quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Blogsérie: O Clã - Episódio 5



Estoril - Domingo, 09 de Março 2008 - 15.00h
O grupo estaciona o jipe junto ao forte. Olham em redor. Convinha que não fossem vistos por ninguém, carregando todo aquele aquipamento. Por sorte, naquela tarde de domingo, parecia haver pouquíssimas pessoas a passear por ali. Conforme o combinado, saem rápidamente da viatura e descem pelos rochedos que ladeavam o edifício. Segundo a planta, existia uma pequena porta lateral que lhes poderia facilitar a entrada. Fruto de uma adolescência conturbada, o Lemos, estudou a fechadura. Com o auxílio de um simples grampo, consegue abrir a porta com facilidade. Entrem pé ante pé. A visibilidade era muito pouca e sentem um forte cheiro de humidade e maresia invadir-lhes as narinas. O padre Amaro avança na frente, murmurando algumas orações. Subitamente, ouvem um estrondo atrás deles. A porta fechara-se misteriosamente. Um mau pressentimento invadiu a mente de todos eles. O Paulo, Augusto Luís e o Lemos empunhavam os revólveres com as mãos trémulas. O Fonseca e o Reis preferiram utilizar as bestas. O Ferreira desembaínhara a sua longa espada. O padre Amaro mantinha-se na liderança, segurando um crucifixo e com uma besta na outra mão. Nas costas, carregava uma mochila que continha estacas de madeira, um martelo e uma garrafa com água benta. Todos eles traziam colares feitos com cabeças de alhos.

Prosseguem a marcha por um corredor estreito e mal iluminado. Mais na frente, desembocam num salão amplo. No meio, encontram seis caixões dispostos em forma de círculo. Aproximam-se cautelosamente. Quatro deles, estão vazios. Nos outros dois, dois vampiros dormiam profundamente. Um deles, ainda tinha marcas das queimaduras de água benta, aplicada pelo padre na noite anterior.
- Depressa! Vamos cabar já com estes dois! - diz o padre em voz baixa.
Abre a mochila, tira as estacas e o martelo. Aproxima-se da primeira urna, coloca a estaca na direcção do coração do vampiro e martela com toda a força. Ouve-se um guincho abafado e solta-se um jacto se sangue que suja o rosto do padre. Logo depois, avança para o outro caixão e repete os movimentos.
- Afinal de contas, caçar vampiros é canja! - sopra o Reis.
- Calma rapaz! Isto vai ser mais complicado do que eu pensava. Quatro deles estão escondidos por aí e já devem ter detectado a nossa presença - diz o padre, olhando em volta com o semblante carregado.
Lá fora, o sol brilhava com intensidade. Vantagem para eles. Os vampiros não conseguiriam persegui-los nem retaliar na sua máxima força. O grupo prossegue a sua marcha no interior da fortaleza. Entrem num segundo salão. Sentem uma aragem fria percorrer-lhes o corpo. Ouvem um farfalhar de tecido. Numa fracção de segundos, surgem-lhes os quatro vampiros pela frente. Dois homens e duas mulheres, envergando longos casacos negros. Os olhos avermelhados faíscavam de ódio. Cercaram os invasores como uma onda, apesar da inferioridade numérica.

Ferreira, empossado do espírito de seus ancestrais, perdera o medo. Uma voz rouca soprava no seu ouvido. A espada. Use a espada com firmeza. Ferreira empunhava a arma cortante com as duas mãos. A vampira que o tentara seduzir na noite anterior, correu na sua direcção. Ferreira recuou o pé de apoio e ergueu a espada. Respiração contida. Desenhou um arco para a frente. A vampira não conseguiu alcançá-lo. A cabeça foi ao chão; o corpo cambaleou. Recuperou o equilíbrio e caminhou até bater contra a parede. A decapitação causou certo impacto. Fora uma injecção de confiança no grupo.
O vampiro mais alto estava enfurecido e urrava, fazendo as paredes estremecer. Cabelos compridos amarrados para trás e feições grotescas. Fonseca dispara a sua besta, mas a estava desfere uma curva e estilhaça-se contra a parede. O vampiro ri, mostrando as suas presas pontiagudas.
- Como ousam, simples mortais, invadir o nosso covil? - pergunta numa voz cavernosa - Admiro a vossa valentia, mas podem dizer adeus às vossas vidas miseráveis!
- Viemos em nome de Deus! A sua vontade é soberana! - fritava o padre Amaro.
- Ao longo dos séculos ninguém me conseguiu derrotar! Vou-me sacirar com o vosso sangue pobres mortais! Lacatus será rei e senhor destas terras...
De forma decidida, o padre Amaro avança para o vampiro, erguendo o seu crucifixo. A criatura solta um rugido ensurdecedor, agarra o pescoço do padre e arremessa-o para longe, deixando-o desacordado.
- Porra, e agora? Estamos tramados! - gritava o Reis, em desespero.
- Agora resta-nos combater e acabar com estes cabrões! - atira Augusto Luís.
- È isso mesmo! Um por todos e todos por um! - diz o Paulo, parafraseando os célebres mosqueteiros.

Formam um círculo apertado e vão disparando as suas armas, na ânsia de atingir os adversários. As balas de prata faziam ricochete nas paredes grossas. Estacas de madeira voavam em todas as direcções. Os vampiros pareciam divertir-se com a situação e encenavam um estranho bailado. Passavam perto deles como assombrações e desferiam-lhes golpes no corpo. O Ferreira desferia golpes de espada ao acaso, totalmente desorientado. Os vampiros tinham-se transformado em vultos. Entretanto, Augusto Luís viu quando um dos vultos se tornou mais visível. Apontou a pistola e disparou. Uma bala de prata atinge o ombro da criatura.
O vampiro arqueou o corpo e desviou-se dos disparos seguintes. Sorriu. Grunhiu, mostrando os dentes. Augusto Luís tremeu. Um vampiro poderoso na sua frente. Colocou a mão no pescoço e desprendeu o próximo truque. Flexionou os joelhos e desceu o quadril abaixo do quadril do adversário que já lhe aplicava uma gravata. Com o traseiro, somado a uma potente cotovelada, surpreende o vampiro que folgou a gravata. Depois finalizou o golpe. Ergue a mão livre, agarrando o opositor pela gola. Todas as forças somadas e sincronizadas fizeram o vampiro voar por cima dele.
- Ippon! - grita Augusto Luís, vitorioso.
Em acto contínuo, enfiou o seu colar de alhos na boca do vampiro, que parecia sufocar. O Reis aproxima-se e dispara uma estaca no coração da criatura que se debaria no chão.
- Toma!!! Pessoal, vamos virar o jogo! Já só faltam dois - grita o Reis, em delírio.

Restava o líder Lacatus e a vampira ruiva. Eles pareciam menos confiantes. Aquela baixa causara danos morais. Ferreira avança decidido e tenta atingir a vampira com golpes de espada. Na outra extremidade do salão, Paulo corria e disparava a arma ao mesmo tempo, não se apercebendo do vulto que se atravessava na sua frente. Leva um encontrão. Perdeu o equilíbrio e a arma. Sente um forte pontapé nas costelas. Lesão grave. Costelas partidas. Lacatus, possuídor de velocidade vampírica, salta para cima dele. Perdição! Um urro de dor e Lacatus tomba para o lado com uma estaca cravada numa coxa. Nas proximidades, o padre Amaro recuperara os sentidos e disparara a sua besta na direcção de Lacatus que se preparava para aniquilar o Paulo.
- Malditos! Quem pensam que são? Não ecaparão com vida! - sibilava Lacatus.
Ferreira partiu para cima do vampiro, mirando o seu pescoço. A espada cortou o vazio. Lacatus tornara-se sombra e já estava do outro lado, aplicando-lhe um golpe nas costas. A dupla de vampiros parecia recuperar terreno. O padre Amaro atravessa o salão em fúria, despejando água benta em todas as direcções. Num canto, ouve-se um fervilhar e um uivo lancinante. A vampira fora atingida pelo líquido abençoado. Tornou-se mais visível. Fonseca faz pontaria com a besta na sua direcção. Desta vez não podia falhar. Só lhe restava uma estaca de madeira. Disparo certeiro. O projectil atravessa o corpo da vampira, fazendo-a desfalecer no chão.

Restava o poderoso Lacatus. Desta feita, o grupo tentou montar um cerco ao vampiro. Repentinamente, o Lemos é atingido na face. Cai de joelhos, sangrando abundamentemente. Na ânsia de recuperar forças, Lacatus lança-se sobre ele com a intenção de se abastecer de sangue humano. Numa atitude ousada, o padre Amaro atira-se para cima do agressor. Uma luta selvagem. Lacatus parecia levar vantagem. A sua força era sobrenatural. Ainda assim, o padre estica o braço e consegue colocar o crucifixo na boca de Lacatus. Um grito de dor. No meio da confusão, o Lemos agarra uma estaca do chão e crava-a com a sua própria mão, no coração do líder dos vampiros.
O rosto de Lacatus estava transfigurado. O Ferreira surge por detrás dele e aplica-lhe o golpe de misericórdia, decepando-lhe a cabeça com a espada. A batalha chegara ao fim. O padre Amaro estava bastante maltratado, evidenciando diversos ferimentos no corpo.
Em segundos, os corpos dos vampiros tinham-se tranformado em cinzas. Apesar de extremamente cansados, sujos e feridos, saíram todos do forte, felizes e com a sensação de missão cumprida. Pela primeira vez na vida, tinham encarnado o papel de verdadeiros heróis.
As horas seguintes, foram passadas nas urgências do Hospital de Cascais. Um pouco mais tarde, a João e o seu amigo Matias juntaram-se solidariamente a eles. Mal conseguiam acreditar no que o grupo lhes ia relatando. Uma brava dança dos heróis!

FIM

9 comentários:

Gi disse...

Caramba Capitão. Que história mirabolante. Que carnificina. Que valentes os nossos heróis :)

Tempos houve (tantos que não me lembro) que era fã de filmes de vampiros, terror ... enfim , tudo o que fizesse a adrenalina subir até aos píncaros. Agora já não tanto mas vê-los aqui nesta aventura até que foi curioso. Acho que voltei atrás no tempo também :)

Um beijinho e BOM ANO.

Evelyne Furtado disse...

Ufa!!!!!
Que corajosos! Adorei esses heróis!
Continue , Capitão. Você é bom nisso.
Bjs e um Ano Novo pra lá de bom!

O Réprobo disse...

Nunca pensei gostar tanto de uma besta! Jamais voltarei a dizer mal das que se cruzem comigo!
Aqui entre nós, podia não ter omitido o que o médico disse ao Ferreira e ao Paulo: "Vocês os dois não têm nada de grave, a não ser para a valência de Psiquiatria: estão muito afectados pelo choque de não terem aproveitado bem as Vamps".
E com esta inconfidência me vou, não sem antes O abraçar pelo relato, Meu Caro Capitão-Mor; e não prescindindo de fazer uma vénia profunda à audiência das aventuras que encenámos.

Peach disse...

bem.........

assim que entrei assustei-me! lollll

depois ao ler o texto, até parecia que o estava a viver!

fantastico! ehehehe

beijos

AnadoCastelo disse...

Bemmmm quando precisar de caça vampiros já sei onde ir procurar. Ihihihihih
Adorei. Acho que deves pensar seriamente em escrever um livro. Que tal?
UM BOM ANO para ti também
Bjs

Isabel disse...

Olá capitão-mor, vim aqui pela primeira vez e que adorei.
Já não sei como vim cá parar mas sei o que me despertou de imediato a curiosidade, o facto de seres Português e viveres no Brasil porque eu estou prestes a tomar a mesma decisão.
Vou assim que puder, certamente até Abril ou Maio viver para Arraial da Ajuda na Bahia.
Gostava de saber mais coisas da tua decisão e do teu balanço de vida aí mas isso tornaria este comentário demasiado extenso, há mil coisas que gostaria de te perguntar.
Se te apetecer envia-me um mail para que eu possa matar a minha curiosidade se não eu vou aparecendo para ler as tuas aventuras, as verdadeiras e as ficcionadas.

Abraço,

Isabel

Gil disse...

No fundo, o que querias dizer, é que os betos da "linha" são uns vampiros, lol!

marta disse...

Pelo menos foram muito bem caçados.
Bem contado, muito bem contado.

Gostei.

Anónimo disse...

Boa boa boa !!!

Os bons ganharam e os maus morreram todos ... pessoalmente gosto de fins mais fora do comum ;-) ... mas dada a época festiva ... Bravo Capitao !!!

Beijocas grandes
SM