos no seu país, chega a Natal em Janeiro de 2007. Como seria de esperar, juntou-se de imediato com a mulher que conheceu durante as férias. Posteriormente,abriu dois bares que são geridos por ele e uma
boutique feminina para a sua companheira.
Tudo isto me foi relatado em tom humorado e coma maior das naturalidades. "Estava farto de viver exclusivamente para o trabalho e precisava de uma mulher fogosa na cama" - argumentou ele. Como se um casamento de treze anos e uma filha pudessem ser descartados como uns sapatos que não gostamos mais de usar. Ou será que eu sou um tipo antiquado?
Como referi, não me cabe a mim julgar os comportamentos de ninguém, mas a repetição deste tipo de histórias por parte de estrangeiros, causa-me uma certa apreensão. E este até acaba por ser um caso relativamente simples, porque existem outras situações que adquirem proporções absolutamente bizarras. E já nem vou referir, outro tipo de casos relacionados com crimes de lavagem de dinheiro e quadrilhas internacionais que procuram refúgio no Brasil para efectuar as suas operações, como também já tive oportunidade de referir em textos anteriores. No entanto, todas estes casos acabam por jogar contra nós e geram um certo preconceito da população local que associa os estrangeiros a vários tipos de comportamentos menos positivos.
Cada vez mais, chego à conclusão que o paraíso pode-se tornar rapidamente no nosso pior pesadelo, se não tomarmos as devidas cautelas. Acredito, que o Brasil é um país repleto de armadilhas e que se entranha na nossa alma, conduzindo-nos muitas vezes numa viagem sem retorno. Por vezes, com resultados desastrosos e irreversíveis...