quinta-feira, 10 de maio de 2007

O portuga dos jornais


Tenho quase por hábito religioso, ler a crónica quinzenal do português João Pereira Coutinho na Folha de S.Paulo. Considero-o um dos melhores cronistas da minha geração, a par da equipa da Revista Atlântico e do blogue 31 da Armada.
Os seus textos são sempre marcados por uma uma certa irreverência e uma lúcida leitura dos acontecimentos político-sociais da actualidade. Hoje, não resisto a transcrever a sua última crónica absolutamente deliciosa. Aos interessados, devo informar que nesta quinta-feira, é distribuído de forma gratuita na Sábado, o livro Avenida Paulista que reúne grande parte das crónicas publicadas por este jornalista, no prestigiado diário paulista.

Virgens ofendidas

"A virgindade era um fardo. Leitor que é leitor sabe do que falo. Basta lembrar os 13, ou 14, ou 15 anos, quando as conversas da escola rondavam esses assuntos. Virgens, nós? A imaginação tomava o lugar da experiência e começava o desfile de conquistas para espantar os colegas tão inexperientes como nós. Comiam-se bairros inteiros de amigas, e as mães das amigas, e uma ou outra empregada que entrava no quarto sem bater à porta primeiro. Os outros olhavam-nos com o espanto próprio dos inocentes e, para não ruborizarem em excesso, partilhavam igualmente as mentiras da idade. Virgens, todos. Garanhões, mais ainda. E quando o dia sacramental chegava, o ato era um detalhe. O prazer também. O alívio, total: como se tivessem libertado Sísifo da sua pedra incansável. Vai, Sísifo, esquece o fardo, esquece a pedra.
Por isso é estranho acompanhar as notícias que chegam de Inglaterra. Lydia Playfoot, 16, vai processar a escola. Motivo? A escola não permite que Miss Playfoot (curioso nome) ostente em público a sua virgindade e o comprometimento de chegar intacta ao casamento. Lydia usa um pequeno anel, inventado em 1995 por um evangélico do Arizona. A escola não gosta do anel por razões de segurança e higiene. E porque o anel "viola" (peço desculpa pelo verbo) a política escolar sobre joalharia.

Confesso: as razões de segurança e higiene, eu entendo. Vi umas fotos de Lydia nos jornais e saber que esta jovem de 16 anos gosta de mostrar a sua condição virginal ao mundo é como largar uma galinha na Etiópia. Um convite ao motim e uma barreira evidente à aprendizagem serena e responsável.
Mas interessantes são as leis da escola sobre jóias. Segundo parece, o estabelecimento permite que os alunos muçulmanos ou sikhs possam usar lenços, calças e outros adereços religiosos. O contrário seria uma intromissão intolerável na liberdade de culto e expressão. Mas isso não impede a mesma escola de proibir cruzes ou crucifixos, e qualquer manifestação exterior de religiosidade cristã, ou vagamente cristã. Como o anel.

O caso não ilustra apenas a imbecilidade do sítio. Mostra como o pensamento multiculturalista, que sustenta grande parte das "políticas sociais" na Europa, é, na verdade, um exemplo de intolerância que nega os seus próprios fundamentos. O multiculturalismo pressupõe uma visão neutral sobre culturas distintas, concedendo a cada uma delas a sua dignidade intrínseca. Mas essa suspensão de julgamento termina à porta do Ocidente. Termina, no fundo, à porta da tradição judaico-cristã. Todas as culturas merecem respeito, com a exceção de uma única. Que, por acaso, é a cultura da maioria.
E a virgindade de Lydia? É talvez um pouco risível que uma adolescente de 16 anos prefira anunciar ao mundo o que deve ser um assunto pessoal e privado. Mas a atitude é tão risível e, no limite, tão condenável como as histórias adolescentes e passadas, em que o anel era outro: um anel invisível de conquistas imaginárias para aliviar o fardo real da abstinência.
E se a estupidez é crime, não há adolescente que escape."

15 comentários:

LoiS disse...

Eu entendo-te, ou ele não fosse de facto o tipo que escreve a coluna "à direita" no Jornal Expresso, ficando o Daniel Oliveira encarregue da coluna "à esquerda".

Diabólica disse...

~
Passei só para deixar um beijão.

Claudinha disse...

Olá, tem razão, a leitura é cativante e ele é lúcido. Gostei do modo como analisa o fato e sua conclusão.
Beijo!

AnadoCastelo disse...

Por alguma razão ele escreve no Expresso. Também gosto dos artigos dele.
Bjs

PS: não fiquei nada zangada por não aceitares o desafio, também eu fiquei a pensar duas vezes se havia de responder ou não. Só aceitei por ter sido a Pinky a fazer o desafio senão não tinha respondido. Já chega de inquéritos destes. Até parece que voltámos à escola primária.

freemind disse...

Gosto particularmente da frase: E se a estupidez é crime, não há adolescente que escape!

Nem adolescente, nem adulto... lol

B. disse...

Fantastico! Bela cronica!

tens no meu blog algo com "cheiro" a brasil"

beijo

Mel disse...

Capitão, é sempre bom sugestões de leituras e livros. Obrigada e bom fim de semana!
Mel

marta disse...

Agora é a minha vez de VINGANÇA!!
:))


Tenho um desafio para ti. É interessante, pelo menos. eu achei.

marco disse...

eu comprei esse livro, ainda nao comecei a ler, espero que seja bom!!! abraço!

Maríita disse...

Parece-me um livro interessante. Vou investigar ;)!

Ana disse...

Beijinhos e bom fim-de-semana!

lili disse...

adoro uma boa leitura mas nao conheço o brasil adorava conhecer um bom fim de semana bjs

Cristina disse...

Adorei o texto... haja alguém que lucidez suficiente para chamar as coisas pelos nomes.

Bom fim-de-semana e um beijinho

Luís Graça disse...

O livro "saiu-me" numa das newsmagazines portuguesas. Li uma crónica sibre o escritor Elias Canetti.
Conheci o João Pereira Coutinho há uns anos, através do Pedro Mexia. Depois, à conta dos blogues, zangaram-se.
É um belo cultor da ironia e possui uma "bagagem" apreciável.

cris disse...

Considero a folha de Sao Paulo um dos melhores jornais brasileiros. E pelo o cara aí é bom mesmo, merece ser prestigiado mesmo :=)