segunda-feira, 17 de março de 2008

Falta de Chá


Por diversas vezes, foi-me dito que a minha vida por aqui poderia ser mais facilitada caso eu tivesse uma maior abertura e convívio com a elite local, próxima dos círculos de poder. Admito que sempre tentei o caminho inverso com evidentes danos pessoais. Se em Portugal, eu já tinha notórias dificuldades de relacionamento com as pretensas elites emergentes, essa lacuna agravou-se nestas paragens, onde os gestos e atitudes dessa classe social possuem um mau gosto redobrado. Evito frequentar certos locais, nunca aprofundei laços de amizade com certas figuras que me foram apresentadas e sempre que posso recuso convites para festas, das quais aponto os aniversários de quinze anos como as celebrações mais aberrantes que certamente ofenderiam a elegância dos bailes de debutantes de outros tempos.

Não poderei aprofundar uma análise sobre a alta sociedade brasileira, visto que o meu conhecimento é circunscrito a uma região. No entanto, este fim de semana fiz uma incursão por este universo, ao aceitar o convite para o casamento da filha de um importante empresário da cidade. Nestas ocasiões revelo-me um homem de poucas falas e prefiro assumir o papel de observador. Logo ficou evidente que, todo aquele ambiente me iria proporcionar uma noite de tédio. A maior parte das senhoras ostentava uns modelitos de gosto duvidoso e o exagero cénico da festa, pareceu-me uma celebração de um novo riquismo pavoroso.
No evento estavam presentes diversos empresários e políticos do estado e ficou claro que existiam diversas categorias de convidados de acordo com a sua influência. Convém clarificar que estas críticas não se fundamentam neste caso pontual. Infelizmente, são fenómenos que tenho vivido e presenciado com uma regularidade impressionante. Isto faz-me concluir que gosto desta terra essencialmente pela sua beleza natural, o clima estupendo e uma certa sensação de liberdade. Lamento não possuir a mesma opinião em relação a grande parte das pessoas que conheci até ao presente momento. Longe de mim, querer insinuar qualquer tipo de sentimento de superioridade. Apenas não me consigo identificar com atitudes que diferem completamente dos valores e princípios que regem a minha vida.

Torna-se impossível identificar-me com um padrão de sociedade onde as pessoas valem o dinheiro ou o peso político que possuem. Uma região que não valoriza o mérito nem a inteligência, preferindo-se enveredar por um bairrismo bacoco e um certo feudalismo moderno, onde prevalecem os nomes das famílias influentes que controem uma muralha invisível ao seu redor. Não é por acaso que se diz por aqui que só é bem sucedido quem tem QI. Desenganem-se aqueles que pensam que me refiro a percentuais de inteligência. Falo-vos antes das siglas de QUEM INDICA. Poderei ser mais claro?
Sou totalmente incapaz de me integrar em círculos onde a maioria das conversas são fúteis e, onde fica sempre explícita a rejeição de visões diferenciadas e o preconceito em relação aos forasteiros. Ainda sou menos tolerante com faltas de educação que merecem um simples virar de costas. E acreditem que não estou a exagerar. Como seria que vocês reagiriam se fossem expulsos de forma subtil pela irmã da noiva da mesa para a qual tinham sido convidados pelo próprio patriarca da família e estando acompanhados de uma prima dela?
Talvez por mera coincidência, uns vinte minutos depois, a minha cadeira era ocupada por um iminente secretário estadual. Não necessitarei referir que não demorei muito no recinto da festa, não fosse a minha presença incomodar alguém pela minha falta de notoriedade.

O mais irónico de tudo é que normalmente sou apelidado de preconceituoso e elitista. Assim sendo e, partindo esses adjectivos deste tipo de pessoas, passarei a ter muito orgulho nessas minhas características.
Aliás, vai-me parecendo que esta minha passagem pelos trópicos talvez se aproxime do seu final. Afinal de contas, não se pode viver exclusivamente de paisagens e isolado da convivência social. Acredito que por vezes, talvez me tente enganar a mim próprio ou talvez seja um eterno sonhador. Por muito pardacenta que a realidade portuguesa me possa parecer, as nossas relações sociais ainda se pautam por valores diferenciados e o mérito ainda é reconhecido por muitos.
Como diria uma amiga minha, "merda por merda, prefiro aquela que já conheço" ou se prefirem a versão simplista da Mad, apenas tenho a acrescentar "FUCKING ASSHOLES"!

8 comentários:

Teresa disse...

xiiiii, capitão!!!!
há gente muito insegura mesmo! muito desprovida de valores. oh os valores! onde andam eles?!?!?!?

como eu o compreendo. um beijo.

Evelyne Furtado disse...

Capitão-Mor
Seu comentário chocou-me profundamente. Tenho certeza que você encontrou pessoas educadas aqui em Natal, que agiram corretamente com você.
Vou encarar como um desabafo, pois eu não posso classificar todos os portugueses pelos que me trataram mal, quando também conheci bons portugueses.
Muita coisa que vc falou é verdade, mas não é exclusiva da sociedade brasileira.
Sinceramente eu me senti ofendida.

Júlia Moura Lopes disse...

como eu o entendo, Capitão!

Ás vezes penso que não há lugares perfeitos. Qeu não haveria lugar par mim, mas jamais me isolo e aprendi a fechar os olhos a muita coisa...

cada vez gosto mais de si,sabia?

beijinho

musqueteira disse...

...as festas são festas. não há festa que não termine nem outra que não aconteça. mas... a maior festa é a da vida. e nessa festa, só a dança quem ainda estiver vivo. então... capitão????!!!!!... há também festas assim... em que dá vontade saltar fora da barca e navegar para outro sitio. navegar é preciso:)

Teresa Durães disse...

também não aprecio ambientes desse tipo: não que circule nos círculos elitistas; bem pelo contrário. Continuo a preferir a solidão do que a hipocrisia

Carla disse...

"QUEM INDICA", capitão fabulosa a reestruturação dessa sigla...aliás ela diz tudo!
boa semana

av disse...

Já vejo que teremos um novo regresso em breve... depois da Mad, quero dizer. E será muito bem-vindo, Capitão. Guardaremos os trópicos para umas férias idílicas, que para isso não há melhor...
Um beijo

Mad disse...

Capitão, vim atrasada mas vim. Só me resta fazer-te uma profunda vénia e vergar-me ao teu fantástico poder de descrição e à elegante acutilância das tuas críticas. Eu sou mais "fucking assholes" e isso faz-me perder a razão. PARABÉNS.

E vem-te embora. There's no place like home.

Bjs.