quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Blogsérie : O Clã - Episódio 1


Lisboa, Sábado – 08 Março de 2008, 18:00h

O Ferreira aguardava impacientemente pelos amigos, na porta principal do centro comercial Vasco da Gama. Aquele tinha sido o local de encontro escolhido para uma noite que se pretendia memorável. A lendária banda inglesa, The Cure, estava de passagem pela capital para um concerto no Pavilhão Atlântico e, logo que o evento foi anunciado, ele tratou de convencer os amigos a acompanhá-lo naquela noite tão especial. Quase todos eles tinham crescido ao som da banda de Robert Smith e, aquela parecia ser uma oportunidade de ouro para reaproximar o grupo. Após os estranhos acontecimentos na Quinta das Gárgulas, em Novembro do ano anterior, os cinco amigos tinham tido um inexplicável e gradual afastamento entre si. Os jantares rareavam e a maior parte das vezes, limitavam-se a ter breves conversas por telefone ou via internet.

Durante a semana, o Ferreira tinha conseguido resgatar uma antiga t-shirt da banda que se encontrava perdida numa gaveta. O passar dos anos não perdoava e ao vesti-la sentiu um ligeiro desconforto. Já não tinha o corpo dos tempos de adolescente e receava que ela se rasgasse com um movimento mais brusco, de tão apertada que estava. Porém, complementou o seu visual para a noite de sábado, com outras vestes pretas que encontrara no seu guarda roupa.
Cerca de vinte minutos após as seis da tarde, já estavam todos reunidos na entrada do centro comercial. A década de oitenta já estava bastante distante, mas ao entrarem na superfície comercial, vão-se cruzando com diversas pessoas trajadas de negro da cabeça aos pés. Aqui e ali, um ou outro clone do vocalista Robert Smith. Era uma daquelas noites, em que surge a interrogação sobre onde se escondem aqueles personagens durante o resto do ano.

Eles vão-se dirigindo para a área de restauração, com o intuito de fazer uma refeição ligeira antes do espectáculo ter início. Instantes depois, cada um deles ataca os seus sanduíches gordurosos e toma as primeiras cervejas da noite. Rapidamente, a indumentária do Ferreira se torna alvo de chacota por parte dos amigos.
- Pá, não tinhas uma roupa mais apertada para tazer? Porra, quase que não consegues respirar! – troça o Augusto Luís.
- Bem, pior mesmo é o cheiro a naftalina! – ajuda o Fonseca.
- Já agora, podias ter colocado uma sombra nos olhos e um pouquinho de baton vermelhos nos lábios... – acrescenta o Lemos, rindo.
- E se fossem todos à merda? – a irritação do Ferreira já se fazia sentir.
- Ok, deixem lá o nosso amigo em paz! Faz um tempão que não estamos juntos e desatamos a implicar uns com os outros? – avança o Reis apaziguador.
- Tens razão! Olhem, eu tenho um conhecido na empresa que está a organizar o concerto e o gajo ficou de me ligar no final – diz o Fonseca.
- Para quê? – interroga o Ferreira.
- Bom, ele pode-nos facilitar o acesso ao backstage ou dar-nos uma pista sobre o local para onde a banda irá beber uns copos depois do concerto.
- O quê? Não me digam que estão a pensar em andar em atrás desses gajos! Se fossem umas boazonas, eu até alinhava... – Augusto Luís não parecia entusiasmado com a idéia – Vocês parecem um bando de adolescentes!
- Vá, deixa de ser chato! Até pode ser divertido... – diz o Ferreira – Embora, eu duvide que nos deixem chegar perto deles...
- Hum...logo se vê. Vocês sabem que estou aqui por vocês, pois os meus ritmos são outros. De qualquer modo, no fianl, temos que dar uma voltinha para colocar a conversa em dia – Augusto Luís parecia mais benevolente.
- E se fôssemos andando para o pavilhão? – a impaciência do Ferreira era quase palpável – Eu gosto de curtir o ambiente destes dias.
- Vamos lá então! Hoje vamos ter uma noite em grande! – atalha o Fonseca com entusiasmo.

O quinteto de amigos circundou o recinto durante algum tempo. Com o aproximar da hora, a concentração de pessoas tornava-se maior. Abundavam as roupas pretas, cabelos eriçados e a maioria dos espectadores deveria oscilar na faixa etária dos 30 a 40 anos. Quase não se viam rostos imberbes de adolescentes pelas redondezas. Por fim, chega a hora de entrarem no pavilhão. O Ferreira e o Fonseca, arrastaram rapidamente os outros para as fileiras da frente, bastante próximas do palco. Ambos pretendiam seguir com atenção, todas as movimentações dos seus ídolos.
Durante o tempo de espera, o ambiente do grupo transformara-se totalmente. Conversavam, contavam piadas e riam alto. Afinal de contas, nada tinha mudado entre eles. A amizade mantinha-se sólida e continuavam a divertir-se muito quando estavam juntos. Passado um pouco, o Fonseca observa com atenção um pequeno grupo que estava bem próximo deles. Eram três rapazes e duas raparigas bastante altos que falavam uma língua indecifrável entre eles. Chamavam um pouco a atenção pelas suas roupas negras bastante extravagantes, mas acima de tudo pela extrema palidez dos seus rostos. De seguida, ele toca no ombro do Ferreira e segreda no seu ouvido:
- Já reparaste naquele pessoal que ali está?
- Qual é o problema? – pergunta o Ferreira, girando o pescoço na direcção deles.
- Há qualquer coisa de estranho neles...parecem um bando de defuntos! E o pior de tudo, é que estão fartos de olhar para aqui.
- Lá estás tu com as tuas paranóias! Já sabes que os góticos são todos esquisitos...e olha que aquelas duas até são bem interessantes.

Entretanto, a conversa dos dois é interrompida por um alarido geral. As luzes tinham-se apagado e ecoam os primeiros acordes no palco. No meio daquele alvoroço inicial, o Fonseca olha para o lado e sente um arrepio na espinha, ao ver uma das góticas a olhar fixamente para ele, esboçando um sorriso. Por breves segundos, ele pensou ter visto uns dentes caninos demasiadamente aguçados e um reflexo vermelho no olhar. Contudo, o Ferreira puxou-o ainda mais para a frente, fazendo-o esquecer o grupinho sinistro.
O concerto durou cerca de duas horas. Durante esse tempo, puderam reviver diversas músicas que os fizeram recuar no tempo. No final do espectáculo, saem lentamente do recinto e encaminham-se para as traseiras do pavilhão. O backstage fervilhava de movimento, com diversos técnicos da banda a prepararem-se para desmontar os equipamentos e prosseguir viagem pela Europa.
Fonseca aguardava o telefonema do seu amigo, enquanto os outros desfrutavam do ar fresco da noite. Ferreira estava sorridente e fumava sem parar. Instintivamente, o Fonseca olha para trás e fica estarrecido ao ver que o quintento de góticos os observa a curta distância. Entretanto, junto às vedações, ouve-se um grito:
- Fonseca! Fonseca! Podes trazer os teu amigos para aqui. O vosso acesso foi liberado...
Fonseca olha mais uma vez para trás, empurra os amigos para a frente e apressa o passo na direcção da área de backstage. O seu coração batia acelerado e olha para trás uma última vez. O grupo permanecia no mesmo local, olhando para eles...

Episódio 2 - Como sempre, às quartas-feiras...

16 comentários:

Capitão-Mor disse...

Cumpre-me acrescentar algumas notas a este primeiro episódio. Antes de mais, confesso que não resisti a narrar novas aventuras de Augusto Luís e Cª, personagens que já fazem parte da história deste cantinho e de certo modo verídicos. Daqui a algusn meses talvez me arrisque a escrever outro tipo de história...

O tema dos Cure apresentado, intitula-se "All cats are Grey" - subliminar homenagem ao Réprobo - que consta no genérico final do magnífico filme Maria Antonieta.

E já agora, quem sabe se não irei viver algumas destas emoções, daqui a poucos meses, no Pavilhão Atlântico?

Abraço a todos!

blackstar disse...

Eles voltaram... E há góticos à mistura... huuum! O Ferreira anda um bocadinho mau feitio e o Fonseca medricas, não? ;)

Maríita disse...

Obrigada! Adorei!

Que saudades dos meninos e das suas tropelias!

Beijinhos

P.S. - Vai mesmo tirando a T-shirt da naftalina, mesmo apertada vais precisar dela a 8 de Merço!

Cristina disse...

Dentes caninos?! lol

God... onde é que isto vai parar?! Gostei imenso, Capitão ;)

Kiss

TONY, Duque do Mucifal disse...

o mais engraçado é que amanha vou ver o filme "Control" (filme sobre a vida do Ian Curtis)e sabado vou ter uma festa temática. O tema é sobre os anos 80. Temos de ter roupa da epoca e som da epoca.
Lá em casa tenho Delfins,GNR, Ban, Clash, Pistols e Ramones.
Boa onda!

Tati disse...

É sempre bom ler algo totalmente inesperado e desconhecido.... Estou muito curiosa mesmo para ver como essa série se desenrolará...
E como respondo lá na Jeca, a próxima é nossa, hein???

Abraço!

freemind disse...

Boa!
Vamos lá a ver onde a companhia de artistas nos leva desta vez.

O Réprobo disse...

Meu Caro Caputão-mor, muitíssimo obrigado pela dedicatória musical desta prometida «História Extraordinária». Sendo da noite não poderia faltar a indistinta "pardacência" dos bichanos. Estou ávido de seguir a continuação.
Abraço muito amigo, exultamte pela retoma do Ficcionista

Peach disse...

obrigada pelas tuas palavras carinhosas. voltarei para comentar com calma

beijo grande

marta disse...

Vampiros?

Ufff!

Boa retoma!
Gostei muito.

SM disse...

Sera que não podiamos assinar nenhuma petiçao para aumentar a periodicidade dos episodios ?!?

Aguardo pela continuação !!!

Beijocas

Gi disse...

Vejo que os nosso amigos voltaram à aventura. Para saberes mais dos góticos e para não meteres tudo no mesmo saco aconselho-te a leres o blogue do klatuu

http://gothland666.blogspot.com/

para além da informação podes ver também alguns dos textos mais bem escritos desta blogosfera.

Um beijinho

Gil disse...

Sim sr...uma história de afiar o dente..o que vais daqui agora?abraço :)

AnadoCastelo disse...

Ena, mais uma história. Só que estou em suspense até à próxima quarta.
Bjs

LoiS disse...

Goticos à parte quem sabe se não nos juntamos todos mesmo efectivamente para a ida ao concerto. Avisa é com tempo não sei como estamos de bilhetes!

Sangue nisso rapaz!

Gun Clubber disse...

Boa escolha musical, sim senhor :D.
Vim parar a este blog ao deambular pela net à procura de informação sobre o Palácio Burnay, anterior casa do meu ISCSP.
Tal como o autor deste blog sou ISCSPiano, colheita de 2003.



Um abraço ISCSPiano.