quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A Febre dos Trópicos


Há meses, escrevi aqui sobre todas as dificuldades que um estrangeiro pode enfrentar por estas paragens, assim como, o próprio preconceito que essa própria designação pode acarretar, num texto que suscitou muita polémica.
No entanto, após a conclusão de três anos de residência no Brasil, gostaria de reflectir um pouco sobre a face osbscura que a própria comunidade estrangeira acarreta consigo, numa mescla de comportamentos que me causa certa estranheza. Acredito que todos nós - eu próprio não fui imune a esse fenómeno - sofre uma espécie de deslumbramento inicial, que eu costumo designar por febre dos trópicos. Creio que a combinação de muito calor, uma vida relaxada e muitas mulheres disponíveis, se torna uma armadilha eventualmente fatal a médio prazo, para uma larga faixa de europeus. Não tenho por costume julgar os comportamentos e atitudes alheias, já que somos dotados do livre arbítrio. Porém, por ter sido fruto de uma educação rígida e conservadora, ainda fico perplexo com a falta de princípios e atitudes morais duvidosas.

Tudo isto a propósito de uma conversa informal que tive com um italiano há semanas atrás, que poderá servir como exemplo ilustrativo do tipo de eurolixo que desagua por aqui. Vou-lhe dar o nome fictício de Francesco, 41 anos de idade e natural de Milão. Disse-me que as suas actividades profissionais em Itália estavam relacionadas com a indústria farmacêutica, era casado e pai de uma filha de dez anos, fruto desse mesmo matrimónio contraído há treze anos. Visita Natal pela primeira vez em Julho de 2006, na companhia de um grupo de colegas de trabalho. Fica automaticamente fascinado pela região e efectua a compra de um apartamento de imediato. Durante a estadia, conhece uma jovem de vinte e pouco anos e envolve-se com ela. De regresso a Itália, comunica à sua esposa, a intenção de se divorciar sem mais nem porquês e avança com a decisão de mudar rapidamente para o Brasil. Após a resolução de alguns problemas burocráticos no seu país, chega a Natal em Janeiro de 2007. Como seria de esperar, juntou-se de imediato com a mulher que conheceu durante as férias. Posteriormente,abriu dois bares que são geridos por ele e uma boutique feminina para a sua companheira.
Tudo isto me foi relatado em tom humorado e coma maior das naturalidades. "Estava farto de viver exclusivamente para o trabalho e precisava de uma mulher fogosa na cama" - argumentou ele. Como se um casamento de treze anos e uma filha pudessem ser descartados como uns sapatos que não gostamos mais de usar. Ou será que eu sou um tipo antiquado?

Como referi, não me cabe a mim julgar os comportamentos de ninguém, mas a repetição deste tipo de histórias por parte de estrangeiros, causa-me uma certa apreensão. E este até acaba por ser um caso relativamente simples, porque existem outras situações que adquirem proporções absolutamente bizarras. E já nem vou referir, outro tipo de casos relacionados com crimes de lavagem de dinheiro e quadrilhas internacionais que procuram refúgio no Brasil para efectuar as suas operações, como também já tive oportunidade de referir em textos anteriores. No entanto, todas estes casos acabam por jogar contra nós e geram um certo preconceito da população local que associa os estrangeiros a vários tipos de comportamentos menos positivos.
Cada vez mais, chego à conclusão que o paraíso pode-se tornar rapidamente no nosso pior pesadelo, se não tomarmos as devidas cautelas. Acredito, que o Brasil é um país repleto de armadilhas e que se entranha na nossa alma, conduzindo-nos muitas vezes numa viagem sem retorno. Por vezes, com resultados desastrosos e irreversíveis...

16 comentários:

Evelyne Furtado disse...

Oi, Capitão!
Concordo com você quanto a esse comportamento irresponsável que você chamou de Febre dos Trópicos. Mas não vejo meu país como armadilha. Os europeus que vêm para cá são adultos e ceveriam saber o que fazem. Da mesma forma, muitas moças saem daqui e caem em armadilhas na Europa. Os paises europeus podem ser armadilhas para algumas pessoas, mas não podemos generalizar.
Creio que os recebemos muito bem, mas é bom se precaver e saber com quem estão se relacionando. Uma precaução recomendável em qualquer lugar estranho.
Abraço.Valeu!

Miguel disse...

Também tenho essa ideia do Brasil ...!

Um abraço da M&M & Cª!

Teresa Durães disse...

tinha perdido este blog.... coisas... não li... sorry. Sim, era S. Martinho do Porto

beijos

Ana disse...

Adorei...

Eu regressei de São PAulo na 5a feira... Com toda a corrupção, violência, pobreza e falta de senso comum que encontrei aí, posso dizer que me apaixonei por esse povo, e estou ansiosa por voltar...

MSN: anagarcia69@sapo.pt

Mad disse...

Percebo (por já ter visto casos demais) que um homem se apaixone por este país ao ponto de largar vida, emprego e mulher pela primeira bunda que lhe aparece à frente, um apartamento barato à beira-mar e o apelo sempre sedutor de uma vida inteira de chinelos e bermudas. O que não percebo é como se deixa uma criança de 10 anos noutro continente sem se pensar duas vezes!

Evelyne Furtado disse...

VOLTEI !!!!!!!!!
para defender meu país, pois acho que sou a única brasileira aqui.
Gente, o Brasil é um país enorme e com sérias dificuldades, mas com muitas oportinidades e um povo, em geral, encantador. Nós brasileiros não vivemos de chinelos na beira-mar Nós trabalhamos, como qualquer povo. Somos um país sério, que porém cultiva a alegria. Bundas bonitas, temos muitas, mas não é disso que vivemos.
Espero ter ajudado a melhorar a imagem do meu país.
Beijos

TONY, Duque do Mucifal disse...

há tembém um grande aproveitamento da mulher brasileira. existe o sonho europeu.
bom post.
febre dos tropicos versus sonho europeu.

O Réprobo disse...

Meu Caro capitão-Mor,
o livre arbítrio significa a possibilidade de optar, por Bem ou Mal, não acarreta a abolição da Ética.
Para combater as condutas decepcionantes que o Meu Amigo elencou sugiro que se não deifique o trabalho. Este desempenhará uma função importante na medida em que permita subsistir sem prejudicar outrem. Mas, se posto nos píncaros, acarretará fatalmente reacções como a que narrou.
Abraço

Rui Caetano disse...

Ora, os tópicos estão cheiinhos destas maravilhas!!

Mel disse...

Capitão, não pega mal apenas para os estrangeiros, mas tbm para nós brasileiros , brasileiras principalmente, ou então não se falaria tanto do comercio sexual existente aqui. E assim acabam generalizando que TODAS as brasileiras são disponíveis, são fáceis e interesseiras no dinheiro de um estrageiro europeu que quer se casar para ter uma mulher fogosa na cama.
O Brasil encobre certamente muita ilegalidade, mas não todos os brasileiros que se deixam envolver... Infelizmente o que é passado para fora é essa fotografia do paraíso da falta de moral e de valores. Infelizmente.
Gostei muito do texto.

Peach disse...

aiii como estou desejosa que chegue o verão de novo.

Passei para te dizer que estou viva!

um beijo

(bad)

Magali disse...

bom, ninguém sabe o que se passa na cabeça de um ser humano. Talvez de fato esse homem precisasse de tal mudança, não sei....mas a liberdade de uma pessoa termina onde começa a de outra, e quando se trata de uma criança, a coisa se itensifica. As pessoas têm a obrigação de prezar pela integridade moral e física de toda criança e adolescente. Isto está claro no Estatuto da Criança e do Adolescente. é um caso clássico de abandono, onde fere-se a integridade moral da criança numa atitude absolutamente egoista. O italiano que me desculpe, mas um homem que age deste modo com alguém que carrega seus genes, não saberá transmitir um sentimento verdadeiro nem muito menos preservar com outra pessoa qualquer...Temo por esta nova companheira, caso esta esteja realmente envolvida.
No mais, é lamentável que existam estrangeiros piores do que esse homem descuidado, chegam com péssimas intenções aqui em Natal, alimentando o comércio de pessoas.
É incrivelmente raro, mas muito me agrada quando surge entre tantos "pobres de espírito", alguém lúcido que exponha e conteste o problema, como você o faz.

(qto ao seu coment. obrigada, mas no mínimo, o fim que escrevi impediria de fazer daquele meu texto um conto infantil...rs)

Maríita disse...

Bem, se alguém pendurar o dito cujo italiano pelos pepperonis tem a minha benção!

Filho não pede para nascer. Filho é para toda a vida. E só Deus sabe o que custa viver sem um progenitor por causa de uma situação dessas.

Cada qual é livre de escolher o seu caminho, como adultos até temos mais oportunidades de escolhas, mas deixar uma filha para trás, independentemente dos problemas com a mãe, é crime!

Breaking the Waves disse...

Há gente que não merece o "estatuto" de gente!!! (primeiro pensamento que me surgiu!!)

Cada um de nós é livre de escolher a vida que quer, com quem quer estar e viver, mas haja algum sentido de responsabilidade e respeito especialmente quando pelo meio estão crianças!!!

Infelizmente tem passado muito essa ideia do Brasil, mas é lógico que não se pode generalizar!

Sofia disse...

Capitão,
Fico feliz que tenha voltado ao blog. Fico triste ao perceber que a sua vinda para o Brasil não o satisfez completamente.
Abraços e FORÇA !

Rubina disse...

Se realmente deixou a filha para trás, sem mais nem menos, está mal. Agora todos temos o direito de começar de novo, e de tentar voltar a ser felizes, quando não estamos em relações que nos completem. Pode até ser essa a motivação inicial, mas nenhum homem deixa a mulher apenas por causa de sexo. Pelo menos não por muito tempo!